ClimaInfo, 26 de março de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Salles confunde dirigir com impor e debater com ditar

A Folha de S. Paulo publicou um editorial criticando o jeito Salles de tratorar o ministério do meio ambiente com o sugestivo título de “Neurose Ambiental”. O editorial começa dizendo que “é desconfortável o bastante que o governo Jair Bolsonaro ostente um ministro do Meio Ambiente na condição de réu acusado de improbidade administrativa”. E continua com a respeitável lista de problemas criados pelo ministro nestes quase 3 meses de mandato: colocou uma mordaça nos funcionários do Ibama, proibindo-os de falar com a imprensa; quer fazer uma devassa no Fundo Amazônia para caçar a “indústria das ONGs ecoxiitas”; bagunçou a última reunião do Conama, mandando expulsar suplentes da sala e autorizando seguranças a usar força física, entre outras. O editorial termina dizendo que “Salles confunde dirigir com impor e debater com ditar. Desgasta-se desnecessariamente na condução de sua pauta revanchista”.

 

A nova bancada ruralista

A bancada ruralista, grupo de parlamentares apoiado por associações e empresas do agronegócio, se recompôs após ter perdido vários membros históricos (perder talvez não seja o termo correto, já que muitos passaram a ocupar cargos relevantes na estrutura do governo federal, principalmente no ministério da agricultura). A nova Frente Parlamentar da Agropecuária tem 257 inscritos, 225 na Câmara e 32 no Senado. Membros do PP, PSD, MDB, PSL, DEM, PR e PSDB somam ⅔ dos parlamentares envolvidos. Vale citar que a bancada tem agora dois deputados do PV e um senador da Rede. Pela sua composição, dá para arriscar que muitas das pautas mais conservadoras contarão com o voto de boa parte desse pessoal, mas outras, como a PEC da Previdência, provavelmente não. Os números e nomes foram contabilizados pelo De Olho nos Ruralistas.

 

Custo do gás do pré-sal pode inviabilizar térmicas fósseis

O uso do gás natural é muitas vezes vendido como um combustível de transição para uma matriz elétrica de baixa emissão, mas talvez o Brasil faça esta passagem sem ele. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a exploração do gás não é viável em pelo menos metade dos campos do pré-sal por dois motivos: primeiro porque, pelos poços estarem longe da costa, a infraestrutura para trazê-lo é bem cara. Segundo, porque o gás que sai destes poços tem mais de 20% de CO2, o que exige processos de filtragem antes da queima e encarece ainda mais a operação. Como ainda não se conhece bem todos os campos e a qualidade do gás nestes existente, talvez apareçam aproveitamentos economicamente viáveis. Mas estes terão que competir com o gás natural liquefeito que está nos planos de várias térmicas e, mais importante, com a queda dos preços das renováveis que viabilizam as eólicas tanto em terra quanto em mar.

 

O negacionismo explícito chega ao Senado

Por sugestão do senador Márcio Bittar, a Comissão de Relações Exteriores ouvirá aquele pessoal que se diz cientista e fica por aí rebatendo a natureza antrópica do aquecimento global. Bittar, repete o fake-chavão segundo o qual “há controvérsias muito graves sobre este assunto (…) um grupo de cientistas de reconhecida credibilidade afirma exatamente o oposto.”

Senador, precisamos dizer, não há controvérsia, quase nenhum dos autores da carta é cientista e nenhum deles tem credibilidade reconhecida na área. E, antes que alguém tenha a ideia de promover um debate entre cientistas, já vamos avisando que o justo é colocar 99 cientistas que entendem que o homem é, sim, responsável pelo aquecimento global contra um negacionista. Esta composição seria representativa dos dois “times”.

 

Fracking na Argentina ameaça o clima e é ameaçado pela economia

Os últimos governos argentinos têm colocado muita esperança na exploração das reservas de petróleo e gás do campo patagônico de Vaca Muerta. Estima-se que existam ali mais de 15 bilhões de barris de petróleo, o que poderia, de um lado, ajudar o país vizinho a sair de sua grave crise econômica, mas, por outro, despejaria mais de 6 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera, o que faria a concentração do gás na atmosfera aumentar em 8 ppm. Um relatório do Instituto de Análise Econômica e Financeira de Energia (IEEFA) aponta para uma lista de obstáculos que complicam a vida de quem pensa em explorar aqueles fósseis. O principal é a crise em si. Mais da metade dos investimentos feitos até agora foram estatais e tendem a diminuir nos próximos tempos. Isso inclui obras de infraestrutura, como os dutos de óleo e gás para o transporte do produto para o porto de Bahia Blanca e, de lá até Buenos Aires. Sem essa e outras obras, investidores estrangeiros perderão o interesse. Também não ajudam tanto a descoberta como o dimensionamento do campo terem sido feitos quando o preço do barril de petróleo estava acima de US$ 100, enquanto hoje gira por volta de US$ 60. Outro problema é o alto consumo de água pela exploração via fracking (fraqueamento hidráulico) em uma região bastante seca. Para o fim da lista ficam os problemas do descarte da grande quantidade de rejeitos numa das áreas mais virgens da Argentina. Por conta do fracking, organizações ambientais têm montado campanhas pelo fechamento de Vaca Muerta.

Em tempo: para efeito de comparação, em linguagem de petroleiros, os números do pré-sal são 19 bilhões de barris comprovados, 50 bilhões possíveis e 100 bilhões prováveis. O IEEFA publicou um relatório em inglês e sumários em inglês e espanhol.

 

Cansado de “discutir com termômetro”, deputado republicano propõe ‘Green Real Deal‘ em contraposição ao ‘Green New Deal‘ democrata

Leitura diária dos muitos assuntos relacionados às mudanças climáticas.

26 de março de 2019

 

Enquanto o Senado dos EUA se prepara para votar ainda nesta semana o “Green New Deal”, legislação climática proposta inicialmente pela deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, o deputado republicano Matt Gaetz – o mais fervoroso deputado pró-Trump, rapaz que, entre outras, já propôs um projeto de lei para abolir a EPA (a agência ambiental dos EUA) – fez circular na semana passada um projeto alternativo de combate à mudança climática. O “Green Real Deal” proposto por Gaetz, cujo esboço foi obtido pelo site Politico, endossa o “acesso justo e igualitário ao desenvolvimento energético em terras federais” e não contém um cronograma concreto para a redução das emissões de carbono, mas dá destaque aos resultados da Avaliação Nacional do Clima e propõe a criação de empregos qualificados por meio do desenvolvimento das fontes renováveis de energia. “Eu não fui eleito para discutir com um termômetro”, disse Gaetz à Vice. “Posso dizer que a Terra está aquecendo com base em evidências científicas esmagadoras e não acho que seja uma coincidência termos liberado cerca de 300 anos de carbono nas últimas décadas”.

 

Copenhague quer mostrar como as cidades podem combater as mudanças climáticas

“Pode uma cidade neutralizar suas emissões de gases de efeito de estufa?”, pergunta Somini Sengupta no New York Times. “Metade da humanidade vive agora nas cidades”, escreve Sengupta, e assim “as grandes soluções para a mudança climática precisam vir, também, das cidades”. Ela analisa o caso de Copenhague, a capital dinamarquesa que pretende ser neutra em carbono até 2025 gerando mais energia renovável do que a energia suja que consome. “O objetivo de neutralidade em carbono de Copenhague enfrenta um obstáculo que é comum em todo o mundo: uma divisão entre os interesses das pessoas que vivem nas cidades e os daqueles que vivem fora delas”, escreve Sengupta. “Um governo municipal não consegue ser efetivo se não tem o apoio total daqueles que dirigem o país (…) O transporte é responsável por um terço da pegada de carbono de Copenhague”, mas o governo dinamarquês reduziu recentemente as taxas de registro de automóveis, “num movimento que seus críticos dizem incentivar o uso de carros particulares”.

Já vimos esta história por aqui, quando o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, dava prioridade ao transporte público implantando 400 quilômetros de faixas exclusivas para os ônibus da cidade enquanto, ao mesmo tempo, o governo federal reduzia o IPI para a fabricação de automóveis.

 

Regras globais mascaram o desafio de mitigação enfrentado pelos países em desenvolvimento

Cumprir o objetivo do Acordo de Paris, limitando o a

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26 de março de 2019

 

quecimento global a 1,5oC acima dos níveis pré-industriais, é um grande desafio para o mundo em desenvolvimento. Uma pesquisa recém publicada na Earth’s Future usa técnicas de modelagem para estudar o que cada país precisaria fazer para atingir esta meta. “Nossos resultados sugerem que, mesmo que os EUA, a União Europeia, a China e a Índia fortaleçam suas NDCs até 2050, o resto do mundo precisa mudar imediatamente desde seu rumo atual para uma diminuição muito rápida das emissões de gases de efeito estufa de modo a praticamente zerá-las até 2030”, dizem os autores. “Os maiores desafios de mitigação estão no mundo em desenvolvimento”, acrescentam.

A equipe do ClimaInfo concorda em parte. Sim, é preciso que todos se esforcem, e muito, mas ressalvamos que, sem uma redução radical das emissões de carbono dos países ricos, o resto do mundo pouco poderá fazer.

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26 de março de 2019

 

Dois grandes ciclones atingem a Austrália

No final de semana, a Austrália foi atingida por dois furacões de categoria 4. No sábado, o Ciclone Trevor atingiu a costa norte do país com ventos de até 250 km/h e muita chuva. Trevor está sendo comparado ao Ciclone Tracy, o mais violento a atingir o país. Milhares de pessoas atenderam às ordens de evacuação e não há notícias de mortes. A infraestrutura também foi pouco danificada.

No domingo foi a vez do Ciclone Veronica atingir a costa oeste do país, já na categoria 3, com rajadas de vento a 200 km/h, não chegando a entrar terra adentro. Assim, o maior risco foram as grandes ondas que se formaram ao longo do litoral. Novamente, as ordens de evacuação evitaram mortes.

O Trevor foi destaque na BBC, no The Guardian e no New Daily. Veronica também apareceu na BBC e no The Guardian e na News.com australiana. As fotos de satélite dos dois ciclones quase simultâneos impressionam.

 

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