Petrolíferas abandonam discurso verde e reforçam “dependência” de petróleo e gás

Clean Creatives analisa campanhas de BP, Chevron, ExxonMobil e Shell e aponta recuo na agenda climática e mais ênfase em combustíveis fósseis.
25 de março de 2026
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Harrison Keely / WikimediaCommons

Especialmente após o Acordo de Paris, em 2015, as petrolíferas estabeleceram metas de neutralidade de carbono e se comprometeram com a transição energética, mesmo continuando a investir em combustíveis fósseis. No entanto, quando as empresas de petróleo e gás tiveram lucros recordes em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, abandonaram os planos de transição e voltaram a focar na produção de combustíveis fósseis e na remuneração aos acionistas.

A organização Clean Creatives decodificou as mudanças narrativas nas campanhas de combustíveis fósseis entre 2020 e 2024, detalhando como a estratégia narrativa na publicidade e nas campanhas de relações públicas das empresas de petróleo e gás mudou ao longo do tempo. Com o projeto Toxic Accounts, a organização analisou 1.859 materiais de campanha publicitária de BP, Chevron, ExxonMobil e Shell entre 2020 e 2024 para verificar mudanças de narrativa. O material inclui vídeos do YouTube, publicações em redes sociais, anúncios digitais em plataformas como Facebook, LinkedIn, TikTok e Instagram, além de discursos de executivos, comunicados à imprensa, entrevistas e comerciais de TV, detalha o Um só planeta.

As evidências mostram que, entre 2020 e 2024, as campanhas de petróleo e gás passaram de estabelecer metas climáticas e afirmar “somos parte da solução” para enfatizar a dependência de combustíveis fósseis e convencer as pessoas de que “você não pode viver sem nós”. Em paralelo, os acionistas seguiram o mesmo movimento, passando de apoiar a ação climática para priorizar a rentabilidade dos combustíveis fósseis. Poucos, como o Follow This – grupo ativista de acionistas que lidera votações em assembleias gerais de grandes petrolíferas exigindo metas de emissão mais rígidas – levantaram suas vozes para cobrar a expansão dos investimentos em renováveis.

O Big Oil sempre se preocupou com sua licença social para operar, mas agora a indústria de combustíveis fósseis está se radicalizando. Empresas como BP e Shell, que têm histórico de greenwashing e fizeram promessas de neutralidade de carbono em 2020, atualmente apostam totalmente em petróleo e gás. Elas promovem soluções enganosas como captura e armazenamento de carbono (CCS) para tentar justificar a expansão da exploração de combustíveis fósseis.

O greenwashing já não é mais a estratégia central da indústria de combustíveis fósseis: trata-se agora de poder e influência política, frisa a Clean Creatives. Por décadas, agências de publicidade e relações públicas ajudaram empresas de petróleo e gás a criar dúvidas sobre o clima, espalhar desinformação e atrasar a descarbonização. Hoje, suas táticas são cada vez mais manipuladoras e estratégicas, com o objetivo de convencer as pessoas de que não podemos viver sem combustíveis fósseis.

As petrolíferas podem tentar se diferenciar, mas todas seguem o mesmo roteiro. Sua estratégia narrativa passou de liderança climática (2021) para segurança energética (2022); depois, para uma narrativa de “ambos ao mesmo tempo” para promover a expansão dos combustíveis fósseis junto com a redução de emissões (2023); até afirmar a dependência dos combustíveis fósseis (2024).

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