Extensão territorial e número de afetados tornam tragédia no RS inédita no Brasil

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Gilvan Rocha/Agência Brasil

Número de moradores de cidades gaúchas que tiveram que abandonar suas casas por conta das chuvas extremas supera a população de 8 capitais do país.

O pior da catástrofe climática no Rio Grande do Sul é saber que ela não acabou, e não há previsão para seu arrefecimento. Ainda que as chuvas tenham dado um alívio, os efeitos dos temporais extremos que atingiram o estado a partir do fim de abril continuam e até se ampliam. E seus números superlativos fazem especialistas apontarem o que vem acontecendo no território gaúcho como algo sem precedentes quando se trata de tragédias climáticas no país.

Na 3ª feira (14/5), a expectativa era que o Lago Guaíba, que banha Porto Alegre e sua região metropolitana, batesse o recorde de cheia de 5,35 metros atingido em 5 de maio e chegasse a 5,40 metros. No início da tarde, o corpo d’água já estava com cota de 5,21 m, segundo o Correio Braziliense – no dia anterior estava em 5,05 m. Por causa disso, relata a Folha, o bairro de Lami, no extremo porto-alegrense, precisou ser evacuado.

Segundo a Defesa Civil gaúcha, 450 dos 497 municípios foram afetados pelas enchentes até a noite de 2ª feira (13/5), e mais de 2,1 milhões de pessoas sofrem as consequências da tragédia climática. Dessas, 538 mil estão desalojadas e quase 80 mil estão em abrigos. No início da tarde de ontem havia 148 mortes confirmadas,e 124 pessoas ainda desaparecidas.

As quase 620 mil pessoas fora de casa superam a população de 8 capitais do país, mostra o g1. Segundo dados do Censo 2022, do IBGE, há mais gaúchos desalojados do que moradores em Rio Branco (AC), Macapá (AP), Vitória (ES), Porto Velho (RO), Boa Vista (RR), Florianópolis (SC), Aracaju (SE) e Palmas (TO). E muitos sequer terão uma casa para voltar quando as águas baixarem.

Assim, por sua extensão territorial e pelo número de pessoas afetadas, a catástrofe climática gaúcha se torna um fenômeno sem precedentes no Brasil, afirmam especialistas de diferentes áreas ouvidos pela Folha.

“Considerando o número de mortes como indicador, já teve piores [em janeiro de 2011, mais de 900 pessoas morreram após tempestades atingirem a Região Serrana do Rio de Janeiro]. Mas pela magnitude do desastre, que afetou a capital, (causou) inundações, destruição total, e em termos de custos, eu diria que este no Rio Grande do Sul de agora é o principal. E ainda não terminou, os rios estão ainda altos, está chovendo de novo”, diz o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Modelagem do CEMADEN.

A avaliação é compartilhada pelo secretário-executivo do ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade da América do Sul, Rodrigo Perpétuo. “Se comparada a tragédias similares, como a de São Sebastião [SP] e a da Região Serrana do Rio, essa tragédia é a maior em termos da mesma ocorrência de tipologia climática, chuva extrema e inundações, e extensão territorial contínua, já que atingiu quase todo o estado”, explicou.

Marengo faz um comparativo com outro extremo climático: a seca no Nordeste. Nesse caso, porém, trata-se de um evento de vários anos. Mas, mesmo no ano passado, a estiagem histórica que atingiu a Amazônia afetou cerca de 600 mil pessoas. Um número impressionante, mas de pouco menos de um terço dos afetados pela catástrofe climática no RS.

Além de extensão territorial e pessoas afetadas, a tragédia gaúcha também promete custar muito caro para a recuperação do estado. As enchentes alagaram 91% das indústrias gaúchas e afetaram toda a cadeia de produção do estado, de acordo com a Folha. Considerando imóveis, estradas, cidades inteiras destruídas, calcula-se que serão necessários entre R$ 90 bilhões e R$ 100 bilhões. Isso preliminarmente.

Emergencialmente o governo federal liberou benefícios para a população e recursos para cidades que já somam cerca de R$ 50 bilhões. E ainda suspendeu o pagamento da dívida do RS com a União por 3 anos, informam Agência Brasil, Folha e g1. Isso deverá disponibilizar R$ 11 bilhões ao governo gaúcho para recuperação, mas ainda depende de aprovação do Congresso.

Os números, porém, não refletem o drama das pessoas, vivido não somente por quem passou por situações similares desde setembro do ano passado, como os moradores de Muçum, no interior gaúcho, como por quem desde lá atua como voluntário para ajudar e salvar vidas: “É muito triste passar por tudo isso outra vez”, disse à BBC a influenciadora Nina Schneider, que faz parte do grupo de voluntários que esteve em Muçum para auxiliar os moradores da cidade devastada novamente pelos temporais atuais.

Em tempo 1: No Nordeste, as fortes chuvas que atingem o Maranhão desde abril também estão causando destruição e desalojando pessoas. Das 217 cidades maranhenses, 31 decretaram estado de emergência, relatam Band, A Tarde e g1. Desde o mês passado, 2.909 famílias precisaram deixar os imóveis, e ao menos uma pessoa morreu em decorrência dos temporais. Outras 1.031 famílias perderam as casas por causa das fortes chuvas.

Em tempo 2: Água demais no RS, água de menos no Pantanal. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) aprovou, por unanimidade, a declaração de situação crítica de escassez de água na Bacia do Paraguai, onde está localizado o Pantanal. A medida tem vigência até o dia 30 de outubro deste ano. Após esse período, a agência deve avaliar os resultados, podendo prorrogar a medida, explica o g1. A declaração de “escassez quantitativa dos recursos hídricos na região hidrográfica do Paraguai” permite que sejam adotadas as providências para prevenção e também de atenuação dos possíveis impactos. As ações de contingência podem vir em nível federal, estadual e municipal, a depender da necessidade.

 

 

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ClimaInfo, 15 de maio de 2024.

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