
A grande perturbação causada pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã nos mercados de energia, com o estrangulamento da oferta e a escalada dos preços do petróleo e do gás, é uma lição sobre os riscos da dependência dos combustíveis fósseis. Por isso, o conflito deve levar os governos a desvincular suas economias do petróleo e do gás mais rapidamente, disse o secretário-executivo da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC), Simon Stiell.
“Se alguma vez houve um momento para acelerar a transição energética, rompendo com as dependências que têm aprisionado as economias, esse momento é agora”, disse Stiell, em entrevista à Reuters. Mais uma fala que acaba com a “segurança energética” que os defensores da exploração de petróleo “até a última gota” tentam associar aos combustíveis fósseis.
Stiell se reuniu ontem (16/3) com autoridades e ministros da União Europeia. Ele reiterou que os aumentos de preços dos combustíveis fósseis desencadeados pelo conflito no Oriente Médio demonstraram como a forte dependência do petróleo e do gás importados ameaça a segurança nacional e o custo de vida.
Assim, a decisão dos EUA e de Israel de bombardear o Irã, apesar das ações de Trump para travar a transição energética – ao ponto de inventar que a UE teve prejuízos bilionários ao investir em renováveis -, pode ter o efeito oposto. O jornal The Observer destaca que os fundamentos econômicos das energias renováveis, tanto em termos de custo quanto de sustentabilidade do fornecimento, são agora poderosos demais para serem contestados.
Enquanto isso, sem sinal de fim da guerra e com o barril do petróleo ainda acima dos US$ 100 e subindo, os países correm para tentar proteger suas economias do impacto inflacionário e do abastecimento, explica a Reuters. O Brasil, por exemplo, zerou impostos federais sobre o óleo diesel e taxou as exportações de petróleo para tentar conter aumentos de preços dos combustíveis (embora a Petrobras tenha reajustado o diesel dois dias depois).
As ações governamentais para minimizar o novo choque do petróleo ocorrem nos quatro cantos do planeta. A China proibiu as exportações de combustíveis refinados para se antecipar a uma possível escassez no mercado interno e também está liberando suprimentos de fertilizantes de reservas comerciais nacionais antes do plantio da primavera. Já a Índia ordenou às refinarias que maximizem a produção de gás liquefeito de petróleo (GLP, o gás de botijão), além de reduzir as vendas à indústria, a fim de evitar a escassez de GLP para 333 milhões de residências.
Nos EUA, até mesmo as petrolíferas – que estão ganhando muito dinheiro com o choque do petróleo (leia aqui) – alertaram autoridades do governo Trump de que a crise energética desencadeada pela guerra contra o Irã piorará, informam Wall Street Journal e Reuters. Os CEOs da Exxon, Chevron e ConocoPhillips, em uma série de reuniões na Casa Branca e em conversas recentes com os secretários de Energia, Chris Wright, e do Interior, Doug Burgum, frisaram que a interrupção do fluxo de petróleo e gás pelo Estreito de Ormuz continuará a gerar volatilidade nos mercados globais de energia.
Financial Times, Reuters, Financial Times, Axios, Reuters, Financial Times, The Telegraph e Reuters também repercutiram a guerra no Oriente Médio.
Em tempo: O conflito no Irã já mexe com o mercado de alimentos, destaca a Bloomberg. Agricultores em toda a Ásia e na Europa enfrentam a escassez de combustível necessário para operar máquinas essenciais. Produtores de grãos da Austrália estão enfrentando cortes no fornecimento de combustível antes da época de plantio. Em Bangladesh, alguns agricultores de arroz não conseguem obter diesel para alimentar as bombas de irrigação, enquanto os pescadores nas Filipinas podem, em breve, ter que manter seus barcos em terra. Se a crise de abastecimento se prolongar, os preços dos alimentos aumentarão e agravarão as preocupações globais com a inflação decorrente da guerra.



