
O início oficial das Olimpíadas de Inverno de 2026 em Milão-Cortina, na Itália, nesta 6a feira (6/2), expõe como a redução da confiabilidade climática já ameaça o futuro do evento. Temperaturas cada vez mais elevadas durante o inverno, escassez de neve natural e dependência crescente de neve artificial transformaram os Alpes italianos em um retrato da crise climática, enquanto o patrocínio de empresas de combustíveis fósseis aos jogos levanta questionamentos sobre o modelo que sustenta uma competição cada vez mais vulnerável às mudanças do clima, provocadas principalmente pela queima de petróleo, gás fóssil e carvão.
O cenário já está remodelando não apenas esta edição dos jogos, mas o futuro dos esportes de inverno como um todo – inclusive em regiões tradicionalmente frias, como os Alpes italianos. Mas o fenômeno não se restringe ao país europeu.
Um estudo da Climate Central mostra que todas as 19 cidades que sediaram os Jogos Olímpicos de Inverno desde 1950 registraram aumento de temperatura, com uma média de 2,7°C até 2021. Milão, que receberá as modalidades de gelo em ambientes fechados, também aqueceu de forma significativa: as temperaturas médias de fevereiro subiram 3,2°C no período analisado. Para os Jogos de Inverno Paralímpicos, que serão realizados em março, o cenário é ainda mais delicado, já que as temperaturas se aproximam do período de degelo da primavera.
A análise indica que, desde a última vez em que Cortina d’Ampezzo sediou o evento, em 1956, as temperaturas médias de fevereiro na cidade subiram 3,6°C. No mesmo período, o número de dias com temperaturas abaixo de zero caiu em 41 dias por ano – uma redução de quase 20%. A consequência direta é a perda de neve no solo e a dificuldade crescente de manter pistas seguras e estáveis para competições de alto rendimento.
Outras análises mostram que a profundidade média da neve em fevereiro em Cortina diminuiu cerca de 15 centímetros entre 1971 e 2019, refletindo tendências observadas em toda a cadeia dos Alpes. Mesmo em áreas de alta altitude, a neve natural já não garante condições mínimas para os eventos. Por isso, os Jogos de 2026 dependerão fortemente de neve artificial: mais de 3 milhões de jardas cúbicas (2,3 milhões de metros cúbicos) serão produzidas para viabilizar as provas ao ar livre.
Menos frio, menos sedes possíveis
Outro estudo, publicado em 2024, avaliou 93 cidades que já sediaram ou poderiam sediar Olimpíadas e Paralimpíadas de Inverno, considerando dois critérios essenciais: temperaturas mínimas iguais ou inferiores a zero e profundidade adequada de neve. Atualmente, 87 dessas cidades ainda apresentam condições confiáveis para os Jogos Olímpicos de Inverno. Na década de 2050, porém, esse número deve cair para 52, mesmo em um cenário intermediário de aquecimento global.
Para os Jogos Paralímpicos, o quadro é mais severo. Hoje, pouco mais da metade das cidades analisadas apresenta condições climáticas adequadas. Na década de 2050, apenas 22 devem manter esse status. Em cenários de altas emissões, a realização de competições de inverno em março se torna praticamente inviável até o fim do século.
Impactos diretos nas competições
As mudanças no clima já afetam o cotidiano dos atletas. Modalidades como esqui alpino, snowboard e bobsled enfrentam temporadas mais curtas, pistas mais duras ou instáveis e maior risco de lesões. Sem temperaturas suficientemente baixas, a neve não se mantém seca nem congelada adequadamente, o que compromete a justiça da competição, já que atletas que largam mais tarde tendem a enfrentar piores condições.
No bobsled, por exemplo, pistas ao ar livre exigem temperaturas abaixo de zero para manter o gelo em condições ideais. A necessidade constante de refrigeração artificial evita o derretimento, mas pode gerar camadas de gelo irregulares ou geada, alterando o desempenho dos trenós. Em esportes como o snowboard e o esqui freestyle, a falta de neve natural também afeta a formação de rampas e obstáculos, elevando o risco de acidentes.
Um estudo de 2022 indica que 94% dos atletas de elite e treinadores estão preocupados com os impactos da mudança climática sobre o futuro de seus esportes. Além das competições, o problema se estende aos treinos: atletas têm sido obrigados a se deslocar cada vez mais em busca de locais com neve suficiente, um fenômeno conhecido como “caça à neve”.
Pressão pública questiona modelo atual
Em outra frente, pesquisas de opinião revelam um aumento da preocupação social com o futuro dos esportes de inverno. Levantamentos realizados em países como Itália, França, Alemanha e Canadá mostram que a maioria da população associa a perda de neve ao aquecimento global e defende mudanças na forma como os Jogos são financiados e organizados.
Entre fãs de esportes de inverno – atletas amadores, praticantes e espectadores – cresce o questionamento sobre a presença de empresas de combustíveis fósseis como patrocinadoras de eventos que dependem diretamente de clima frio e neve abundante. Em vários países, esse grupo é o que mais apoia o fim desse tipo de patrocínio, refletindo uma percepção de contradição entre o modelo econômico atual e a sobrevivência do próprio esporte.



