
Oito associações de diferentes segmentos do setor elétrico chamam a atenção para a gravidade do atual nível de cortes na geração de energia, prática conhecida como curtailment. O grupo avalia que o ritmo acelerado de expansão das micro e mini geração distribuída (MMGD), estimulada por subsídios continuamente estendidos, aumenta tanto o risco de apagões como prejuízos financeiros que acabam no bolso do consumidor.
As associações sugerem uma reavaliação dos incentivos a MMGD e a revisão da forma de valorar a energia produzida por essas unidades. Também defendem que a geração distribuída passe a estar sujeita a cortes físicos e mecanismos financeiros para ratear os custos, informam Jota, Poder 360, Canal Solar, Megawhat e Canal Energia.
Uma das principais críticas é que a MMGD não é passível de corte de geração. Assim, essas plantas, aliadas ao aumento da produção de energia por fontes intermitentes, como solar e eólica, elevam a oferta de eletricidade no Sistema Interligado Nacional (SIN) em determinadas horas do dia, independente da demanda. Com isso, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que não têm controle sobre a geração distribuída, é obrigado a cortar outras fontes para evitar sobrecarga do sistema elétrico. Resumindo: em um mesmo dia o Brasil pode ter excesso de eletricidade e cortes no fornecimento elétrico.
“A contradição entre sobra e falta evidencia que não basta aumentar a capacidade instalada, é preciso garantir que a energia esteja disponível quando ela é necessária. Pode ajudar a expansão da rede de transmissão. Também é fundamental avançar no armazenamento em larga escala. Por fim, a sinalização de preços e a resposta da demanda podem orientar os consumidores a consumir mais quando há sobra e a reduzir o uso nos horários de escassez”, detalha na eixos o fundador e CEO da Lead Energy, Raphael Ruffato.
Com a MMGD, o consumidor pode gerar sua própria energia e fornecer o excedente para a rede. Em troca, recebe uma compensação de crédito, quando a injeção elétrica é maior que o consumo. Defensores da modalidade afirmam que os consumidores têm direito de gerar sua própria energia e que impor cortes à geração distribuída não é uma solução justa para o problema setorial.
A delicada situação faz o ex-diretor da ANEEL, Edvaldo Santana, afirmar que o setor elétrico brasileiro virou um “ponto de encontro dos custos ocultos”. Custos que batem no consumidor, seja por falta de energia, seja pelo preço maior de fontes mais caras para cobrir o desequilíbrio entre oferta e demanda.
“A geração (infinitamente) distribuída, e abundante durante o dia, deteriora a confiabilidade. É aí que entram os custos ocultos, pois ninguém conhece a confiabilidade real. Usamos a ótima geração distribuída para trilhar o caminho da inflexibilidade. Milhões de telhados brilham durante parte do dia, mas, depois do fim da tarde, geram tanta eletricidade quanto uma abóbora, o que deixa a oferta tão frágil quanto uma abobrinha. Fomos incompetentes ao não prever esse efeito”, disse no Valor.
Em tempo: A linha de transmissão que vai ligar Manaus (AM) a Boa Vista (RR) iniciou os testes de energização nesta semana, informa o Valor. A obra, prevista para ser concluída até o fim do ano, marcará a conexão do único estado brasileiro que permanecia isolado ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Com isso, o governo deve interromper a importação de energia da Venezuela para Roraima nos moldes atuais, segundo o Valor. Atualmente a energia importada do país vizinho é bancada em parte pela Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), usada para custear a eletricidade em sistemas isolados. Com a conexão, não será mais possível usar esses recursos.



