ClimaInfo, 28 de setembro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

PARA PENSAR NOS IMPACTOS CLIMÁTICOS DAS ELEIÇÕES

Em e-mail a nós enviado, o historiador da Unicamp, Luiz Marques, sugere a leitura de cinco artigos baseados em evidências científicas. Ele diz que os artigos nos lembram que estão em jogo, “nestas eleições e nos próximos cinco ou dez anos, a possibilidade de ainda conseguirmos mitigar as mudanças climáticas, de evitar uma crescente escassez hídrica e alimentar, ondas letais de calor e secas mais recorrentes e prolongadas”. Para Marques, “os estudos mostram que estamos próximos de um ponto crítico no clima e no desmatamento, o qual, uma vez ultrapassado, pode desencadear dinâmicas de aceleração no aquecimento global e uma transição abrupta da floresta amazônica para uma vegetação não florestal. Isso significará a inviabilização de nossa agricultura e, em geral, de nossas sociedades. Nada há que se compare em importância a isto”.

Já comentamos a maioria destes artigos por aqui, mas em conjunto eles provocam um forte sentido de urgência. Boa leitura.

Amazon on the brink

https://www.nytimes.com/2018/09/26/opinion/amazon-climate-change-deforestation.html

Amazon Tipping Point

http://advances.sciencemag.org/content/4/2/eaat2340

Three years to safeguard our climate https://www.nature.com/news/three-years-to-safeguard-our-climate-1.22201

Prove Paris was more than paper promises https://www.nature.com/news/prove-paris-was-more-than-paper-promises-1.22378

The threat of political bargaining to climate mitigation in Brazil https://www.nature.com/articles/s41558-018-0213-y

 

AINDA SOBRE O CRESCENTE RISCO AMBIENTAL DAS ELEIÇÕES

Arnaldo Carneiro, diretor do programa de cadeias de abastecimento da Global Canopy, também escreveu sobre as eleições e as ameaças que vêm de vários candidatos. Ele destaca o peso das agendas da bancada ruralista nas campanhas de Bolsonaro e Alckmin e o quanto isso põe em risco a integridade da Amazônia e do Cerrado. Carneiro entende que é perfeitamente possível aumentar a produção de grãos e as receitas do agronegócio sem precisar de mais desmatamento. Para ele, “abordagens inteligentes para o planejamento do uso do meio ambiente natural do Brasil podem ajudar a satisfazer a necessidade de alimentos, empregos e desenvolvimento, sem destruir o meio ambiente no processo. Infelizmente, esta abordagem não apareceu nesta eleição – o povo brasileiro merece coisa melhor”.

https://medium.com/trase/what-do-brazils-elections-mean-for-the-country-s-forests-56b10cb70eee

 

RESERVATÓRIOS DE HIDRELÉTRICAS EM NÍVEIS BAIXOS

A confirmar as previsões que indicam poucas chuvas nos próximos meses, os níveis dos reservatórios das hidrelétricas podem ficar mais baixos do que estiveram em 2001. Por isso, especialistas entendem que as térmicas devam continuar ligadas, inclusive as mais caras. Em 2001, o nível baixo dos reservatórios foi o motivo do “apagão”. Para evitar outros, o governo tratou de construir muitas térmicas a óleo e a gás. São essas que, hoje, afastam a possibilidade de outro “apagão”. Por outro lado, são elas que fazem a conta de energia continuar alta.

https://www.valor.com.br/brasil/5887307/reservatorios-caminham-para-nivel-critico

 

A INTEGRIDADE AMBIENTAL DO RENOVABIO EM DISCUSSÃO

O Renovabio quer promover biocombustíveis para reduzir as emissões do setor de transportes, quer induzir processos mais eficientes na produção destes com as receitas da vendas dos CBios e, também, quer garantir a integridade ambiental dos biocombustíveis, tornando inelegíveis os produtores que suprimirem vegetação nativa. Ontem, em conversas com a ANP, ficou combinado que será possível cortar árvores isoladas. Desde as primeiras discussões sobre o programa, os usineiros de álcool e biodiesel apontaram que, se a regra da supressão da vegetação nativa for levada a ferro e fogo, seriam poucos os produtores que iriam participar do programa. Cada usina, dizem, compra cana, soja e milho de muitos produtores de todos os tamanhos, e não tem como controlar se houve ou não desmatamento. Esse é um dos pontos delicados do programa, porque a declaração do produtor a respeito precisa ser auditada. Ainda não foram definidos os critérios e meios pelos quais se auditará a eventual supressão da vegetação nativa em todos os fornecedores das usinas.

https://www.valor.com.br/agro/5887185/renovabio-aceitara-corte-de-arvore-isolada

 

GOVERNO ANUNCIA INCENTIVOS ÀS RENOVÁVEIS E AO CRESCENTE MERCADO DE SEUS CERTIFICADOS

O governo anunciou ontem a abertura de uma linha de crédito voltada para pessoas físicas e microempresas que queiram gerar energia a partir de fontes renováveis. A linha usará recursos do BNDES Finame e do Fundo Clima.

Uma outra notícia sobre renováveis é a expectativa de aumento das transações com os Certificados de Energia Renovável (REC, Renewable Energy Certificate), que poderão ser declarados no GHG Protocol. Os certificados são emitidos para geradores de fontes renováveis e comprados por consumidores que querem atestar que estão comprando destas fontes. O mercado no Brasil ainda é incipiente, mas, lá fora, chega a movimentar alguns bilhões de dólares, principalmente nos EUA, na UE e na Índia. Com a abertura do GHG Protocol, analistas esperam um movimento de 3 milhões de RECs no ano que vem, o triplo do que deve ser gerado neste ano.

http://www.mma.gov.br/informma/item/15119-governo-anuncia-recursos-para-expans%C3%A3o-da-oferta-de-energia-fotovoltaica.html

https://www.canalenergia.com.br/noticias/53076140/mercado-de-certificados-para-renovaveis-deve-disparar-em-2019

https://www.ghgprotocolbrasil.com.br/empresas-brasileiras-avancam-na-gestao-de-emissoes-de-carbono

 

O CLIMA NA PAUTA DESTA SEMANA EM NOVA YORK

Vários discursos feitos na abertura da Assembléia Geral da ONU, em Nova York, colocaram o clima como um dos principais e urgentes desafios para os governos. Por lá, na 4a feira, foi aberta a reunião do One Planet Summit, que reuniu vários líderes de governo. O presidente francês, Emmanuel Macron, conclamou todos a aumentar ambições, cumprir compromissos e, principalmente, ajudar a financiar a transição global para um regime de baixas emissões. Foi lembrado que Trump está em processo para tirar os EUA do Acordo, que a Austrália está ameaçando seguir atrás e até Bolsonaro foi mencionado com sua promessa de fazer o mesmo. Macron também disse que todos os presentes serão responsabilizados pelo que acontecer com o clima no futuro.

Seguem saindo comentários sobre o Relatório 1,5oC que o IPCC lançará no começo de outubro, indicando o que o mundo precisa fazer para não deixar a temperatura da atmosfera esquentar mais que 1,5oC acima dos níveis pré-industriais. Drew Shindell, um dos autores do relatório e climatólogo da Universidade de Duke, disse ao jornal inglês The Guardian que os governos “não estão nem de longe no caminho” do cumprimento de seus compromissos para a manutenção do aquecimento global abaixo dos 1,5oC e que, “ainda que seja tecnicamente possível, é extremamente improvável, a menos que haja uma mudança completa na maneira pela qual avaliamos riscos”.

Sobre este tema, um trabalho que acaba sair na Annual Review of Environment and Resources mostra que estamos muito próximos do ponto a partir do qual limitar o aquecimento em 1,5oC se torna proibitivamente caro.

https://www.afp.com/en/news/23/world-leaders-gather-breathe-new-life-paris-accord-doc-19h0gg4

https://www.lemonde.fr/climat/article/2018/09/27/a-new-york-emmanuel-macron-se-pose-en-rassembleur-de-la-finance-climatique_5360906_1652612.html

https://www.theguardian.com/environment/2018/sep/26/global-warming-climate-change-targets-un-report

https://www.annualreviews.org/doi/pdf/10.1146/annurev-environ-102017-025817

 

GOVERNO JAPONÊS QUER SALVAR O PLANETA ENQUANTO CONSTRÓI MAIS TÉRMICAS A CARVÃO

Apesar do primeiro ministro japonês, Shinzo Abe, jurar pelo Sol Nascente que é imperativo agir contra a mudança do clima, seu governo continua a planejar mais térmicas a carvão. Aliás, dentre os países do G7, o Japão é o único que o faz. São 15 térmicas em construção e 17 em fase de planejamento. Junto com a China, investiram quase US$ 15 bilhões em carvão nos últimos cinco anos.

https://www.ft.com/content/e375ae6c-bffa-11e8-95b1-d36dfef1b89a

 

BANCO MUNDIAL QUER ACELERAR ADOÇÃO DE BATERIAS NO MUNDO EM DESENVOLVIMENTO

Para ajudar os países em desenvolvimento a aumentar sua capacidade de armazenamento de eletricidade em baterias, o Banco Mundial lançou um programa de mais de US$ 1 bilhão e espera captar outros US$ 4 bilhões. O objetivo é, até 2025, ter instalada uma capacidade de armazenagem de 17,5 GWh por meio de financiamentos diretos e esquemas de redução de risco para barateá-los. Os projetos elegíveis compreendem grandes plantas solares, sistemas isolados, minirredes distribuídas até a aplicação de baterias apenas para estabilizar e reforçar redes elétricas. O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, disse que “as baterias são fundamentais para descarbonizar os sistemas elétricos mundiais. Elas permitem armazenar energia solar e eólica e despachá-la quando é mais necessária, provendo eletricidade limpa, acessível e a qualquer hora do dia… Podemos criar novos mercados para armazenamento em países com grande potencial eólico e solar (…) para populações que ainda vivem sem eletricidade confiável”.

https://www.worldbank.org/en/news/feature/2018/09/26/powering-new-markets-for-battery-storage

 

A DESTRUIÇÃO DE MANGUEZAIS E PÂNTANOS É MAIOR QUE A DE FLORESTAS

A Convenção sobre Zonas Úmidas (wetlands) de Importância Internacional, mais conhecida como Convenção Ramsar, publicou seu primeiro Panorama Global de Zonas Úmidas, mostrando que, entre 1970 e 2015, o planeta perdeu um terço destas zonas numa taxa três vezes maior do que a de perda de florestas tropicais. E essa perda vem se acelerando desde a virada do século. As zonas úmidas compreendem lagos, rios e pântanos, assim como áreas costeiras como estuários, lagoas, manguezais e corais. Estima-se que cubram mais de 13 milhões de km2 e que, se fossem um país, seriam equivalentes ao segundo maior em extensão, só menores que a Rússia. Desta área, a Convenção declarou que cerca de 2,5 milhões de km2 são de Importância Internacional. As principais causas de sua destruição são a mudança do clima, o aumento populacional e a urbanização – principalmente em zonas costeiras. Direta ou indiretamente, quase toda água potável do mundo vem destas áreas. Mais de um bilhão de pessoas dependem delas para viver.

A secretária-geral da Convenção, a colombiana Martha Rojas Urrego, disse que “está ocorrendo um lento despertar para o valor das zona úmidas. Em todo o planeta, a esfera legislativa precisa inserir as zonas úmidas em políticas, programas e fazer investimentos para sua sustentabilidade. Precisamos educar o mundo sobre a importância crítica desse ecossistema em vias de rápido desaparecimento. Sem as áreas úmidas no mundo, todos nós estaremos por um fio”.

O Brasil e outros 170 países ratificaram a Convenção.

https://www.ramsar.org/news/wetlands-worlds-most-valuable-ecosystem-disappearing-three-times-faster-than-forests-warns-new

https://www.lemonde.fr/planete/article/2018/09/27/lacs-rivieres-marais-et-mangroves-disparaissent-a-grande-vitesse_5361006_3244.html

 

Para ir

PLATAFORMA 2018: BRASIL DO AMANHÃ – ENERGIA

O Museu do Amanhã convida para debater o futuro da energia e seus impactos no desenvolvimento do país, com a participação de Amanda Schutza, do CPI, Sergio Leitão, do Escolhas, Edson Silva, da Engie, e Eliane Borges, do Sebrae.

Segunda, 1o de Outubro, das 18h às 21h, no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro.

Para fazer sua inscrição, mande um e-mail para o endereço abaixo. Se for acompanhado, informe o nome do acompanhante.

rsvp@museudoamanha.org.br

 

Para ir

DIÁLOGO TALANOA: O RELATÓRIO ESPECIAL DO IPCC – 1,5oC

Com a participação de Paulo Artaxo, membro IPCC, professor titular do Instituto de Física da USP e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), este evento do Diálogo Talanoa busca entender como as grandes empresas vêm contribuindo para o cumprimento do Acordo de Paris e orientar sobre o papel da sociedade no combate às mudanças climáticas.

Dia 19 de outubro, das 13h às 18h, no Auditório do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

https://biblioteca.cebds.org/evento-talanoa-19-10-2018-inscricoes

 

Para ver

A TEMPERATURA AUMENTANDO EM TODOS OS CANTOS DO MUNDO

O conceito de temperatura média global pode ser um tanto abstrato e, por isso, usado por gente como Trump e negacionistas para ironizar o aquecimento global. Para trazer o aquecimento para mais perto, o pessoal do Carbon Brief acaba de soltar um mapa de como a temperatura variou em cada canto do planeta, desde 1900, que também projeta para onde as temperaturas podem ir segundo quatro dos modelos climáticos do IPCC.

https://www.carbonbrief.org/mapped-how-every-part-of-the-world-has-warmed-and-could-continue-to-warm

 

Para ler

ATLAS DO AGRONEGÓCIO – FATOS E NÚMEROS SOBRE AS CORPORAÇÕES QUE CONTROLAM O QUE COMEMOS

Publicação lançada pelas fundações alemães Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo. Com riqueza de dados, mapas e infográficos, o “Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos” apresenta artigos de especialistas nacionais e estrangeiros que desvendam a cadeia do agronegócio no Brasil e no mundo e fazem um Raio X da atuação das grandes corporações transnacionais que dominam o setor.

A publicação pode ser baixada no link abaixo.

https://br.boell.org/pt-br/2018/09/04/atlas-do-agronegocio-fatos-e-numeros-sobre-corporacoes-que-controlam-o-que-comemos

 

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