O que a Pequena Idade do Gelo do século XVII pode nos ensinar sobre a mudança climática?

O começo da Pequena Idade do Gelo inspirou a caça às bruxas na Europa. A perseguição, claro, não conseguiu mudar o clima extremo e, ao longo do tempo, uma nova metáfora iluminista começou a se instalar* 

 

Há muitos séculos atrás, na Europa, os invernos ficaram muito frios e os verões insuportavelmente quentes. “A primavera deste ano foi como o inverno, fria e úmida, a safra de vinho terrível e a colheita ruim”, escreveu o teólogo suíço Heinrich Bullinger em 1570.

 

No início, aquele parecia ser um problema temporário, apenas um ano ruim. Por isso, em todo o continente, os agricultores abandonaram suas tristes colheitas e os vinicultores venderam vinho de uvas verdes bebido com raiva enquanto os consumidores observavam o aumento dos preços dos grãos.

 

Mas o clima extremo continuou estação após estação, até que o anormal se tornou o novo normal. Como disse William Shakespeare na peça Ricardo III, de 1593, “Temos agora o inverno da nossa desesperança”.

 

Em seu livro Nature’s Mutiny, a ser publicado em março pela WW Norton & Company, o jornalista alemão Philipp Blom afirma que Shakespeare escreveu essas palavras como uma descrição literal da sequência de invernos difíceis que acabara de enfrentar. Este período de clima extremo, que se prolongaria por mais de 100 anos, é agora conhecido como a “Pequena Idade do Gelo”, e Blom argumenta que se olharmos para seus efeitos sobre a Europa – onde foram mais bem documentados – vamos entender melhor como chegamos aqui e antecipar o que está por vir, à medida que as mudanças climáticas afetem cada vez mais nossas vidas.

 

Deus nos abandonou

 

Nos tempos de Shakespeare, as autoridades religiosas diziam que Deus punia os humanos com o clima impiedoso por conta de seu mau comportamento, e pediam mais piedade para apaziguar a divindade decepcionada. Este pensamento inspirou a caça às bruxas europeias – colocar mulheres em chamas de fogueiras de alguma forma descongelaria a terra congelada do inverno, faria a chuva cair suavemente sobre as plantações na primavera e resfriaria o sol escaldante do verão. Mas a perseguição não conseguiu mudar o clima extremo, obviamente, e assim, muito lentamente, as ideias sobre como lidar com a crise foram se transformando.

 

Nos 100 anos seguintes, durante o século XVII, uma nova metáfora para o mundo começa a se instalar. Ao invés de um Deus a nos vigiar, o planeta – e toda a natureza – passa a ser tratado como uma espécie de relógio, um mecanismo que segue leis naturais, que nós, humanos, podemos discernir por meio da observação e da experimentação. Os cientistas passam a levar a sério a troca de informações. Os botânicos enviam plantas através dos continentes, e a Europa – lutando para cultivar grãos – adota novos cultivos, como tulipas e batatas, que formaram a base de novos mercados e gastronomias. As economias transformam-se. Os ricos ficaram mais ricos, os pobres mais pobres e nasceu uma pequena classe média.

 

Quando o clima volta a ficar mais temperado, por volta de 1700, muitas das ideias que moldam o mundo no qual vivemos hoje já haviam dominado – incluindo a noção de um mercado livre com lógica própria. E foram estas “forças” de mercado que incentivaram o comportamento que levou à exploração generalizada dos recursos naturais, contribuindo para a atual crise climática, observa Blom.

 

Assim, a cobra come seu rabo. A nova abordagem de cultivo de alimentos e as riquezas induzidas pela Pequena Era do Gelo nos trouxeram ao ponto em que nos encontramos hoje, a observar nossas geleiras a derreter e o nível do mar a subir.

 

Quanto mais as coisas mudam

 

Não é comum se pensar que a Pequena Idade do Gelo tenha sido causada pelos humanos, embora uma pesquisa publicada na revista Quaternary Science Reviews dispute este pensamento e conclua que a guerra e a doença que se abateram sobre os nativos da América do Norte quando da ocupação europeia levou ao arrefecimento. Alguns levantam a hipótese que esta tenha sido resultado do aumento da atividade vulcânica que influenciando a salinidade dos oceanos, teria alterado as pressões em águas profundas e, como resultado, mudado o clima. Outros argumentam que o aumento da atividade vulcânica é o resultado, e não a causa, do clima extremo.

 

Qualquer que seja a causa, Blom afirma que podemos entender melhor o futuro examinando estes eventos do passado. A história nos mostra como chegamos onde estamos, bem como as dificuldades que teremos pela frente.

 

Se Blom está certo, temos razões para ter medo e, também, esperança. A Pequena Idade do Gelo foi um período de crise na Europa. Mas a necessidade mais uma vez provou ser a mãe da invenção. Os problemas suscitaram inovação e exploração, lançando as bases para um modo de vida totalmente novo.

 

Por exemplo, quando o clima extremo se instalou pela primeira vez, Amsterdam era essencialmente uma aldeia pouco expressiva nos Países Baixos. Em menos de um século, tornou-se uma movimentada cidade portuária e uma metrópole sofisticada, um lugar onde intelectuais de todos os credos e crenças trocaram ideias radicais e novas, onde os mercados, as artes e as editoras prosperaram. O comércio com os portos marítimos bálticos, onde os cereais eram cultivados por servos cujo trabalho era essencialmente não remunerado, ajudou Amsterdam a evoluir.

 

A transformação positiva foi forçada por circunstâncias difíceis. Assim, na melhor das hipóteses, também nós teremos o nosso próprio tipo de período iluminista. Mas, com base na história, antes que as coisas melhorem, elas vão piorar, prevê Blom.

 

Leve apenas o que você precisa

 

A sua análise da Pequena Idade do Gelo, no que esta afetou a Europa, documenta minuciosamente as lutas de um continente em evolução. Para administrar sob novas circunstâncias e alimentar populações famintas em casa, os europeus dependiam da exploração internacional em massa – da escravidão e da colonização – e do crescimento de grandes quantidades de riqueza que levaram à ascensão do continente.

 

Os ricos europeus também espremiam os pobres em seu próprio território na busca da obtenção de lucro. Os proprietários de terras em todo o continente eliminaram os bens comuns públicos, que antes os aldeães podiam deixar seus animais a pastar ou cultivar algum grão. A agricultura que era feita em pequena escala para alimentar famílias individuais, tornou-se um grande negócio exportador de alimentos em escala do campo para as cidades em crescimento, e isso incentivou os proprietários das terras a reivindicar todos os seus terrenos. Blom explica:

 

“O sistema social e econômico das sociedades feudais europeias se assentava na propriedade da terra e na produção local de grãos. Este era seu pilar central, bem como sua principal vulnerabilidade. Quando as temperaturas diminuíram o suficiente para perturbar a produção de grãos e, portanto, minar este pilar, todo o modelo social entrou em declínio. Os europeus foram forçados a pensar em formas alternativas de se organizar e de organizar sua vida econômica”.

 

Esta eliminação dos bens comuns levou os sem-terra à migraram para as cidades em crescimento, onde trabalhavam por uma ninharia para comprar os grãos de que necessitavam. Enquanto isso, os ricos impulsionaram suas fortunas por meio da especulação nos mercados que agora ofereciam possibilidade de investimento em novos produtos.

 

A cebola mais justa

 

As tulipas, por exemplo, provocaram a primeira bolha documentada nos mercados de ações. Tudo começou quando um comerciante de Constantinopla, no império Otomano, enviou bulbos da flor a um comerciante holandês no final do século XVI. Este deu os bulbos a seu cozinheiro, pensando que eram cebolas. O cozinheiro, por sua vez, jogou-os em uma pilha de lixo quando percebeu que os bulbos não eram comestíveis.

 

Mas na primavera, quando o monte de lixo floresceu, o mercador enviou o espécime estrangeiro ao maior botânico da época, Charles de l’Ecluse, em Leiden. Os bulbos haviam sobrevivido ao inverno extremamente rigoroso de 1593 e o botânico, encantado, enviou as flores novas na Europa aos seus amigos, dando-lhes o nome da palavra “turbante” em turco.

 

As flores tornaram-se uma sensação e empresários roubaram bulbos do botânico e começaram a cultivar tulipas para venda. Em 1630, o preço de uma única variedade de bulbo de tulipa podia ser igual a “uma casa de campo bem localizada”, como diz Blom. Buquês de tulipas tornaram-se acessório indispensável para qualquer boa casa na Holanda e além, levando os investidores a um processo “sem fôlego de compra e venda”.

 

A bolha das tulipas explodiu repentina e inexplicavelmente em fevereiro de 1637, deixando muitos investidores desamparados e levando alguns ao suicídio. Os bulbos passaram a ser considerados inúteis novamente, e jogados de lado como havia feito o cozinheiro que os confundiu com cebolas não comestíveis.

 

Tire a sorte

 

Blom argumenta que, assim como o clima extremo do passado criou novas pressões que levaram a novos modelos econômicos que, por sua vez, trouxeram riquezas e riscos inesperados e criaram sofrimento humano não quantificável devido à exploração, o mesmo acontecerá com o clima em transformação no futuro. “Então como agora, a mudança climática provoca pressões sobre as estruturas econômicas e sociais, sobre os recursos naturais e a coesão social… Então como agora, uma mudança nos padrões climáticos causa desastres naturais, abalando as sociedades e criando medo, além de exacerbar a necessidade de mudança”, escreve ele.

 

Assumindo o ponto de vista do historiador que estuda nossa atual situação, Blom prevê que estamos em uma posição semelhante à de Shakespeare e seus contemporâneos do final dos 1500, à beira de uma revolução impulsionada por pressões criadas pelo clima extremo. Em outras palavras, o inverno de nossa desesperança já começou, só que desta vez é provável que este venha transfigurado em um verão de temperaturas globais crescentes, causando estragos e levando a temperaturas extremas.

 

Em vez de desespero, porém, Blom nos pede que pensemos nas possibilidades. Sim, há problemas pela frente. Mas há também a possibilidade da mudança climática vir a impulsionar a próxima grande evolução de ideias – novas metáforas e novas compreensões do planeta – tal como aconteceu no passado, quando a Europa se transformou de uma sociedade religiosa em uma sociedade racional. Blom diz que não podemos esperar mais: “As mudanças climáticas do século XXI tornam urgente repensarmos mais uma vez nossas metáforas culturais, bem como o lugar da humanidade no grande esquema das coisas”.

* Resenha do livro Nature’s Mutiny, de Philipp Blom, feita por Ephrat Livni para a Quartz e traduzida por Délcio Rodrigues.