Por Trump, Fórum Econômico Mundial evita tratar de mudanças climáticas

Retórica tradicional dos ricaços reunidos em Davos centrava-se na integração global, nas mudanças climáticas e na cooperação internacional.
19 de janeiro de 2026
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Domínio Público CC0 1.0

Os super-ricos do mundo, que já esgotaram sua cota anual de emissões de carbono nos 10 primeiros dias de 2026, estão reforçando essa sujeira desde ontem (19/1) no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Mas o tradicional convescote da elite econômica promete ser diferente este ano, deixando de lado a crise climática e outras questões socioambientais. Tudo para não desagradar o presidente dos Estados Unidos, o nefasto Donald Trump.

Um ano após o início do segundo mandato do “agente laranja”, e com mais três pela frente, o tema oficial do fórum pode provocar dissonância cognitiva: “Um Espírito de Diálogo”, destaca a Bloomberg. Afinal, sob Trump, os EUA podem tratar aliados como inimigos; apropriar-se do petróleo da Venezuela; exigir que a Dinamarca ceda a Groenlândia – com qualquer país que se oponha a isso sujeito a mais tarifas – e abalar empresas, mercados e economias inteiras com uma publicação em sua rede social. Para reforçar suas intenções, Trump declarou que seu poder é limitado apenas “pela minha própria moralidade ”.

Os organizadores do fórum estão acostumados às dificuldades de apresentar um encontro de executivos e líderes mundiais como uma busca por uma visão. No entanto, a divergência entre os ideais tradicionais da organização e as novas dinâmicas de poder é tão gritante este ano que parece ter levado à rendição, à aceitação de que nenhum conjunto de princípios pode unir as pessoas que acorrem a Davos, explica o New York Times.

Em um comunicado à imprensa , os organizadores destacaram a necessidade de discussão “em meio ao cenário geopolítico mais complexo em décadas”, “marcado pela crescente fragmentação e rápidas mudanças tecnológicas”. Contudo, ao contrário dos anos anteriores, não houve qualquer menção às mudanças climáticas ou à necessidade de uma transição energética, muito menos à promoção do comércio. Houve apenas uma promessa de debater “os assuntos que mais importam às pessoas, às economias e ao planeta”.

Termos-chave antes muito usados – tributação justa, anticorrupção, sustentabilidade e justiça social – ficaram praticamente fora dos pronunciamentos oficiais, enquanto os organizadores do fórum preparavam o tapete vermelho para receber o “agente laranja”, que deve discursar amanhã.

Há quem prometa bater de frente com Trump. O magnata australiano da mineração Andrew Forrest – o primeiro investidor privado do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado pelo Brasil na COP30 – afirmou ao AFR que alertará os participantes de que a complacência não é uma opção. “A solução não é recuar, mas sim redobrar os esforços, porque a história mostra que o custo da hesitação é sempre muito maior do que o custo da liderança.”

No entanto, a incursão de Forrest não deve mudar o cenário do encontro. “Este é o fim de Davos”, disse Mark Blyth, economista político da Universidade Brown. “Não tem relevância nenhuma.”

Mais do que isso, Blyth faz a “pergunta de bilhões de dólares”, mostra o Business Times: “A questão mais importante é: será que alguma vez teve relevância fora das classes intelectuais que estavam inseridas no status quo desde o início?”

Em um mundo cada vez mais governado por pessoas que se opõem aos seus objetivos tradicionais, o Fórum Econômico Mundial parece ter se reduzido ao seu propósito central: uma reunião de negócios. E com os super-ricos emitindo mais e mais carbono em seus jatinhos, mas agora sem “culpa”.

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