
Um estudo publicado no Journal of Hydrology X analisou os impactos do avanço do desmatamento sobre regiões de transição entre o Cerrado e a Amazônia e como a destruição impacta a disponibilidade de água na região. A pesquisa revela que oito bacias hidrográficas no leste de Mato Grosso sofrem impactos como aumento do risco de cheias no período chuvoso e baixa disponibilidade hídrica na estação seca.
O estudo contou com participação de pesquisadores do IPAM. Ao longo de três anos, os especialistas analisaram uma área com diferentes graus de inclinação do terreno e cobertura de vegetação nativa, variando entre 10% e 80%. Os resultados mostram que bacias mais desmatadas têm dificuldade em absorver o volume de água, com redução de processos como evapotranspiração e infiltração da água no solo. Com isso, sofrem maior vazão durante eventos de chuva forte, indicando maior risco de enchentes e rápidas alterações no comportamento dos cursos d’água.
“Conseguimos monitorar a vazão dos córregos de forma contínua, com medições a cada hora, em uma região com poucos dados hidrológicos. Isso nos permitiu entender como o desmatamento acelera o escoamento da chuva, aumenta o risco de enchentes e reduz a água disponível na estação seca”, explica a pesquisadora do IPAM e principal autora do artigo, Hellen Almada.
Já na estação seca, o efeito é oposto, ou seja, pouca vazão de água. Em bacias com alto nível de desmatamento, a vazão chega a apenas 10% do fluxo anual, enquanto em bacias com vegetação conservada o fluxo é de 30% no período – mesmo em anos com menor precipitação.
A pesquisa também mostra caminhos para conciliar produção agropecuária e conservação dos recursos hídricos. Por exemplo: a manutenção de pelo menos 50% da vegetação nativa em áreas de maior inclinação pode contribuir para maior estabilidade na disponibilização de água ao longo do ano.
Planejamento territorial e conservação estratégica da vegetação são apontados como elementos centrais para garantir segurança hídrica e produtividade no longo prazo.
Em tempo: A Fundação SOS Mata Atlântica completa 40 anos em 2026. Para seu diretor-executivo, Luís Fernando Guedes Pinto, restaurar o bioma é questão de sobrevivência. Em entrevista no Valor, ele lembra que o desmatamento na Mata Atlântica caiu, mas o bioma segue ameaçado, e seu colapso significa impactos profundos na economia, saúde e disponibilidade hídrica. A organização atua agora em uma estratégia de aliança multissetorial que promova a restauração de uma área crucial entre São Paulo, Rio e Minas: as bacias dos rios Tietê e do Paraíba do Sul. “Parar de desmatar é urgente para a gente sobreviver. É do interesse do povo brasileiro”, reforça.



