Economia global precisa ir além do PIB para evitar desastre planetário, alerta Guterres

Cerca de US$ 7,3 trilhões foram empregados em atividades danosas à natureza em 2023.
9 de fevereiro de 2026
António Guterres
UN Photo/Jean-Marc Ferre

A economia global precisa se transformar radicalmente para deixar de recompensar a poluição e o desperdício, o que está levando o planeta ao desastre. O alerta é do secretário-geral da ONU, António Guterres, e combina com o relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) divulgado na 2ª feira (9/2).

“Precisamos dar verdadeiro valor ao meio ambiente e ir além do Produto Interno Bruto como medida de progresso e de bem-estar humano. Não podemos esquecer que, ao destruir uma floresta, estamos gerando PIB. Ao praticar a pesca excessiva, estamos gerando PIB. Ir além do PIB significa medir o que realmente importa para as pessoas e suas comunidades. O PIB nos mostra o custo de tudo e o valor de nada. Nosso mundo não é uma gigantesca corporação. As decisões financeiras devem se basear em algo mais do que um retrato momentâneo de lucros e prejuízos”, disse Guterres ao Guardian.

Já o relatório do IPBES, elaborado por 79 especialistas e aprovado por mais de 150 governos, indica que a perda da biodiversidade representa um risco sistêmico para a economia global e para a estabilidade financeira. O documento insta empresas a estabelecer metas mais ambiciosas do que as assumidas em 2024, de proteger 30% da terra e do mar até 2030 – e o investimento de US$ 200 bilhões (pouco mais de R$ 1 trilhão) posto neste esforço.

O documento levou três anos para ser concluído e aponta que os níveis do chamado capital natural – ecossistemas e recursos naturais – caíram quase 40% desde 1992, ano em que foi criada a Convenção do Clima (UNFCCC). Também destaca que o tamanho de uma empresa nem sempre reflete a magnitude de seus impactos. Companhias de setores como agricultura, silvicultura, pesca, energia e mineração, por exemplo, têm impactos diretos “relativamente elevados” na Natureza, destaca o Carbon Brief.

Outro exemplo: cerca de US$ 7,3 trilhões (aproximadamente R$ 38 trilhões) foram gastos em atividades negativas para a Natureza somente em 2023, incluindo recursos privados e públicos. Já os fluxos globais de financiamento público e privado direcionados no mesmo ano para atividades que contribuem para a conservação e restauração da biodiversidade foram de apenas US$ 220 bilhões (R$ 1 trilhão).

“Atualmente, muitas vezes o que é bom para os negócios é mau para a Natureza e vice-versa”, frisa Stephen Polasky, professor de economia ambiental na Universidade de Minnesota e copresidente do relatório. “Não podemos simplesmente dizer ‘empresas, por favor, sejam boas’. Temos que vincular isso a alguns tipos de mecanismos para que tenham incentivos para tomar essas ações.”

Segundo o relatório, como os mercados não precificam ou valorizam adequadamente a biodiversidade, as empresas não sentem o custo dos danos e, muitas vezes, não conseguem lucrar com a sua proteção, o que significa que há pouco incentivo para fazê-lo. No entanto, a defesa da Natureza é uma forma das corporações se protegerem de riscos como calor extremo, inundações e perda de fauna e flora, eventos que afetam seus negócios, destacam Bloomberg e BBC.

Os relatórios do IPBES funcionam como o equivalente em biodiversidade dos relatórios climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que são publicados a cada cinco a sete anos. Os Estados Unidos anunciaram sua retirada de ambos os processos no mês passado, lembra a Reuters.

Continue lendo

Assine Nossa Newsletter

Fique por dentro dos muitos assuntos relacionados às mudanças climáticas

Em foco

Aprenda mais sobre

Justiça climática

Nesta sessão, você saberá mais sobre racismo ambiental, justiça climática e as correlações entre gênero e clima. Compreenderá também como esses temas são transversais a tudo o que é relacionado às mudanças climáticas.
2 Aulas — 1h Total
Iniciar