CVM retira obrigatoriedade de reporte de sustentabilidade para empresas de capital aberto

Decisão surpreendeu o mercado; adoção voluntária abre brechas para greenwashing, criticam organizações setoriais.
1 de junho de 2026
cvm sustentabilidade
Montagem ClimaInfo/ Daniel Siqueira Carvalho (Logo CVM) e João Stutz (Folhas)
Resumo
  • Recuo surpreendente: A CVM revogou a exigência de divulgação obrigatória de informações financeiras ligadas à sustentabilidade para empresas de capital aberto, surpreendendo o mercado e revertendo uma regra prevista para entrar em vigor em 2027.
  • Mudança gera críticas e temor de perda de credibilidade: Entidades do mercado, especialistas e integrantes do governo classificam a decisão como um retrocesso, alertando para riscos de greenwashing, menor transparência ESG e impactos negativos sobre a confiança de investidores.
  • Recuo contraria preparação já em curso: Maioria das companhias abertas já afirmava estar implementando os padrões internacionais ISSB e desenvolvendo planos de transição climática, reforçando a percepção de desalinhamento da CVM com tendências globais.
  • A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regula o mercado de capitais brasileiro, orgulhava-se em fóruns internacionais por fazer do Brasil o primeiro país a adotar formalmente os padrões do International Sustainability Standards Board (ISSB). Mas, depois de uma troca de cadeiras, a CVM deu um passo (gigante) para trás e revogou a obrigação de companhias abertas de divulgar informações financeiras relacionadas à sustentabilidade.

    A decisão, anunciada na 6ª feira (30/5), surpreendeu o mercado. Agora, o reporte de sustentabilidade passa a ser voluntário, no modelo “pratique e explique”, informam Capital Reset e Exame. Antes do recuo, a CVM havia determinado que as companhias de capital aberto seriam obrigadas a divulgar esse relatório a partir de 2027.

    A pressão pela mudança foi encabeçada pela Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), de acordo com Seu Dinheiro. Já um bloco formado por outras organizações setoriais, como o Instituto de Auditoria Independente do Brasil (Ibracon), o Conselho Federal de Contabilidade (CFC), a Amec, a Apimec e a Fipecafi, classificou a flexibilização como um “retrocesso relevante” para a eficiência do mercado.

    Para a secretária extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, Cristina Reis, a mudança é “indigna”, podendo trazer “quebra de credibilidade” para a CVM e afetar negativamente investimentos nas companhias. A secretaria e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) analisam, agora, se podem atuar no caso, relata o Valor.

    O advogado e consultor em integridade e sustentabilidade corporativa, Bruno Peixoto, reforça no Capital Reset que a decisão contradiz a tendência do mercado. A mudança “joga o país de volta à fase de incertezas sobre a divulgação e o rigor da transparência ESG”, reforça Peixoto.

    Uma nota técnica da própria CVM de novembro de 2025 revelou que 66% das companhias pesquisadas declararam já estar na fase de implementação das novas regras do ISSB. Além disso, 73% afirmaram possuir planos de transição climática em andamento.

    A mudança de rumo da CVM é creditada à aprovação, pelo Senado, de Otto Lobo para assumir a presidência da autarquia. Lobo já esteve enroscado em situações envolvendo a Ambipar e o Banco Master quando era diretor e presidente interino da CVM, em 2025. Ainda assim, o governo federal o indicou para o comando do órgão – e os senadores referendaram a escolha.

    Na época, a área técnica da CVM defendia que os controladores da Ambipar deveriam realizar uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) para proteger acionistas minoritários, após operações que teriam alterado o controle econômico da empresa. Lobo votou contra essa interpretação e foi decisivo para dispensar a oferta obrigatória. As operações analisadas envolviam fundos ligados ao Banco Master.

    • Em tempo: A Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador dos mercados de capitais dos Estados Unidos, colocou em consulta pública o  fim da exigência de divulgação dos riscos climáticos pelas empresas de capital aberto. A regra foi adotada no governo de Joe Biden em 2024. Paul Atkins, diretor da SEC nomeado por Donald Trump, já havia indicado a intenção de derrubar as divulgações, detalha o Capital Reset. Em comunicado, a agência declarou que a exigência apresenta obrigações “exageradamente pesadas e custosas” para as empresas, relatam Reuters e Bloomberg.

    Continue lendo

    Assine Nossa Newsletter

    Fique por dentro dos muitos assuntos relacionados às mudanças climáticas

    Em foco

    Aprenda mais sobre

    Justiça climática

    Nesta sessão, você saberá mais sobre racismo ambiental, justiça climática e as correlações entre gênero e clima. Compreenderá também como esses temas são transversais a tudo o que é relacionado às mudanças climáticas.
    2 Aulas — 1h Total
    Iniciar