Nova política antidesmate da UE vira obstáculo para acordo comercial com Mercosul

23 de abril de 2023

A nova lei do Parlamento Europeu para barrar a importação de commodities associadas ao desmatamento promete complicar um pouco mais as já delicadas negociações entre UE e Mercosul sobre o acordo comercial entre os blocos. O governo brasileiro havia demonstrado irritação com a forma como os europeus estavam tratando os compromissos ambientais para fechar o acordo, e com as novas regras as conversas devem ficar ainda mais complexas.

Uma rodada de negociações entre Mercosul e UE que aconteceria semana passada foi postergada, a pedido de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Segundo Assis Moreira, do Valor, o Mercosul trabalha internamente para coordenar a posição a ser levada aos europeus, pois o bloco ainda não estaria pronto para a barganha em torno do instrumento adicional na área ambiental.

Fontes ouvidas pelo colunista reiteraram que o Mercosul não pretendia criar impasses, mas sim chegar a convergências. O bloco estaria elaborando seu próprio documento adicional com elementos de seu interesse, assim como fez a UE.  A ideia seria facilitar a definição de um texto comum aceitável pelos dois lados.

Contudo, a nova lei antidesmatamento promete apimentar as conversas. Sobretudo porque, segundo o relator do projeto, o eurodeputado Christophe Hansen, o Brasil deve ser classificado como um país de “alto risco” – nível mais rigoroso da legislação. Hansen afirmou que, mesmo com a mudança de governo no Brasil, o desmatamento continua aumentando. 

Pela lei, 9% do volume dos produtos de países de “alto risco” passarão por escrutínio. No caso dos países sob a classificação “padrão”, a análise será de 4%, e, nos de “baixo risco”, ela recairá sobre apenas 1% dos produtos, detalha o Valor.

Uma possibilidade de acalmar os ânimos pode vir da própria União Europeia. De acordo com a Bloomberg, o bloco avalia ajudar os produtores latino-americanos a cumprirem as novas regras. “Estamos analisando como podemos apoiar os produtores, especialmente as pequenas e médias empresas nos países do Mercosul, para atender a esses requisitos de sustentabilidade”, disse o chefe comercial da UE, Valdis Dombrovskis.

A política antidesmatamento mais rigorosa desagradou também outros países. A Malásia protestou contra a lei, temendo um impacto em suas exportações de óleo de palma para o bloco. O país disse ser um “esforço deliberado” para aumentar custos e barreiras para esse segmento – uma fonte importante de receita de exportação para o país do Sudeste Asiático, informa a Reuters.

O cerco da UE à agropecuária também se dá em casa. Para atingir suas metas climáticas, o bloco precisa que seu setor agrícola seja mais verde. Para isso, estabeleceu a estratégia Farm to Fork – reduzir pela metade a quantidade de pesticidas aplicados até 2030, cortar o uso de fertilizantes, dobrar a produção orgânica e reflorestar algumas terras agrícolas. Entretanto, agricultores europeus reclamam do rigor das decisões, destaca o Financial Times.

A UE argumenta que o setor agrícola precisa de reformas ambientais urgentes. O setor responde por 11% das emissões de gases de efeito estufa do bloco – uma proporção quase tão alta quanto há 20 anos.  Os óxidos nitrosos contidos nos fertilizantes, assim como a urina e excrementos de animais, são parte significativa do problema, com altas concentrações de nitrogênio incentivando espécies invasoras a buscarem outras plantas, levando à perda de biodiversidade.

ClimaInfo, 24 de abril de 2023.

Clique aqui para receber em seu e-mail a Newsletter diária completa do ClimaInfo.

Continue lendo

Assine Nossa Newsletter

Fique por dentro dos muitos assuntos relacionados às mudanças climáticas

Em foco

Aprenda mais sobre

Glossário

Este Glossário Climático foi elaborado para “traduzir” os principais jargões, siglas e termos científicos envolvendo a ciência climática e as questões correlacionadas com as mudanças do clima. O PDF está disponível para download aqui,
1 Aulas — 1h Total
Iniciar