A virada climática vem do Sul?

Enquanto o G7 hesita, três novos estudos apontam o BRICS como decisivo para a transição energética global
7 de julho de 2025
  • Pamela Gouveia e Cinthia Leone
solução do sul
Reprodução vídeo Globo Fantástico

Enquanto os países do BRICS se preparavam para sua cúpula anual de líderes, realizada no domingo (6) e na segunda (7), no Rio de Janeiro, três estudos publicados quase simultaneamente trouxeram uma constatação: mesmo com todas as suas contradições internas, o BRICS se tornou peça-chave na corrida mundial por uma transição energética renovável.

Esse movimento indica que pesquisadores, estrategistas e formuladores de política ao redor do mundo estão se voltando ao bloco — agora com dez membros — para entender como as transformações industriais e climáticas do século XXI estão se reconfigurando para além do eixo tradicional do G7.

Entre essas análises, está o policy brief BRICS Going Green, recém-publicado pelo Net Zero Policy Lab da Universidade Johns Hopkins, dos EUA. O documento defende que o sucesso — ou fracasso — da meta global de triplicar as energias renováveis até 2030 (acordada na COP28 de Dubai) depende agora em grande parte do avanço da transição energética no BRICS ampliado.

O bloco já responde por mais da metade das emissões e quase metade do consumo de energia do planeta. O relatório recomenda aos BRICS preservar e reformar o multilateralismo — especialmente a OMC — para favorecer suas políticas industriais verdes, garantir acesso justo a financiamento e ampliar a voz do Sul nas regras do jogo global.

Outro estudo aponta que os países fundadores do BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — têm potencial para liderar uma nova fase de industrialização verde. O documento BRICS green industry potential, produzido pela Zero Carbon Analytics e destacado pelo Valor Econômico, identifica oportunidades em minerais críticos, baterias, energia eólica, combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e veículos elétricos (VEs). 

O texto também chama a atenção para o impacto de medidas protecionistas dos EUA, como a tarifa de 50% sobre aço e alumínio, que pode gerar perdas de até US$ 1,5 bilhão ao Brasil, e sobretaxas a produtos chineses que podem superar 82% até 2026. Segundo o documento, isso incentiva uma reorientação comercial da China em direção aos parceiros do BRICS.

Já a Plataforma CIPÓ, um think tank brasileiro com foco em clima, publicou uma análise que leva em conta os desafios internos de desenvolvimento dos países do bloco. O texto BRICS e a Industrialização Verde do Futuro afirma que o grupo tem o desafio triplo de descarbonizar suas economias, acelerar a adaptação aos impactos climáticos crescentes e incluir uma parte enorme da população que ainda não tem acesso ao básico. 

O relatório critica o modelo tradicional de transferência de tecnologia, baseado em fluxos unidirecionais do Norte para o Sul, que falhou em criar capacidade industrial duradoura e favoreceu a dependência dos combustíveis fósseis. Os autores argumentam que o bloco deve deixar de ser mero receptor e passar a atuar como arquiteto ativo de uma nova globalização verde.

“Os países do BRICS representam 55% da população mundial e uma parcela crescente da produção global. Eles têm escala, recursos e peso geopolítico para moldar uma economia global mais verde e justa — e podem se beneficiar economicamente com isso”, disse Benjamin Bradlow, autor do estudo.

“A reindustrialização verde vai muito além da atração de investimentos estrangeiros, trata-se de moldar as condições para obter benefícios tecnológicos e econômicos duradouros”, afirmou Alexandros Kentikelenis, também autor do estudo.

Que BRICS é esse? 

Apesar da forte presença de petroestados como Rússia, Irã e Emirados Árabes Unidos, o grupo já investe mais em energia limpa do que em fóssil, com destaque para Brasil, China e Índia, entre os líderes de energia solar do mundo. Eles são protagonistas do chamado “Cinturão do Sol”, como descreve o Financial Times — países em desenvolvimento com alta insolação, grande potencial renovável e demanda energética crescente, que está rapidamente se tornando o novo centro de gravidade da transição energética global.

Esse novo olhar sobre o BRICS dialoga com o visível recuo das potências do Norte em exercer liderança climática. A União Europeia, berço do Acordo de Paris, ainda não apresentou uma nova meta climática (NDC) – o prazo era em fevereiro –, mesmo cobrando ambição dos países pobres. E os Estados Unidos aprovaram uma nova lei orçamentária que reduz drasticamente as ambições verdes da administração anterior, descreve o UOL. Sem falar que os compromissos mais generosos das economias do G7 não foram com o clima, mas com o orçamento de defesa da OTAN, como explica o g1.

O vácuo de ambição climática deixado pelos países ricos — somado à saturação de seus mercados energéticos e à armadilha em que se prenderam ao estabelecer o gás fóssil como ponte para transição— ajuda a explicar porque os BRICS têm liderado globalmente a nova capacidade instalada de fontes renováveis.

Os números são contundentes. Em 2024, 70% da nova capacidade elétrica do BRICS veio de fontes limpas. O bloco respondeu por 51% da geração solar mundial. Já os países do G7 — apesar de concentrarem mais de US$ 1,2 trilhão em P&D — responderam por apenas 14,3% da nova capacidade renovável instalada no mesmo ano. Enquanto seus entraves estão em mercados saturados, resistência política e travas regulatórias, os países do BRICS têm políticas industriais verdes em expansão, demanda interna crescente e ativos estratégicos.

O Brasil é um dos exemplos mais notáveis, com mais de US$ 250 bilhões em investimentos privados em sua política industrial verde, atraindo montadoras globais para a produção de híbridos etanol + bateria; a Índia já produz 58 GW em módulos solares e caminha para exportar turbinas e veículos elétricos; e a China detém 80% da capacidade mundial de produção de equipamentos solares e lidera em baterias e veículos elétricos. Países como Indonésia e África do Sul também apostam na industrialização verde para reverter dependências históricas — de minérios a carvão.

Ainda assim, as tensões dentro do BRICS seguem bastante reais. Rússia e Irã estão centrados em combustíveis fósseis. Os Emirados Árabes buscam se posicionar como polo limpo com investimentos massivos em SAF e solar, mas mantêm sua economia no petróleo. O Brasil sofre com lacunas em inovação, riscos de aumento de combustíveis fósseis no setor elétrico e gargalos no setor eólico. Mas, ao contrário da inércia do G7, o BRICS vive um momento de disputa real sobre qual será seu modelo de desenvolvimento verde.

Não se trata de endossar o bloco, mas de compreendê-lo. O que os analistas indicam é que os países do BRICS oferecem hoje uma arena concreta para negociar a próxima etapa da transição energética global. Isso não é pouco em um mundo fragmentado, com instituições multilaterais fragilizadas. No bloco, estão sendo testadas novas combinações entre Estado e mercado, entre clima e industrialização, com todas as contradições e dilemas de uma transição energética que precisa ser rápida, mas também justa e politicamente viável.

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