Estudo mapeia regiões do Brasil com maior potencial para produção de H₂O

Setor de hidrogênio verde espera liberação de R$ 25 bi em incentivos e propõe uso de royaltiesdo petróleo para leilões com foco na eletrólise.
8 de abril de 2026
regiões brasil produção de h2o
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

Um estudo publicado no International Journal of Hydrogen Energy identificou regiões do Brasil com maior potencial para produção e uso de hidrogênio verde (H₂V), produzido com energia renovável via eletrólise da água. A pesquisa mostra que o país reúne condições favoráveis para desenvolver essa nova cadeia energética, mas também revela um desafio: os principais locais de produção e consumo não coincidem geograficamente, o que exigirá investimentos significativos em infraestrutura de transporte e distribuição, destacam Agência FAPESP e Click Petróleo e Gás.

O estudo foi feito com base em dados de milhares de municípios do país. O trabalho foi desenvolvido no Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), um dos Centros de Pesquisa Aplicada (CPAs) da FAPESP, sediado na USP, em parceria com a Shell Brasil e apoio da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Uma das autoras é Drielli Peyerl, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP e do projeto “Energy transition through the lens of Sustainable Developments Goals” (ENLENS), na Universidade de Amsterdã. Segundo ela, o objetivo do estudo foi responder a uma pergunta central para o planejamento da transição energética no país: quais regiões brasileiras têm maior potencial para produzir e consumir H₂V no contexto da descarbonização industrial.

O hidrogênio é apontado como uma das alternativas mais promissoras para reduzir emissões em setores industriais chamados “hard-to-abate (difíceis de reduzir) – aqueles nos quais a descarbonização enfrenta grandes obstáculos, por limitações tecnológicas, energéticas ou econômicas. Entre eles estão a siderurgia e parte da indústria química, onde o H₂V pode substituir combustíveis fósseis em processos de alta temperatura ou atuar como matéria-prima.

Os resultados indicaram sete clusters com alto potencial de produção de H₂V e dez com maior potencial de consumo industrial. O Nordeste é a região com maior capacidade potencial de produção, graças a seu potencial de geração elétrica solar e eólica. Já os clusters de consumo concentram-se sobretudo nas regiões Sul e Sudeste, que abrigam grande parte do parque industrial brasileiro e registram níveis elevados de emissões industriais.

A diferença espacial cria um desafio estrutural para o desenvolvimento da economia do hidrogênio no país. Uma das estratégias discutidas pelos pesquisadores para superar essa lacuna espacial é a criação de hubs – polos industriais onde produção e consumo de H₂V estejam próximos. Além disso, a formação desses hubs pode facilitar o planejamento de infraestrutura energética e logística, permitindo concentrar investimentos em regiões estratégicas.

O estudo ainda destaca a necessidade de desenvolver novos sistemas de transporte e armazenamento para viabilizar a cadeia do hidrogênio. Entre as alternativas estão gasodutos adaptados para H₂V, transporte marítimo e conversão em derivados, como amônia verde. “Para longas distâncias, muitas vezes é preferível converter o hidrogênio em amônia verde, porque já existe know-how para transportar amônia em navios e infraestrutura portuária adaptada”, pondera Drielli.

Enquanto isso, a indústria de H₂V do Brasil espera a publicação de decretos que podem destravar quase R$ 25 bilhões em benefícios fiscais nos próximos anos. O governo prometeu que os textos estariam prontos desde a COP30, em novembro do ano passado, mas problemas na tramitação atrasaram a entrega, informa a Folha. Os decretos vão regulamentar duas leis aprovadas em 2024. A primeira criou o Rehidro, regime que garante a suspensão de impostos federais para projetos de hidrogênio verde no país. Já a segunda dá créditos fiscais para produtores e compradores do combustível que participarem de leilões organizados pelo governo.

Além disso, a Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (Abihv) defende que o governo federal utilize recursos de royalties extraordinários do petróleo para os leilões de hidrogênio de baixo carbono, com prioridade para projetos baseados em eletrólise, segundo a eixos. Os royalties extraordinários referem-se ao volume adicional de receitas provenientes da exploração de petróleo e gás, impulsionados por altos preços do barril – como agora, por causa da guerra no Oriente Médio, que fez o valor do petróleo disparar.

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