
As chances de um tratado global ambicioso contra a poluição por plásticos diminuíram nesta 4a feira (13/8), no penúltimo dia de negociações da ONU em Genebra, na Suíça. Uma proposta de texto apresentada pela presidência do grupo negociador causou irritação entre representantes da sociedade civil e dos países da Coalizão de Alta Ambição, que acusam as nações produtoras de petróleo e plástico de bloquear as negociações.
O esboço proposto não inclui pontos cruciais para conter a poluição plástica, como a redução da produção de plásticos nem a proibição do uso de produtos químicos tóxicos na sua composição. Como o Guardian assinalou, mais de 100 países rejeitaram a proposta, tida como “inaceitável” e “pouco ambiciosa”.
Um dos países mais vocais na oposição ao texto foi a Colômbia. A delegação do país classificou o texto como “desequilibrado” e inviável como base para o futuro acordo. Outras nações também foram contundentes na reprovação ao texto, como México, Chile, Gana, Canadá, Noruega, Reino Unido, União Europeia e o grupo de pequenos países insulares em desenvolvimento.
O esboço também não agradou os petroestados e os grandes produtores de plástico. O grupo defende um acordo focado na gestão de resíduos, sem metas de redução da poluição plástica e sem restrição à produção desses materiais.
“O sentimento nos corredores é de que a cada hora que passa esse acordo fica mais distante. Há um clima de esgotamento nas delegações”, afirmou à Folha o conselheiro da ONU para gestão de resíduos Carlos Silva Filho. Já a ministra Maria Angélica Ikeda, chefe da delegação brasileira nas negociações, classificou como importante a “resistência dos polos extremos” da negociação.
“Países desenvolvidos têm demonstrado muito pouca flexibilidade nos debates sobre financiamento. Países do like-minded group [petroestados], pouca flexibilidade nos artigos sobre produção. Países da Coalizão de Alta Ambição, pouca flexibilidade em ceder na sua ambição. O Brasil veio para negociar e facilitar negociações”, disse a diplomata.
Mas o posicionamento dos negociadores brasileiros em Genebra tem irritado aqueles que defendem um acordo ambicioso contra poluição por plásticos. Como a Agência Pública informou, o Brasil não se posicionou sobre questões críticas do tratado, ao mesmo tempo em que adotou argumentos similares aos grandes produtores de petróleo. Esse ponto já tinha sido levantado pela Coalizão Vida Sem Plástico em nota da última 3a feira (12), na qual criticou o governo brasileiro pela falta de ambição. O Climate Home também abordou os posicionamentos do Brasil.
O impasse dificulta a possibilidade de um acordo, já que os negociadores têm até o final desta 5a feira (14) para fechar um entendimento. Mas ainda há expectativa de avanço dos países em direção ao acordo. “Este tratado só será eficaz se incluir proibições globais juridicamente vinculantes e a eliminação gradual de produtos plásticos e substâncias químicas preocupantes, problemáticas e evitáveis. A maioria dos países já apoia essas medidas. O que falta é transformar essa posição em decisão concreta”, comentou Michel Santos, gerente de políticas públicas do WWF Brasil, ao Valor.
AFP, Associated Press e Independent também repercutiram a situação das negociações em Genebra.



