
A promoção de uma “ciência alternativa”, com conclusões não reconhecidas pelo mundo acadêmico, tem sido uma das apostas do agronegócio brasileiro para minimizar os danos de imagem decorrentes de seu impacto no meio ambiente e no clima. O agro ainda age para levar as narrativas que negam os consensos científicos às salas de aula. Isso inclui pressão sobre editoras para alterar o conteúdo de livros escolares. E também a investida política, como vem ocorrendo, particularmente no governo do estado de São Paulo, sob a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
É o que mostra o projeto “Mentiras Plantadas”, desenvolvido pela Aos Fatos – organização jornalística dedicada ao combate à desinformação e à checagem de fatos -, com apoio do Pulitzer Center. Um dos meios usados pelo agro para levar o negacionismo climático e ambiental às escolas e universidades é a ONG ruralista De Olho no Material Escolar (Donme).
Um vídeo produzido pela entidade afirma que o metano emitido pelo gado não teria relação com as mudanças climáticas, pois supostamente seria reabsorvido pelo pasto, gerando um “ciclo neutro” de carbono. O material está disponível na Agroteca, base de dados da Donme destinada a professores e estudantes que alega oferecer “materiais constantemente atualizados”, que seriam “baseados em fatos e dados científicos”, mostra a Aos Fatos.
“Isso é uma falácia”, rebate Luciana Rizzo, professora de física atmosférica na USP. A cientista lembra que, embora já existam técnicas de mitigação das emissões da pecuária, elas não são aplicadas em larga escala. O que faz com que a produção de gado seja vilã das mudanças climáticas e uma das principais fontes brasileiras de gases de efeito estufa, como mostra o Sistema de Estimativas de Emissões (SEEG) do Observatório do Clima.
Em outra frente de atuação do negacionismo promovido pelo agro, a Aos Fatos ouviu, sob a condição de anonimato, 12 trabalhadores do mercado editorial. Todos denunciaram sofrer pressão para retirar dos livros escolares conteúdos verdadeiros, porém considerados negativos ao agronegócio.
Além dos agrotóxicos, as demandas por alteração afetam principalmente os conteúdos sobre desmatamento, queimadas, mudanças climáticas, consumo de água, conflitos agrários e escravidão contemporânea. E preocupações comerciais fizeram com que algumas editoras cedessem aos apelos do lobby. O caso mais citado é o da Somos Educação – dona das marcas Ática, Saraiva, Scipione, Anglo e Pitágoras -, mas os relatos mencionam também FTD, Poliedro e Santillana (responsável pela Moderna e pelo sistema UNO).
Ao usar seu poderio econômico para pressionar as editoras, o agronegócio bateu de frente com as normas que ditam as diretrizes da educação nacional. Diante disso, o alvo passou a ser a própria legislação. Um dos eixos da atuação é a discussão do Plano Nacional de Educação (PNE), que estabelece as metas que todos os níveis de ensino deverão perseguir nos próximos dez anos. O plano foi aprovado no dia 10 de dezembro pela Câmara dos Deputados e agora aguarda votação no Senado.
Nessa linha de ação em Brasília, a Donme contratou nomes com histórico de defesa de interesses privados no campo da educação, que passaram a ser apresentados como consultores do movimento. A entidade ruralista também alterou seu estatuto e retirou de seu site parte das menções que a vinculavam ao agronegócio, passando a se apresentar como uma organização que trabalha pela melhoria da educação como um todo. Acredite quem quiser.
Enquanto tenta influenciar o PNE, o lobby do agro tem, no governo de Tarcísio de Freitas, um aliado de primeira linha para limpar sua imagem destruidora e disseminar desinformação na educação. Funcionários da Fundação Vanzolini relatam orientação para que menções negativas ao agro não aparecessem em material digital, embora o governo paulista negue. Além disso, a gestão de Tarcísio promoveu treinamento para professores doado pela Donme, informa a Aos Fatos.



