ClimaInfo, 22 de novembro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

SEEG 2018: EMISSÕES BRASILEIRAS PERMANECEM ESTÁVEIS

O Observatório do Clima lançou ontem a 6a edição de seu Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), com dados que vão até 2017. A boa notícia diz que nossas emissões totais caíram um pouco, 2,3%, apesar da economia ter crescido 1%. Como anunciado no ano passado, o desmatamento na Amazônia caiu 12% em relação ao registrado em 2016, mas continua 5% maior do que o registrado em 2015, o de menor taxa dos últimos 10 anos. A má notícia dá conta do aumento do desmatamento do Cerrado em 11%. Além disso, as emissões da queima de combustíveis fósseis continuam subindo e se tornando cada vez mais relevantes, apesar das recorrentes bravatas quanto à nossa matriz energética ser a mais limpa do mundo. Infelizmente ela não é a mais limpa, e está piorando a cada ano.

No evento de lançamento, o físico Paulo Artaxo mostrou o tamanho do desafio que o mundo tem pela frente para manter o aquecimento global sob controle, seja em 1,5oC, seja em 2oC. Para Artaxo, o desafio pede um nível de governança global e uma união de esforços bem difícil de ser conseguida.

Na mesa redonda final, Marina Silva, Sarney Filho, Alfredo Sirkis e Suely Araújo se mostraram bem preocupados com o que pode acontecer com o meio ambiente nos próximos quatro anos.

http://seeg.eco.br/wp-content/uploads/2018/11/SEEG_PR_full_final.pdf

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/11/emissoes-de-gases-do-efeito-estufa-no-brasil-caem-em-2017.shtml

https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2018/11/21/emissoes-caem-mas-brasil-continua-entre-os-paises-mais-poluentes-do-mundo.htm

http://g1.globo.com/globo-news/estudio-i/videos/v/emissoes-de-gases-estufa-no-brasil-caem-23-em-2017/7176962/

 

REALIZAR A COP 25 NO BRASIL É UMA BOA IDEIA?

Temos um presidente que um dia disse querer tirar o país do Acordo de Paris. Temos um futuro ministro das relações exteriores que pensa a mudança do clima como um complô globalista marxista. Temos muitos sinais de um provável aumento do desmatamento da Amazônia no próximo ano. Daí que a jornalista Daniela Chiaretti pergunta, no Valor, se esse é um ambiente favorável à realização da Conferência do Clima do próximo ano. Ela lembra que estes eventos reúnem dezenas de milhares de pessoas durante duas semanas, com um custo estimado da ordem de R$ 400 milhões, enquanto o orçamento de 2019 separou para isto apenas um valor simbólico de R$ 15 milhões. Além de tudo isto, o novo governo precisa cortar gastos de centenas de bilhões para equilibrar seu orçamento.

Com tudo isso, seria 2019 um ano propício para a realização da COP no Brasil?

https://www.valor.com.br/brasil/5991477/ha-clima-para-cop-no-pais-de-bolsonaro

 

O PENSAMENTO DO COORDENADOR AMBIENTAL DO TIME DE TRANSIÇÃO

O biólogo Ismael Nobre é o coordenador ambiental da equipe de transição do próximo governo. Ele tem revelado um pensamento alinhado com o de seu irmão mais velho, o climatólogo Carlos Nobre. Para Ismael, “a melhor forma de preservar a floresta é ganhar dinheiro de modo sustentável com ela. E dá para ganhar ‘dinheiro de verdade’ usando tecnologia de ponta para produzir e transportar produtos ‘premium’, derivados de espécies da fauna amazônica”. Os dois, como muitos outros, buscam produtos e formas de exploração que tenha como base a preservação da floresta em pé. O produto-ícone deste pensamento é o açaí, que passou de um entre muitos frutos aproveitados pelos nativos da região para ser um sucesso mundial que gera US$ 1,6 bilhão por ano. No final, o plano quer mostrar que a floresta em pé gera mais receita para o país do que trocá-la por soja e carne.

A torcida é para que essa luz ilumine a transição e o futuro governo.

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46203151 https://www.terra.com.br/noticias/brasil/governo-bolsonaro-o-que-defende-coordenador-ambiental-do-time-de-transicao,a5adc5b91bc90feb41de28a6713c527drydyuhgh.html

 

MINISTRA INDICADA DA AGRICULTURA QUER TESOURO NACIONAL ASSUMINDO OS RISCOS DO AGRONEGÓCIO

Para fazer frente à crise fiscal, a equipe de Paulo Guedes está conversando com muitos setores para encontrar possibilidades de cortes no orçamento federal. A futura ministra da agricultura, Tereza Cristina, saiu de uma reunião nesta semana desconfiada de que os recursos do Plano Safra, que custeiam a lavoura brasileira, podem sofrer cortes. A deputada, então, saiu propondo que o governo dê garantias para o seguro rural. Esse seguro serve para cobrir os prejuízos do produtor caso a colheita falhe, por exemplo, por falta ou excesso de chuva. Ele é considerado caro pelos agricultores e um aval federal levaria os bancos a reduzir o prêmio. A ideia é meio marota, já que, no final do dia, para o Tesouro Nacional ficaria o risco de bancar a conta.

https://www.valor.com.br/agro/5985073/tereza-cristina-defende-mais-recursos-para-seguro-rural

 

BILHÕES PARA ANGRA 3 E MAIS BILHÕES PARA BELO MONTE

O setor elétrico também vive de bilhões no noticiário. Uma renomada consultoria do setor, a PSR, fez cálculos para ver se terminar Angra 3 é mesmo um bom negócio para o país. Não é, e por muito. Pelas últimas cifras, o país precisaria investir mais R$ 17 bilhões para terminar a obra. Ou então, gastar R$ 12 bilhões para quitar as dívidas e desmontar o que já foi feito. Para pagar a conta, o governo conseguiu aprovar uma tarifa especial para a eletricidade que eventualmente será gerada pela usina no valor de R$ 480 por MWh. Para ver se o negócio é bom, a PSR calculou qual seria para o consumidor o custo de parar a obra e investir em fotovoltaicas capazes de gerar a mesma quantidade de energia. Concluiu que parar a obra e investir em solar sairia R$ 6,6 bilhões mais barato para o consumidor. Depois desse cálculo, só resta para quem defende a usina argumentar que o país precisa, estrategicamente, dominar a tecnologia nuclear. Mas, olhando para o mundo lá fora, para a quantidade de usinas nucleares que estão fechando ou deixando de ser construídas, Angra 3 correria o risco de ser mais uma jabuticaba.

Belo Monte, que ainda não está funcionando à toda, também vaza bilhões. Pelas últimas contas, o preço da usina é simplesmente o dobro do previsto, preço esse vendido como grande negócio para o país. Sem contar que a linha de transmissão também custa bilhões. Ontem, o BNDES liberou mais R$ 5 bilhões para tal linha, sem a qual os bilhões gastos na usina não fariam sentido.

Em tempo: ontem, a justiça multou a dona de Belo Monte e a União pelo não cumprimento de condicionantes relacionadas aos povos indígenas.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/11/concluir-usina-de-angra-3-elevaria-a-conta-de-luz-em-pelo-menos-r-66-bi.shtml

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,socios-ja-gastaram-r-13-bilhoes-com-belo-monte-o-dobro-do-previsto,70002614981

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,bndes-libera-r-5-bilhoes-para-linha-de-belo-monte,70002613919

https://xingumais.org.br/obra/uhe-belo-monte

 

GRUPOS INDÍGENAS DA AMAZÔNIA PROPÕEM UM ‘CORREDOR DA VIDA’ DO TAMANHO DO MÉXICO

A Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), uma aliança de 500 culturas indígenas de nove países amazônicos, propôs a criação da maior área protegida do mundo, um santuário de 200 milhões de hectares para as pessoas, a vida selvagem e a estabilidade do clima, que se estenderia através das fronteiras nacionais desde os Andes até o Atlântico. O plano foi apresentado ontem na Conferência da ONU sobre Biodiversidade que acontece no Egito e coloca a Coica no meio de uma das mais importantes disputas ambientais e políticas do mundo. A Colômbia já havia delineado um projeto de proteção semelhante para ser apresentado nas negociações climáticas do próximo mês, mas a eleição de novos líderes de direita tanto na Colômbia quanto no Brasil colocou uma grande dúvida sobre a oportunidade da proposta. A ideia da Colômbia era menor e se concentrava apenas na biodiversidade e no clima. No mês passado, Bolsonaro disse que só ficaria no Acordo de Paris pelo clima se tivesse como garantir a soberania brasileira sobre as terras indígenas e a região do “triplo A”, o que não é questionado pelas propostas, tanto a da Colômbia quanto a da Coica.

https://www.theguardian.com/environment/2018/nov/21/amazon-indigenous-groups-propose-mexico-sized-corridor-of-life

 

O ÓLEO DE PALMA, QUE SUPOSTAMENTE AJUDARIA A SALVAR O PLANETA, DESENCADEOU UMA CATÁSTROFE

Na primeira década deste século, a União Europeia e os EUA elaboraram leis ambientais encorajando o uso biocombustíveis elaborados a partir de óleos vegetais, uma medida aparentemente ambiciosa para a redução das emissões de CO2 do transporte. Mas as leis foram feitas com base em uma contabilidade incompleta dos seus verdadeiros custos ambientais. Apesar dos avisos sobre possíveis efeitos opostos ao pretendido, as leis foram implantadas e produziram o que agora parece ser uma calamidade de consequências globais. As florestas tropicais da Indonésia, e em particular as das regiões das turfeiras de Bornéu, têm grandes quantidades de carbono acumulado nas suas árvores e solos. O corte e a queima destas florestas para a abertura de espaço para o cultivo do óleo de palma teve um efeito perverso: liberou mais carbono. Muito mais. Pesquisadores da NASA dizem que a destruição acelerada das florestas de Bornéu contribuiu para o maior aumento global em único ano nas emissões de carbono em dois milênios, uma explosão que transformou a Indonésia na quarta maior fonte mundial destas emissões.

https://www.nytimes.com/2018/11/20/magazine/palm-oil-borneo-climate-catastrophe.html

 

ENERGIA EÓLICA E FOTOVOLTAICA NO MUNDO NÃO PRECISAM MAIS DE SUBSÍDIOS

O grupo de energia nova da Bloomberg, a BNEF, concluiu que as energias eólica e fotovoltaica não mais precisam de subsídios para competir e que já são as fontes mais baratas, pelo menos em quase todas as grandes economias. O cálculo da Bloomberg leva em conta os investimentos, a remuneração do financiamento e os custos de operação e manutenção de usinas de diferentes fontes. O resultado vale para China e Índia, onde, até há pouco, o carvão era a fonte mais barata. As eólicas em terra têm um preço de referência de US$ 52 por MWh gerado. Na Índia e no estado petroleiro do Texas, o preço já é de US$ 27 por MWh, mais barato do que as térmicas a ciclo combinado que queimam o gás de folhelho (fracking) extraído no próprio Texas. A combinação de um sistema de baterias com capacidade de armazenamento de 4 horas com a geração fotovoltaica ou eólica já compete com plantas novas a carvão ou a gás natural na Austrália e na Índia.

http://ieefa.org/bnef-unsubsidized-wind-solar-are-now-the-cheapest-bulk-generation-sources

https://www.windpowerengineering.com/business-news-projects/research-reports/onshore-wind-solar-lead-as-cheapest-source-of-new-bulk-power-finds-bnef

 

SERÁ CADA VEZ MAIS DIFÍCIL PARA A HUMANIDADE LIDAR COM AS AMEAÇAS CUMULATIVAS DA MUDANÇA DO CLIMA

Um evento extremo incomoda muita gente, mais de um ao mesmo tempo e no mesmo lugar incomodam muito mais. Um trabalho que acaba de sair na Nature diz que, até o final do século, ocorrerão situações onde até seis eventos simultâneos poderão atingir o mesmo lugar. O trabalho incluiu uma ampla gama de eventos, como, por exemplo, ondas de calor, incêndios florestais, alta do nível do mar, inundações, secas e escassez de água potável. A Califórnia passou por seis meses de calor e seca que culminaram nos incêndios recentes. Além da destruição, a fumaça dos incêndios piorou drasticamente a qualidade do ar nas proximidades de grandes metrópoles como São Francisco e Los Angeles. Como neste exemplo, os desastres são muitas vezes ligados uns aos outros. Um outro exemplo, este para regiões tropicais, combina o impacto do aumento do nível do mar com o da intensificação e aumento da frequência de furacões. O estudo adverte que, tanto as populações precisam se preparar como, talvez ainda mais importante, os governos precisam agir preventivamente na contenção dos impactos, e, ao mesmo tempo, fazer tudo o que puderem para mitigar as emissões e remover o máximo de CO2 da atmosfera plantando árvores, muitas árvores.

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/11/mundo-vai-enfrentar-ate-seis-desastres-climaticos-simultaneos-ate-2100.shtml

https://www.eurekalert.org/pub_releases/2018-11/uoha-ggt111518.php

https://www.nature.com/articles/s41558-018-0315-6

 

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