
As petrolíferas sabem há mais de 50 anos que a queima de combustíveis fósseis é a principal causa das mudanças climáticas. Tiveram tempo – e dinheiro – de sobra para impulsionarem a transição energética, oferecendo fontes renováveis de energia. Anunciaram investimentos nessa direção, mas muito pouco se efetivou. E rapidamente voltaram a investir mais na exploração de petróleo e gás fóssil, vendendo como solução de descarbonização via tecnologias caras e sem eficácia comprovada, como a captura e o armazenamento de carbono.
Pressionadas diante da urgência climática, petrolíferas como a Petrobras dizem que precisam produzir mais combustíveis fósseis para financiar a transição energética. Mas um estudo publicado na Nature Sustainability comprova o que já se sabia: essas empresas têm participação quase zero na expansão das fontes renováveis de energia no planeta. E a geração renovável é traço no balanço energético dessas companhias.
Feita por cientistas do Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Autônoma de Barcelona (ICTA-UAB), uma pesquisa mostra que as 250 maiores companhias de petróleo e gás do mundo respondem por apenas 1,42% dos mais de 53 mil projetos de energia renovável em operação no planeta, informam Um só planeta, Cenário Energia, Revista NE, UOL, NewScientist e SustainableViews. A análise se baseia em dados do Global Energy Monitor.
Os maiores produtores de petróleo e gás são responsáveis por 88% da produção global desses combustíveis fósseis, mas apenas 20% deles possuem algum projeto de energia renovável em funcionamento. E essas iniciativas representam apenas 0,1% da energia primária que essas empresas ofertam.
“A participação das petroleiras na expansão das renováveis é, na melhor das hipóteses, anedótica”, disse Marcel Llavero-Pasquina, autor principal do estudo. “A contribuição delas para o enfrentamento da crise climática deve ser julgada apenas pela quantidade de combustíveis fósseis que deixam de extrair do subsolo”, acrescenta. O que, pelos planos dessas companhias [Petrobras incluída], significa agravamento, e não contenção, das mudanças do clima.
De acordo com dados da Zero Carbon Analytics, das 100 maiores empresas de petróleo e gás fóssil do mundo, quase um quarto fixou metas de redução de emissões até 2030, com um compromisso médio de 43% de cortes nas próprias operações. No entanto, o estudo mostra que o avanço concreto rumo às energias limpas é mínimo.
Logo, não cola a venda a ideia da necessidade de produzir mais combustíveis fósseis para investir em renováveis, como repetem insistentemente a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, seus diretores e gerentes. “As companhias de petróleo e gás simplesmente não estão investindo em renováveis como prometeram. Alegar o contrário é puro greenwashing”, concluiu Kasandra O’Malia, gerente de projetos do Global Solar Power Tracker, do Global Energy Monitor.
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Em tempo 1: Por falar em “mais petróleo para bancar a transição energética”, O Globo lembra que o IBAMA deverá liberar neste mês, às vésperas da COP30, a licença para a Petrobras explorar combustíveis fósseis no bloco FZA-M-59, na bacia da Foz do Amazonas. Contudo, termina no início desta semana o prazo dado pelo Ministério Público Federal (MPF) para o órgão ambiental se manifestar sobre a recomendação de não concessão da licença sem a realização de um novo simulado de vazamento de petróleo e atendimento à fauna na região.
Em tempo 2: Há dois anos o Equador surpreendeu o mundo e votou contra a exploração de combustíveis fósseis no Parque Nacional Yasuní, no coração da Amazônia equatoriana. No entanto, novas ameaças da indústria de petróleo e gás fóssil à Floresta Amazônica estão surgindo, e a decisão não foi implementada, conta Kevin Koenig, diretor de clima, energia e indústrias extrativas na Amazon Watch. “A COP30 será um teste decisivo: os governos estão comprometidos em declarar a Amazônia um território livre de extração ou permitirão que ela se torne uma zona de sacrifício? Esperamos que optem pelo bem-estar intergeracional e interespecífico em detrimento da lucratividade a curto prazo”, disse no El País.



