
O governo do Irã está tomando medidas para restringir ou fechar o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, à navegação, como parte da reação aos ataques promovidos por Estados Unidos e Israel ao país. Os mercados reagiram ao movimento concentrando-se no risco para os fluxos de petróleo e gás, na perspectiva de preços mais altos do petróleo bruto e nas pressões inflacionárias que se seguiriam. Mas isso representa apenas uma parte da história. A guerra também pode afetar – e muito – os preços dos alimentos mundo afora.
Uma interrupção prolongada do tráfego pelo estreito não constituiria apenas uma crise energética. Representaria também um choque nos preços dos fertilizantes – com aumentos drásticos e queda na oferta – e, por extensão, um risco direto para a segurança alimentar global, destaca o The Conversation.
Cerca de um terço da ureia comercializada globalmente passa por Ormuz. O Golfo Pérsico está no centro deste sistema por duas razões estruturais. Primeiro, oferece acesso a um gás fóssil, usado na produção de amônia, dos mais baratos do mundo. Depois, ao longo de décadas, vastos investimentos de capital construíram capacidade de produção de amônia e ureia em países do Oriente Médio, incluindo Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Isso visa o mercado de exportação.
O fechamento de fato do estreito está afetando o transporte de amônia e nitrogênio, ingredientes essenciais em muitos fertilizantes sintéticos, explica o Guardian. Cerca de metade da produção mundial de alimentos depende de nitrogênio sintético, e a produtividade agrícola cairia sem fertilizantes. A consequente escassez aumentaria os preços de produtos básicos como pão, macarrão e batatas, além de encarecer a ração animal.
Além disso, o Irã é o quarto maior exportador mundial de ureia, o fertilizante nitrogenado mais utilizado no mundo, atrás de Rússia, Egito e Arábia Saudita. Com o país sendo bombardeado dia sim, outro também, pelas forças estadunidenses e israelenses, o impacto nas vendas é inevitável.
Com sua economia fortemente baseada no agronegócio, o Brasil – que depende de fertilizantes importados – acendeu o sinal amarelo. A escalada do conflito já aumentou os preços desses produtos, mas, no curto prazo, o impacto sobre o país tende a ser limitado. O momento do calendário agrícola funciona como um amortecedor, mesmo diante da retirada de ofertas e da pressão logística na região, avaliam analistas ouvidos pela Exame.
Mas a atual tranquilidade dependerá da duração da guerra, o que é uma incógnita, assim como os planos do presidente dos EUA, Donald Trump, para o Oriente Médio. “No caso dos fertilizantes, a alta internacional de preços traria efeitos importantes sobre a agropecuária brasileira, fortemente dependente das importações desse produto. O aumento do custo deste insumo encareceria a produção no campo e posteriormente os preços de alimentos in natura e industrializados”, pontua à CNN Brasil a economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti.
g1, Dinheiro Rural e Times Brasil também repercutiram os impactos da guerra no Irã nos preços e no fornecimento mundial de fertilizantes.



