
“Nossa estratégia de segurança se resume a responder às crises induzidas pelos combustíveis fósseis, e me refiro tanto aos próprios combustíveis fósseis quanto às potências que dependem deles para sustentar seu poder, incluindo os Estados Unidos. E isso tem um custo para as pessoas, o planeta e a segurança. Se quisermos levar a estratégia de segurança a sério, precisamos reduzir a insegurança causada pela dependência dos combustíveis fósseis.”
A análise de Pauline Heinrichs, pesquisadora de Estudos de Guerra, com foco em clima e energia, do King’s College London, resume o momento atual do mercado global dos combustíveis fósseis após o ataque ao Irã por Israel e EUA. (Mais) uma guerra que faz disparar os preços do petróleo no mercado internacional – dos 10 maiores produtores da commodity no mundo, sete estão envolvidos no conflito, informa o Valor. O que coloca em xeque tanto a segurança energética de países que não produzem todo o petróleo de que precisam como a economia de várias nações, principalmente as mais pobres, que terão de pagar mais pela commodity.
A guerra, portanto, escancara que os combustíveis fósseis não têm nada de seguros, reforça Giovana Girardi na Agência Pública. A suposta segurança costuma ser um dos principais argumentos de quem defende que ainda não podemos prescindir de petróleo e gás fóssil, apesar de serem os principais causadores das mudanças climáticas, que afetam a vida de toda a população mundial, em maior ou menor grau. E de termos fontes renováveis à disposição, e a preços bem mais baratos – e seguros, já que são produzidas localmente e, portanto, não estão sujeitas às birras de imperialistas de plantão, como o presidente dos EUA, Donald Trump.
Os defensores da exploração de petróleo “até a última gota” amam propagar a ideia de que sem os combustíveis fósseis corremos o risco de perder segurança energética, e de que essas fontes são muito mais estáveis e confiáveis do que as renováveis, como eólica e solar. “Pelo contrário. Manter a dependência dos fósseis é o que deixa nossos sistemas energéticos inseguros e nossas economias fragilizadas”, explica Giovana.
O resultado é mais pobreza nos países em desenvolvimento, lembra o Observatório do Clima. “Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e a inflação global disparou na esteira da alta do petróleo, 71 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza nos países em desenvolvimento, segundo o Fórum Econômico Mundial. Os lucros extraordinários das petroleiras foram revertidos para seus acionistas e não para a transição energética. O mundo ficou mais pobre, mais inseguro e mais instável climaticamente.” Segundo uma análise da Global Witness, cinco das maiores petrolíferas do mundo – BP, Shell, Chevron, ExxonMobil e TotalEnergies – lucraram US$ 467 bilhões (R$ 2,4 trilhões) desde a invasão da Ucrânia.
Portanto, o novo conflito no Oriente Médio e o turbilhão no mercado mundial de petróleo reforçam a urgência de se acelerar a transição energética – se a crise climática não é um argumento suficiente (e deveria ser), ao menos que a sobrevivência econômica das nações seja. Com a volatilidade de preços provocada pela guerra, economias já combalidas sofrerão ainda mais. O que não ocorreria se produzissem energia localmente a partir de fontes renováveis.



