ClimaInfo, 5 de dezembro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

Attenborough, Schwarzenegger e mais sobre a COP245 de dezembro de 2018

Ontem, foi o dia dos discursos de celebridades como Sir David Attenborough, conhecido por seus documentários sobre a natureza, e o ex-governador da Califórnia e megaestrela, Arnold Schwarzenegger. O último lembrou que, apesar dos esforços em contrário de Trump, as emissões dos EUA continuaram a cair e que coalizões entre estados, cidades e empresas seguem enfrentando a mudança do clima na prática e na mídia. Brincando com um dos seus filmes mais conhecidos, disse que gostaria de voltar no tempo para impedir o uso dos combustíveis fósseis.

Attenborough pediu aos líderes mundiais que entrassem em acordo quanto aos meios para limitar o aquecimento global e enfrentar

nossa maior ameaça em milhares anos. Ele falou sobre os EUA de Trump e fez uma rápida menção, preocupada, quanto ao Brasil.

A Alliance of CEO Climate Leaders publicou uma carta, dizendo compreender o desafio da mudança do clima e, dirigindo-se aos Chefes de Estado, afirmando estarem “comprometidos com a ação climática. Estamos prontos para implantar rapidamente soluções para ajudá-los a cumprir planos de ação mais robustos e ambiciosos para enfrentar a mudança do clima e alcançar as metas postas no Acordo Climático de Paris, em 2015. Sabemos que isto é possível”. Assinam a carta 50 CEOs de megacorporações, atuando em 20 setores econômicos, presentes em 150 países e territórios, e que, 5 de dezembro de 2018em 2017, faturaram mais de US$ 1,3 trilhão.

 

Sirkis e os tiros no pé

O coordenador executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, Alfredo Sirkis, afirmou que o desmatamento é uma arma de cano duplo que o agronegócio está apontando para o próprio pé. De um lado, o “desmatamento ilegal é dos que faturam com grilagem de terras públicas, venda ilegal da madeira e pasto, e exploram uma pecuária marginal de baixíssima produtividade (…) Em termos políticos, têm peso porque seus operadores são cabos eleitorais. Cabalam votos para parlamentares que acabam integrando, com influência desproporcional, a chamada bancada ruralista. Reprimi-los será mais da seara do ministro Sérgio Moro do que da área ambiental. São atividades criminosas.” Não deveria, portanto, ser uma agenda da parte moderna do agronegócio. O outro cano tem um prazo mais longo. A mudança do clima, acentuada pelo desmatamento, impactará a atividade agropecuária que “sofrerá os graves efeitos do aquecimento global com mais estiagens, falta d’água, mudanças no solo, variações loucas de temperatura e inundações.”

Sirkis usa a imagem do tiro no pé para comentar sobre o mito da “esquerda”, que associa o agronegócio capitalista à inevitabilidade do desmatamento. E o mito da “direita”, que associa o ambientalismo à conspiração de potências estrangeiras. Sirkis termina dizendo que “é preciso desfazer mitos para evitar tiros no pé”.

 

O país prometeu plantar 12 milhões de hectares de florestas

O jornalista Sérgio Adeodato escreveu no Valor sobre o desafio de recuperar a floresta Amazônica. Cita exemplos locais, como os esforços de organizações como o ISA (Instituto Socioambiental) e o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). E dá destaque à Aliança pela Restauração na Amazônia, que reúne 50 organizações da sociedade civil, empresas, institutos governamentais e de pesquisas, com o objetivo de plantar 73 milhões de árvores em 300 mil hectares. “É chave reduzir custos da reposição de floresta e sair dos projetos pontuais para uma maior escala com oportunidades de renda”, diz Rodrigo Medeiros, da Conservation International, uma das parceiras da Aliança. Só que o pano de fundo é a retomada do desmatamento que voltou a crescer. O Imazon olhou as imagens de satélite e estima que mais de 80% da área desmatada virou pasto ou lavoura. Parte desta área fica em terras indígenas e em áreas protegidas, o que configura crime que deve ser coibido e punido. O que aconteceu, segundo Carlos Souza, do Imazon, foi que “os acordos antidesmatamento junto a cadeias produtivas relevantes, como as da carne e da soja, afrouxaram”. O jornal francês Les Echos (análogo aos Wall Street Journal e Financial Times) também publicou o artigo.

Uma operação conjunta do ICMBio e da Polícia Florestal na área da Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, encontrou 600 hectares de mata destruída ilegalmente. Foi apreendido um caminhão carregado de castanheiras cuja extração é proibida. De agosto do ano passado a julho deste ano, o desmatamento no Acre quase dobrou.

 

O Brasil no relatório da Lancet sobre clima e saúde

Na semana passada demos uma nota sobre o lançamento do relatório anual da Lancet sobre os impactos da mudança do clima na saúde humana. O trabalho contou com a colaboração da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). A Agência Fiocruz chamou a atenção para os impactos presentes e futuros para os brasileiros. Estaremos mais sujeitos a enchentes e secas e menos às ondas de calor que afetarão o hemisfério norte. Embora o trabalho não cite especificamente o Brasil, houve a publicação de um conjunto de nove recomendações para formuladores de políticas e todo um arrazoado por trás delas. Elas começam pela inclusão do eixo-saúde nos planos nacionais de adaptação e mitigação e passam por reforçar o Sistema de Informação de Agravos de Notificação para supervisionar epidemias, incorporar o clima no planejamento urbano e na capacitação de profissionais da saúde. Também recomendam incluir nos currículos escolares as relações entre clima e saúde e promover campanhas de esclarecimento para a população em geral. Recomenda-se o engajamento na campanha Breathlife (respirar vida) da Organização Mundial da Saúde contra a poluição atmosférica. E, finalmente, sobre a Amazônia, que precisa de um olhar especial, tanto em função do clima e do desmatamento, como dos possíveis impactos sociais, culturais e sobre a saúde de futuras políticas para zerar o desmatamento.

 

O Acordo de Paris e as agendas da COP não têm a ver com o Triplo A

O pessoal do ((o))eco perguntou ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) que história era essa de Triplo A, tantas vezes repetida pelo futuro presidente. A resposta, seca, veio por e-mail: “a ideia do Projeto Triplo A não está listada em nenhuma das agendas da COP ou é referenciada no compromisso brasileiro sobre o Acordo de Paris”.

Cabe, agora, ao futuro presidente parar com essa desculpa-fake.

 

Ex-negociadores dos EUA preocupados com o pós-Trump

Todd Stern chefiou a delegação americana em Paris durante os anos Obama e, juntamente com Sue Biniaz, teve um papel destacado nas negociações que levaram ao acordo. Em conversas com eles, Karl Mathiesen, da Climate Change News, conta da preocupação expressa com os rumos das negociações este ano. “Alguns países, e não temos certeza exatamente quais, estão ignorando a linguagem usada no Acordo de Paris e dizendo, basicamente, que deveria haver dois conjuntos de regras: um para os países desenvolvidos e outro para os em desenvolvimento. Eu diria que isto é inconsistente com o que foi acordado em Paris.” Eles contaram que desenvolvimentos deste tipo poderiam não ser aceitos por futuros governos americanos, mesmo democratas pós-Trump, por atribuir responsabilidades diferentes aos EUA e a grandes poluidores como China e Índia.

 

Quando as emissões da China atingirão seu pico?

A China Dialogue retoma a discussão em torno das emissões chinesas e quando elas atingirão seu pico. Em 2014, a meta era de que suas emissões chegariam ao máximo por volta de 2030, quando as renováveis passassem a ser bem mais importantes do que as térmicas a carvão. Nos últimos tempos, o governo obrigou a indústria pesada chinesa a cortar o excesso de capacidade, fechando plantas mais velhas. Com isso, a demanda elétrica diminuiu e eles puderam supri-la queimando menos carvão. Muita gente comemorou, dizendo que o pico já tinha passado. Só que as emissões voltaram a aumentar um pouco, ou, pelo menos, pararam de cair. Analistas apontam que o setor de serviços está crescendo mais rapidamente e que sua demanda por eletricidade quase não aparecia nos cenários antigos. E é ela quem vai ditar quando as emissões chinesas finalmente atingirão seu pico.

 

Catar avisou que sairá da OPEP

Junto com o Ano Novo, a outrora muito poderosa OPEP, Organização dos Países Exportadores de Petróleo, perderá um dos membros fundadores, o emirado do Catar. O país disse que seus planos para o futuro estão dirigidos ao gás natural e não mais ao petróleo. Eles detém a terceira maior reserva do fóssil, atrás de Rússia e Irã. O gás natural não faz parte do escopo da OPEP. Já há algum tempo, a Organização vem sofrendo perda de prestígio e controle. Analistas dizem que, agora, ela está restrita a dois países: Arábia Saudita e Rússia, mesmo sendo simples observadora convidada.

 

Governo francês volta atrás e suspende os aumentos dos combustíveis

Durou três semanas a vontade política do governo Macron de bancar os aumentos no preço dos combustíveis que acenderam um barril de diesel – ou de pólvora. A medida vinha sendo anunciada há algum tempo, mas a pancada foi forte. O governo quis equalizar o imposto sobre o diesel com o sobre a gasolina. Anos atrás, o governo deu um incentivo ao diesel porque ele é mais eficiente energeticamente do que a gasolina. Nos últimos anos, o diesel, por ser bem mais poluente, foi perdendo o apoio e o subsídio. E mais, ao longo do ano, Macron deu continuidade ao plano do imposto de carbono que previa um aumento de 25% entre 2017 e 2018 e que afeta todos os combustíveis fósseis. O resultado foi um salto de 30% no preço do diesel na bomba e um pouco menos para a gasolina. Os protestos se espalharam na velocidade das redes sociais. No começo, o governo procurou defender os aumentos, mas reconhecendo que tinha causado estragos. Depois, ofereceu financiamentos para quem quisesse trocar de automóvel por um mais econômico e menos poluente. Até meados da semana passada, o número de manifestantes parecia ter diminuído após quase um mês de protestos. No final de semana, a violência escalou, carros foram incendiados e um dos grandes símbolos da França, o Arco do Triunfo foi vandalizado. Ontem, o primeiro ministro anunciou a suspensão dos aumentos. A palavra de ordem é “por uma transição justa”. O Le Monde e o Guardian comentaram os últimos acontecimentos e a perda vertiginosa de prestígio sofrida por Macron.

 

Polônia também quer uma “transição justa” queimando carvão

Pegando carona no movimento francês dos “coletes amarelos”, o presidente polonês, Andrzej Duda, disse que havia a necessidade de um consenso da sociedade para o sucesso de políticas ambientais. Ele propôs que a Convenção do Clima aceitasse oficialmente sua “Declaração da Silésia pela Solidariedade e uma Transição Justa”.

A dificuldade é que não se considera justo para a humanidade e a biosfera que se continue a queimar carvão. Como também não se considera justo para a humanidade e para a biosfera, se continuar a desmatar a Amazônia e o Cerrado.

 

Para ir

Feirinha Presentes da Floresta

O Instituto Socioambiental (ISA), o Instituto ATÁ e o Selo Origens Brasil® convidam todos a conhecer de perto iniciativas produtivas que mantêm a floresta em pé e fortalecem povos e comunidades tradicionais. O evento “Presentes da Floresta” é uma oportunidade para montar uma cesta de Natal que valoriza nossas florestas, seus povos e nosso futuro. São cestos, cogumelos, pimentas, méis, óleos, castanhas e farinhas produzidos por comunidades indígenas, extrativistas e quilombolas que mostram a força da biodiversidade brasileira.

Sábado, 8/dez, a partir das 10h, no Mercado de Pinheiros, São Paulo.

 

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