
Cientistas que estudam a elevação do nível do mar têm usado métodos que subestimam a altura que a água já atingiu. Com isso, centenas de milhões de pessoas a mais em todo o mundo já vivem perigosamente perto dos oceanos – em elevação por causa das mudanças climáticas – do que que se estimava até então.
Um estudo publicado na 4ª feira (4/3) na revista Nature descobriu que a grande maioria dos estudos científicos cometeu esse erro. Os níveis do mar costeiros são, em média, de 20 a 30 centímetros mais altos do que muitos mapas e modelos das linhas costeiras do mundo indicam, segundo a pesquisa. Em regiões do sul global – como o Sudeste Asiático e o Indo-Pacífico – essa diferença pode chegar a 1 metro a 1,5 metro acima das estimativas anteriores, destaca o Um só planeta.
A pesquisa não indica erros dos estudos anteriores em suas conclusões mais amplas sobre a taxa de elevação do nível do mar ou os danos que isso pode causar. O que as novas descobertas significam é que os cientistas frequentemente partiam de um ponto de partida errado ao calcular quais terras e populações poderiam ser afetadas no futuro, frisa o New York Times.
Na prática, isso significa que mais territórios e pessoas serão afetados com a elevação dos oceanos do que se previa. Como explica a AP, uma linha de base de altura costeira mais precisa significa que, se o nível do mar subir um pouco mais de 1 metro, como alguns estudos sugerem que acontecerá até o final do século, as águas poderão inundar até 37% mais terras e ameaçar entre 77 milhões e 132 milhões de pessoas a mais, segundo o estudo.
Uma distorção de 20 cm em previsões de elevação do nível do mar não é pouca coisa, reforça O Globo. Para efeito de comparação, a média global adotada como consenso pelo painel de cientistas do clima da ONU (IPCC), por exemplo, é de 44 cm para um cenário de aquecimento de 2°C em 2100.
A pesquisa combinou a análise de 385 artigos científicos revisados por pares, publicados entre 2009 e 2025, com cálculos da diferença entre os níveis costeiros do mar geralmente assumidos e os níveis reais medidos. Os autores, Philip Minderhoud e Katharina Seeger, da Universidade de Wageningen, na Holanda, descobriram que mais de 90% deles não utilizaram medições locais e diretas do nível do mar, mas sim medições da elevação do terreno referenciadas a modelos geoidais globais.
Os modelos geoides fornecem uma estimativa dos níveis globais do mar com base na gravidade e na rotação da Terra. Como consequência, os níveis do mar foram subestimados em média entre 24 e 27 cm, dependendo do modelo geoidal utilizado, com algumas discrepâncias chegando a impressionantes 550-760 cm, segundo o Guardian. “O nível do mar é influenciado por fatores adicionais, como ventos, correntes oceânicas, temperatura e salinidade da água do mar”, pontua Minderhoud.
O especialista sugeriu que a correção dessas medidas seja uma das missões importantes para o próximo relatório de avaliação do IPCC, que começa a ser feito neste ano. Para governos que fazem seus projetos de adaptação climática, diz Minderhoud, também é importante levar em conta potenciais diferenças em suas previsões.
A nova pesquisa sobre o nível do mar foi noticiada também por Financial Times, Vox, Daily Mail, CBS, Independent, Veja e Gizmodo.



