
Uma análise feita pela Folha mostra que o Fundo Clima, voltado a projetos de enfrentamento às mudanças climáticas, gasta até três vezes mais por tonelada de emissões de gases de efeito estufa reduzida em comparação com outras plataformas internacionais semelhantes.
Considerando os valores de financiamento direto e os impulsionados pelo fundo (cofinanciamento), em 2024 foram aprovados R$ 33,2 bilhões em investimentos, o que deve evitar a emissão de 86,6 milhões de toneladas de CO2e ao longo da vida útil dos projetos. Isso equivale a um custo médio de R$ 383 por tonelada.
Em comparação, o portfólio do Fundo Verde para o Clima (GCF), de US$ 78,7 bilhões, projeta remover 3,3 bilhões de toneladas de CO2e, a um custo de ,R$ 126 por tonelada, ou um terço do valor do Fundo Clima.
Já o portfólio do Fundo de Investimento Climático (CIF) é de US$ 80,8 bilhões, com projeção de remoção de 1,82 bilhões de toneladas de CO2e, o que equivale a cerca de R$ 231 por tonelada, 40% a menos do que o fundo gerido pelo BNDES.
Em resposta, o BNDES afirmou que o volume de recursos das plataformas internacionais é muito superior ao do fundo brasileiro, pois o escopo delas é diferente. Além de GCF e CIF receberem aportes do mundo todo, os números usados na análise representam todos os empréstimos feitos desde o início da operação dos fundos.
Já Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa e integrante do comitê gestor do fundo, analisa que GCF e CIF “têm estratégia de portfólio, com metas claras de impacto climático. É isso que ainda falta ao Fundo Clima para garantir que os recursos realmente acelerem a transição no Brasil”.
Os recursos do Fundo Clima são, historicamente, destinados em sua maioria (53%) para a área de transição energética, seguidos de 11% para a indústria verde, na qual se enquadram iniciativas de redução de emissões em processos industriais. Florestas nativas e recursos hídricos, que contemplam projetos de restauração de vegetação nativa, receberam 6% do total.
Na reunião de cinco horas e meia na última 5ª feira (12/3) do comitê gestor do Fundo Clima representantes da sociedade civil criticaram os critérios adotados pelo BNDES para financiar projetos ambientalmente controversos.
Algumas regras discutidas abriam brechas para financiamento de poços de petróleo e gás que prometem capturar CO2 emitido, informa o Globo. A maior parte da pressão na mesa parte de representante do Ministério das Minas e Energia (MME).
Na sua coluna no Globo, Lauro Jardim detalhou que, além do apoio a programas de captura e armazenamento de carbono (CCUS), também foram discutidos empreendimentos de energia solar que envolvam a supressão de vegetação nativa.
BNDES e o Ministério de Minas e Energia se posicionaram contra a restrição, “o que alguns participantes consideraram contraditório ao discurso do governo em defesa do desmatamento zero”, expôs a coluna. A mesma reunião aprovou o Plano Anual de Aplicação de Recursos para 2026, com orçamento de R$ 27,5 bilhões, destaca a Agência Brasil.
Para Adriana Pinheiro, especialista em orçamento público do Observatório do Clima (OC), “é preciso um critério de eficácia climática mais claro”. Ela pondera que houve avanços recentes nos empréstimos a entidades subnacionais para medidas de adaptação climática – como drenagem, contenções e resiliência urbana -, mas os valores ainda são muito baixos em comparação aos alocados em outras áreas.
Entre os maiores empréstimos aprovados pelo Fundo Clima estão nomes de gigantes como Coamo (R$ 500 milhões para uma planta de etanol), Sigma Lithium (R$ 486 milhões para a construção de uma indústria de beneficiamento de lítio), Raízen (R$ 500 milhões para uma usina de etanol) e Engie (R$ 500 milhões para a implantação de usinas fotovoltaicas), aponta reportagem da Folha.



