
“A gente não fica tranquilo. Ainda mais num momento como esse, depois de tudo que aconteceu em Brumadinho. A Vale soltou uma nota dizendo que está tudo tranquilo, mas como que fica tranquilo se o meio ambiente foi atingido? A riqueza sai daqui e a comunidade fica abandonada. Passam os anos e nada muda.”
O desabafo, feito ao R7, é do pedreiro Adriano Faria, morador há 15 anos do bairro Mota, uma das áreas mais baixas da região de Congonhas e Ouro Preto e cercada por mineradoras. Ele conta que a população convive diariamente com poeira, lama e incertezas. E os dois vazamentos de água com rejeitos ocorridos nas minas de Fábrica e Viga, da Vale, em menos de 24 horas, aumentaram ainda mais a apreensão das pessoas.
A mineradora – responsável também pela barragem de Córrego do Feijão, em Brumadinho, que rompeu há sete anos e matou 272 pessoas – paralisou as operações das duas minas. A interrupção ocorreu após a Prefeitura de Congonhas suspender os alvarás de funcionamento de Fábrica e Viga, informam UOL, ADVFN, InfoMoney, O Tempo, Terra e Money Times. A prefeitura ainda determinou a adoção de medidas emergenciais de controle, monitoramento e mitigação ambiental pela Vale.
O governo de Minas Gerais autuou a mineradora após os vazamentos, segundo o Poder 360. As ocorrências mobilizaram órgãos ambientais e de defesa civil e serão objeto de fiscalização formal da administração estadual. Pelo lado federal, na 2ª feira (26/1), o Ministério de Minas e Energia (MME) determinou à Agência Nacional de Mineração (ANM) que investigue os acidentes.
Na madrugada de domingo (25/1), um dique da mina de Fábrica transbordou depois de chuvas intensas na região. A enxurrada de água misturada com rejeitos avançou por áreas adjacentes e atingiu instalações da CSN Mineração, sem registro de mortos ou feridos. Poucas horas depois, foi identificado novo extravasamento na mina de Viga, cujo fluxo de água contaminada alcançou o Rio Maranhão, segundo a Prefeitura de Congonhas.
Segundo a Vale, os extravasamentos não têm relação com barragens de rejeitos, que não houve carreamento de rejeitos de mineração e que as ações de inspeção e manutenção são reforçadas durante o período chuvoso. Segundo a empresa, as causas dos dois episódios estão sendo apuradas e os aprendizados serão incorporados aos planos de contingência. Acredite quem quiser.
Enquanto a Vale dá desculpas esfarrapadas, o governo mineiro faz vista grossa e o Congresso praticamente extingue o licenciamento ambiental no país com o PL da Devastação – inclusive para atividades impactantes como a mineração -, quem vive à sombra das mineradoras sente uma insegurança permanente. “Não teve vítima, graças a Deus, mas o impacto psicológico, ambiental e social fica. A gente vive em cima de uma riqueza enorme, mas é tratado como se não existisse”, resume um morador de Congonhas.
Valor, Poder 360, Estadão e Estado de Minas também noticiaram a interrupção das operações da Vale em duas minas.



