Guerra no Irã reforça a necessidade da transição energética

Caos geopolítico e disparada do petróleo reforçam a percepção de insegurança energética baseada nos combustíveis fósseis.
12 de março de 2026
transição energética 2
Stela Herschmann, imagem OC

No curto prazo, a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã até pode ser um estímulo à exploração de combustíveis fósseis fora do Golfo Pérsico. Mas a indústria do petróleo somente entrega resultados exploratórios em médio e longo prazos. Além disso, as eventuais reservas de petróleo e gás ainda não exploradas estão em regiões de acesso mais difícil e, portanto, são mais caras e incertas. Logo, o caminho para garantir a segurança energética que o petróleo não entrega, como mostra o atual conflito no Oriente Médio, é acelerar a transição para a energia renovável produzida localmente.

“A guerra acontece em um cenário em que a transição energética é inevitável. Esse caos geopolítico, junto com as ameaças a que essa guerra nos expõe, reforça a percepção de que num mundo baseado em energias renováveis a gente teria menos riscos”, explica Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima (OC). Ela é coautora do estudo que mapeou iniciativas já em curso para a descarbonização das economias e mostra que quase 50 países já têm planos para eliminar combustíveis fósseis.

Em entrevista  a’O Globo, a especialista avalia que o conflito no Irã deve fortalecer a mobilização para o mapa do caminho rumo ao fim dos combustíveis fósseis, a cargo da presidência brasileira da COP30. “Do ponto de vista econômico, se os países não se convencerem pelo argumento climático de que deveriam transicionar para energia renovável, talvez se convençam pelo impacto econômico. O preço do petróleo vai fazer a inflação disparar e empurrar pessoas para a pobreza, sobretudo em países que já têm dificuldades. Mas isso afeta o crescimento econômico do mundo inteiro.”

Stela também menciona o mapa do caminho encomendado pelo governo brasileiro. Em dezembro passado, o presidente Lula incumbiu os ministérios da Casa Civil, Meio Ambiente, Minas e Energia e Fazenda de elaborarem diretrizes para um mapa do caminho para além de petróleo, gás fóssil e carvão. As normas deveriam ter sido entregues no início de fevereiro, mas até agora isso não aconteceu. “Se o Brasil anunciou que vai fazer um mapa do caminho, então é o momento de a gente colocar pressão para que isso saia do papel”, ressalta.

A urgência desse guia para a transição energética se torna mais óbvia a cada dia de conflito no Oriente Médio. Ontem (12/3), o petróleo Brent, referência do mercado mundial, voltou a superar os US$ 100 o barril (leia aqui). Foi a segunda vez, em menos de uma semana, que a commodity superou esse valor. Há pouco mais de 10 dias, o preço do Brent girava em torno de US$ 65. A escalada, inclusive, já impactou os valores de gasolina e diesel tanto nos EUA, país que iniciou a guerra, quanto em outros países, como o Brasil.

Especialistas avaliam que, se a guerra continuar, o Brent poderá chegar a US$ 150 até o fim de março. O governo do Irã, porém, foi mais sombrio: alertou que se os ataques ao país continuarem, os países devem se preparar para o barril de petróleo a US$ 200. Se isso de fato acontecer, os impactos podem se espalhar rapidamente pela economia global, destaca a VEJA.

Para Bruno Yamashita, coordenador de Alocação e Inteligência da Avenue, o principal reflexo da alta seria a pressão da inflação global, já que o preço do petróleo não impacta apenas os preços do diesel e da gasolina, mas também praticamente todos os setores da economia. Além disso, as moedas dos países emergentes, como o Brasil, podem sofrer muito com as reações do mercado.

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