
Os Estados Unidos de Donald Trump começaram o ano de 2026 testando os limites do multilateralismo e da diplomacia. Dias após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, em flagrante violação ao direito internacional, o governo anunciou na última 4ª feira (7/1) a saída de vários organismos e regimes internacionais por supostamente “contrariarem” os interesses do país. Um dos alvos foi a governança climática global, que agora não conta com o envolvimento da maior economia do planeta.
Entre os acordos e organizações abandonados pelos EUA, estão o Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a Convenção-Quadro da ONU sobre Clima (UNFCCC). A decisão formaliza algo que vinha ocorrendo na prática desde a volta de Trump ao poder em Washington, há quase um ano. Ao longo de 2025, os EUA não participaram de nenhuma sessão de negociação sobre o clima e sequer enviaram representantes a eventos importantes, como a COP30 em novembro passado.
O distanciamento dos EUA da diplomacia climática global faz parte dos esforços de Trump para desmontar as bases da ação climática dentro e fora do país. No último ano, a Casa Branca acabou com as políticas climáticas deixadas pelo ex-presidente Biden e enfraqueceu os órgãos e as leis ambientais federais. Ao mesmo tempo, favoreceu os interesses da indústria de combustíveis fósseis, com sinal verde para exploração em áreas ambientalmente sensíveis e para o crescimento da exploração nos próximos anos.
Na relação de 66 órgãos e regimes internacionais que deixarão de contar com os EUA, estão também a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA). Em alguns casos, a saída é imediata, dependendo apenas de comunicação pelo Departamento de Estado.
Já no caso da UNFCCC, o caminho para a porta de saída é mais incerto. Formalmente, os EUA devem comunicar ao Secretariado da Convenção a denúncia do tratado, o que inicia o período de um ano para a formalização da saída. No entanto, como assinalou o Guardian, há dúvidas quanto à constitucionalidade da decisão nos EUA, já que a adesão do país à UNFCCC foi referendada pelo Senado norte-americano em 1992; alguns juristas argumentam que, da mesma forma, a denúncia da Convenção também precisaria ser aprovada pelos senadores.
As reações à decisão de Trump foram fortes, ao menos no discurso. O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, lembrou o papel crucial dos EUA na construção do regime multilateral para o clima desde os anos 1990 e ressaltou que, apesar dos solavancos que essa medida pode causar nas negociações climáticas, os EUA serão os principais prejudicados. “Enquanto todas as outras nações avançam juntas, este último passo atrás na liderança global, na cooperação climática e na ciência só poderá prejudicar a economia, os empregos e o padrão de vida dos EUA”, afirmou em nota.
Já as organizações da sociedade civil condenaram a irresponsabilidade do governo dos EUA ao dar as costas para um problema que eles próprios causaram. “O anúncio não apaga a responsabilidade histórica [dos EUA] por prejudicar nosso planeta e as pessoas, nem por não fornecer os fundos necessários para apoiar os países em desenvolvimento no enfrentamento das consequências de seu modelo econômico irresponsável”, destacou Tasneem Essop, diretora-executiva da Climate Action Network (CAN International).
Thelma Krug, cientista brasileira e ex-vice-diretora do IPCC, afirmou à Folha que, com a saída dos EUA, Trump pretende aumentar a incerteza nas conclusões dos próximos relatórios do Painel sobre a crise climática. “A partir do instante em que deixa de ter muitas publicações [de pesquisas norte-americanas], vai ficando mais incerto [o conhecimento científico], e eu acho que é isso que o Trump quer. Ele quer dar mais incerteza às conclusões, porque não vamos ter observações, não vamos ter alguns dados”, pontuou.
A saída dos EUA da Convenção do Clima e do IPCC teve grande repercussão na imprensa, com destaques na BBC, Carbon Brief, Climate Home, CNN, Deutsche Welle, Guardian, NBC News, NY Times e Reuters. No Brasil, veículos como Capital Reset, Folha, Neomondo, ((o)) eco, Um Só Planeta e Valor repercutiram a notícia.



