
Se depender dos supermercados europeus, a Moratória da Soja continua valendo. Em carta aberta publicada na semana passada, as principais redes varejistas da Europa alertaram que a soja brasileira poderá ser cortada de seus contratos de fornecimento, caso as tradings do setor agrícola não assegurem a procedência do produto de áreas livres de desmatamento.
Grandes nomes do varejo europeu cobraram de presidentes globais das principais tradings agrícolas do mundo um posicionamento, até 16 de fevereiro, sobre a saída de suas empresas da Moratória da Soja. Os supermercados deixaram claro que manterão a exigência de excluir soja produzida em áreas desmatadas da Amazônia após julho de 2008.
O documento apresenta três frentes de cobrança. No plano estratégico, pede que cada trading informe se pretende aderir à moratória de forma independente; no campo das políticas corporativas, solicita confirmação de que os compromissos climáticos e de desmatamento permanecem inalterados e que a data de corte de 2008 para a Amazônia segue válida; no aspecto operacional, exige a descrição dos controles de compra para assegurar soja livre de desmatamento e o compromisso com monitoramento, reporte e verificação independentes dos sistemas utilizados, detalham Um só planeta e Capital Reset.
O documento é assinado por redes como Tesco, Sainsburys, ASDA, ALDI, LODL, Marks & Spencer, Morrisons e Ocado, além de outros grupos ligados ao varejo e à indústria de alimentos da Europa, e é endereçada aos CEOs de ADM, Bunge, Cargill, Louis Dreyfus Company e COFCO International, com cópia para a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e para o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), André Nassar, relata o Broadcast.
Sobre a ABIOVE, os signatários afirmam estar “profundamente decepcionados” com a saída voluntária da entidade do pacto firmado em 2006. A associação representa as maiores tradings agrícolas do planeta que operam no Brasil e era a principal signatária do acordo pelo lado do setor privado.
Do ponto de vista dos compradores, os varejistas afirmam que nada muda com o esvaziamento do acordo, e que as regras continuarão a valer. O alerta é que a soja brasileira pode ser cortada se as tradings não assegurarem a procedência do produto. O Brasil é o maior exportador do grão do mundo, lembra a Folha.
Para justificar a “implosão” da Moratória da Soja – acordo voluntário, iniciado em 2006, pelo qual tradings se comprometem a não adquirir soja produzida em áreas desmatadas na Amazônia após julho de 2008 -, a ABIOVE e também a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) afirmam que o Código Florestal já é suficiente para assegurar a sustentabilidade da comercialização da soja. Mas um estudo da pesquisadora Aline Soterroni, da Universidade de Oxford, demonstra que a aplicação apenas do código evitaria apenas metade do desmatamento total projetado para a expansão da agropecuária no país até 2050.
A pesquisadora vai além. Aline afirma, no The Conversation, que a aplicação da moratória expandida ao Cerrado não interferiria no crescimento da produção do grão. Sua pesquisa utiliza modelagem matemática e econômica do uso da terra para chegar a essas conclusões.
Com o fim da moratória, permanece a dúvida se Lula conseguirá cumprir uma de suas principais promessas de campanha: zerar o desmatamento no país até 2030. Promessa também ratificada na COP30.
Brasil 247, Veja, Globo Rural, Canal Rural, CNN Brasil, Gigante 163 e AGFeed também abordaram a carta das varejistas europeias.



