
A economia global precisa se transformar radicalmente para deixar de recompensar a poluição e o desperdício, o que está levando o planeta ao desastre. O alerta é do secretário-geral da ONU, António Guterres, e combina com o relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) divulgado na 2ª feira (9/2).
“Precisamos dar verdadeiro valor ao meio ambiente e ir além do Produto Interno Bruto como medida de progresso e de bem-estar humano. Não podemos esquecer que, ao destruir uma floresta, estamos gerando PIB. Ao praticar a pesca excessiva, estamos gerando PIB. Ir além do PIB significa medir o que realmente importa para as pessoas e suas comunidades. O PIB nos mostra o custo de tudo e o valor de nada. Nosso mundo não é uma gigantesca corporação. As decisões financeiras devem se basear em algo mais do que um retrato momentâneo de lucros e prejuízos”, disse Guterres ao Guardian.
Já o relatório do IPBES, elaborado por 79 especialistas e aprovado por mais de 150 governos, indica que a perda da biodiversidade representa um risco sistêmico para a economia global e para a estabilidade financeira. O documento insta empresas a estabelecer metas mais ambiciosas do que as assumidas em 2024, de proteger 30% da terra e do mar até 2030 – e o investimento de US$ 200 bilhões (pouco mais de R$ 1 trilhão) posto neste esforço.
O documento levou três anos para ser concluído e aponta que os níveis do chamado capital natural – ecossistemas e recursos naturais – caíram quase 40% desde 1992, ano em que foi criada a Convenção do Clima (UNFCCC). Também destaca que o tamanho de uma empresa nem sempre reflete a magnitude de seus impactos. Companhias de setores como agricultura, silvicultura, pesca, energia e mineração, por exemplo, têm impactos diretos “relativamente elevados” na Natureza, destaca o Carbon Brief.
Outro exemplo: cerca de US$ 7,3 trilhões (aproximadamente R$ 38 trilhões) foram gastos em atividades negativas para a Natureza somente em 2023, incluindo recursos privados e públicos. Já os fluxos globais de financiamento público e privado direcionados no mesmo ano para atividades que contribuem para a conservação e restauração da biodiversidade foram de apenas US$ 220 bilhões (R$ 1 trilhão).
“Atualmente, muitas vezes o que é bom para os negócios é mau para a Natureza e vice-versa”, frisa Stephen Polasky, professor de economia ambiental na Universidade de Minnesota e copresidente do relatório. “Não podemos simplesmente dizer ‘empresas, por favor, sejam boas’. Temos que vincular isso a alguns tipos de mecanismos para que tenham incentivos para tomar essas ações.”
Segundo o relatório, como os mercados não precificam ou valorizam adequadamente a biodiversidade, as empresas não sentem o custo dos danos e, muitas vezes, não conseguem lucrar com a sua proteção, o que significa que há pouco incentivo para fazê-lo. No entanto, a defesa da Natureza é uma forma das corporações se protegerem de riscos como calor extremo, inundações e perda de fauna e flora, eventos que afetam seus negócios, destacam Bloomberg e BBC.
Os relatórios do IPBES funcionam como o equivalente em biodiversidade dos relatórios climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que são publicados a cada cinco a sete anos. Os Estados Unidos anunciaram sua retirada de ambos os processos no mês passado, lembra a Reuters.



