
Os corais do arquipélago de Abrolhos, no extremo sul da Bahia, estão sentindo intensamente os impactos das mudanças climáticas, da poluição e do desmatamento. Um levantamento inédito, realizado ao longo de 18 anos, mostra que houve reduções drásticas nas populações de espécies essenciais ao equilíbrio ambiental do Atlântico Sul. Algumas, como o coral-de-fogo, chegaram a quase desaparecer, destaca a Folha.
O estudo foi publicado na revista Proceedings of the Royal Society. A pesquisa analisou dados de monitoramento coletados de 2006 a 2023, período em que ocorreram três eventos de branqueamento massivo, sendo dois globais e um local.
Os pesquisadores descobriram que o coral-de-fogo, que só existe no Brasil, já está em estado de colapso em Abrolhos. Sua cobertura já era baixa no início do estudo – menos de 2% – e diminuiu ainda mais após 2017, auge de uma onda de calor marinha iniciada no ano anterior e que provocou o terceiro evento global de branqueamento.
Os corais-de-fogo são os únicos corais ramificados do Atlântico Sul e servem de berçário para peixes e invertebrados, que usam os ramos para se protegerem. A espécie é particularmente sensível ao calor.
As altas temperaturas de 2017 também levaram a uma redução brusca no coral-cérebro-da-bahia. A população desta espécie, que é endêmica – ou seja, só existe naquele local -, teve um declínio de 45%.
Ao longo do período analisado, a cobertura coralínea de Abrolhos caiu cerca de 15%. Isso porque o espaço deixado pelas espécies maiores e mais complexas foi ocupado por outras, menores e oportunistas. Conhecidos como corais “ervas daninhas”, eles têm crescimento rápido, vida curta e não são capazes de construir recifes. Essa população, que era a menos abundante em 2006, aumentou em mais de 150% até 2023.
“Quando a gente olha para a métrica de cobertura coralínea total, parece que é um declínio pequeno (de 15%). Mas o ecossistema recifal se simplificou nas últimas décadas, perdendo funções e complexidade. Em longo prazo, ele tende a fornecer menos benefícios para a sociedade”, explica o biólogo Rodrigo Moura, professor da UFRJ e um dos autores do estudo.
O Banco dos Abrolhos estende-se por 46 mil km² na costa brasileira e abriga os maiores e mais ricos recifes de coral do Atlântico Sul. Historicamente, a região sofreu menos com o estresse térmico, mas os episódios de ondas de calor aumentaram desde 2010.