ClimaInfo, 08 de fevereiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Mais de R$ 15 bilhões para o agronegócio

A bancada ruralista e o setor agropecuário estão cobrando a promessa de campanha do presidente, uma promessa de mais de R$ 15 bilhões. Ela vem na forma de uma anistia às dívidas que os produtores têm para com a previdência do trabalhador rural, o Funrural. Se as receitas do Fundo caem e as despesas com os trabalhadores crescem, o Tesouro Nacional terá que cobrir o rombo. O que é tudo que Paulo Guedes diz que não quer. Abrir mais o rombo da Previdência é um sinal na contramão que Guedes quer dar para atrair mais investimentos. E é importante destacar que os maiores devedores são as maiores empresas, principalmente frigoríficos e empresas de alimentos. Exatamente as que deram um jeito de financiar campanhas, presidenciais e para o congresso. Algumas dessas gigantes, como a JBS e a holding da família Bertin, além enroscadas em dívidas, estão profundamente envolvidas nas investigações da Lava-jato.

A ministra da agricultura, Tereza Cristina, pressiona pelo perdão das dívidas do Funrural e pelo aumento do subsídio aos financiamentos do Plano Safra, principalmente nas linhas voltadas para os pequeno e médio produtor. Na prática, ela e amigos pedem novas linhas de crédito com taxas de juros livres, porém abaixo de 10%. Além disso, pedem um aumento de 50% na subvenção aos prêmios de seguro, que passaria de R$ 665 milhões para R$ 1 bilhão. Nesses pleitos, fica claro que o “agro que é tudo” depende de bilhões a fundo perdido do Tesouro Nacional.

 

O impacto do ar condicionado no consumo de energia e no clima

A venda de aparelhos de ar condicionado disparou nos últimos anos, aumentando a demanda de eletricidade, deslocando o pico diário de consumo do final do dia para o meio da tarde e, ainda por cima, aumentando a emissão de uma família especial de gases causadores do efeito estufa. Para analisar a situação, listar os impactos no ambiente e no clima e sugerir soluções técnicas e políticas públicas, o iCS (Instituto Clima e Sociedade) desenvolve o Projeto Kigali, que tem “como objetivo ajudar a mudar o perfil de consumo de energia dos aparelhos de ar condicionado em nosso país, para que ele fique mais próximo das melhores práticas internacionais e, também, para que esses equipamentos passem a empregar fluidos refrigerantes com baixo potencial de aquecimento global.” A referência à capital de Ruanda, Kigali, vem da assinatura de um tratado para reduzir drasticamente a produção da família de gases refrigerantes, os HFCs (hidrofluorcarbonos), feito naquela cidade, em 2016, por representantes de 197 países . Vários destes gases têm um potencial de aquecimento global entre 1.000 a quase 4.000 vezes maior do que o dióxido de carbono. O trabalho do iCS pode ser baixado aqui.

 

Ministério de minas e energia lança relatório sobre o futuro da geração distribuída no Brasil

Depois de três anos de trabalho, o ministério de minas e energia finalmente terminou e publicou o relatório do ProGD, o Programa de Desenvolvimento da Geração Distribuída de Energia Elétrica. Segundo o ministério, o trabalho foi feito “para ampliar e aprofundar as ações de estímulo à geração de energia pelos próprios consumidores, com base nas fontes renováveis de energia (em especial a solar fotovoltaica).” O relatório, de mais de 200 páginas, cobre um leque bastante amplo de temas, desde o financiamento, à regulação e impactos nos modelos existentes de negócio do setor elétrico. Recomenda-se, aos interessados, a leitura das Conclusões e Recomendações. Em 2015, quando do lançamento do ProGD, o MME publicou uma nota explicando o programa e seu alcance.

 

Brasília proíbe copos e canudos de plástico

No finzinho do mês passado, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sancionou uma lei que tramitava desde 2016 proibindo canudos e copos de plástico em estabelecimentos comerciais da cidade. A partir de agora, só descartáveis feitos a partir de material biodegradável, como amido e fibras de origem vegetal, ou canudos de inox ou de vidro. A justificativa dada por Cristiano Araújo, autor do texto de 2016, foi a de que “copos e canudos feitos de plástico comum demoram, em média, cem anos para se degradar. Já os biodegradáveis demoram de 45 a 180 dias para se decompor.”

 

Salles exonera diretores a partir de 31 de fevereiro (sic)

Ontem, falamos da entrevista na qual o ministro Ricardo Salles disse que não concederia audiência para ONGs mal-educadas: “você não pode ir na internet dizer que sou burro, incompetente e depois querer vir aqui; isso não é ter uma boa relação”. Ontem, no blog de Vicente Nunes, no Correio Braziliense, ficou-se sabendo que Salles assinou uma portaria exonerando o diretor e o coordenador Nacional do Programa de Pagamentos por Serviços Ambientais a partir de 31 de fevereiro de 2019 (sic). Sem risos, por favor. Não faremos comentários para não entrar na lista negra do ministro.

 

Economist: a verdade sobre o petróleo e a mudança do clima

A matéria de capa da Economist desta semana é dedicada ao crescimento da indústria de petróleo e gás no sentido contrário do que exige o combate à mudança do clima. A matéria diz que as mudanças climáticas estão difíceis de ignorar nos EUA, mencionando os incêndios na Califórnia, no ano passado, e a temperatura em Chicago, na semana passada, mais baixa do que alguns pontos de Marte. A matéria também fala de mudanças que estão ocorrendo nos mercados, com executivos de fundos de investimento pressionando empresas a se tornarem verdes, o megainvestidor Warren Buffet colocando bilhões em fontes limpas de energia e, só no ano passado, o fechamento de 20 minas de carvão. “No entanto, em meio ao clamor, há uma única e escancarada verdade. A demanda por petróleo está crescendo e a indústria fóssil, nos EUA e globalmente, está planejando investimentos de trilhões de dólares para atendê-la. Nenhuma empresa incorpora melhor esta estratégia do que a ExxonMobil, a gigante admirada por rivais e que os ambientalistas amam detestar (…) ela pretende extrair 25% mais petróleo e gás em 2025 do que em 2017. Se o restante da indústria conseguir crescer, mesmo que modestamente, a consequência para o clima pode ser desastrosa.”

 

A Rússia ainda pensa se ratifica o Acordo de Paris

A Rússia de Putin estava se encaminhando para ratificar o Acordo de Paris. Mas a indústria fóssil começou a pressionar e conseguiu parar o andamento da matéria na Duma, o congresso russo. Ainda não ratificaram o Acordo países grandes produtores de petróleo como Rússia, Irã, Iraque e Angola, além de Turquia e mais 7 países menores.

 

Cadeias de fast-food sob pressão pela redução da pegada de carbono de seus produtos

As grandes cadeias de fast-food, como McDonald’s, Burger King, Pizza Hut, KFC e Domino’s Pizza, podem fazer muito mais para reduzir a pegada climática e ambiental dos seus produto; pelo menos esta é a tese da FARR (sigla em inglês de Risco e Retorno de Investimento em Fazendas de Animais), uma iniciativa que congrega mais de 80 fundos de investimentos internacionais cujas carteiras somadas representam mais de US$ 5 trilhões. “Para as empresas de fast-food que compram carne e produtos derivados do leite, os riscos da cadeia de suprimentos apresentam desafios crescentes para segurança de fornecimento, ambições de sustentabilidade, imagem e reputação e crescimento financeiro.” Assim, eles enviaram cartas aos CEOs destas cadeias exigindo que, até o final de março, deixem claro e transparente como irão reduzir a emissão de gases de efeito estufa e o uso de água ao longo de suas cadeias de suprimento. Segundo Jeremy Coller, fundador da FARR, “todos os dias, cerca de 84 milhões de adultos consomem fast-food apenas nos EUA, mas a verdade inconveniente dos ‘alimentos de conveniência’ é que os impactos ambientais da carne e dos produtos lácteos do setor atingiram níveis insustentáveis. Para colocar isso em perspectiva, se as vacas do mundo fossem um país, seriam o terceiro maior emissor mundial de gases do efeito estufa.”

A matéria da Conexão Planeta procurou Ciniro Costa Junior, do Imaflora, para explicar a situação do rebanho bovino no Brasil. Ciniro usou dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e
Remoções de Gases de Efeito Estufa) para mostrar que, se fosse um país, o rebanho brasileiro estaria em 17º lugar no ranking dos maiores emissores. Para Ciniro, “embora a agropecuária seja o principal motor da economia brasileira, o passivo climático deixado por ela é muito grande. E a falta de políticas públicas voltadas para o setor, que poderiam criar estímulos às boas práticas, amplia a discussão para que haja uma mudança significativa, para uma gestão de eficiência, que olhe de maneira mais assertiva e trate de soluções para as propriedades.”

 

A temperatura pode ultrapassar a barreira de 1,5°C antes de 2024

A agência meteorológica britânica, Met Office, divulgou sua previsão para os próximos anos. Os resultados indicam que, se o mundo continuar na toada atual, há uma probabilidade de 10% de que a temperatura média global ultrapasse a barreira dos 1,5°C. O estudo se apressa em dizer que há uma grande variabilidade nas medições que levam a calcular a temperatura média global e que os resultados não indicam que ela deva permanecer em valores elevados por muito tempo. Em todo caso, a primeira ultrapassagem ninguém esquece. O The Guardian publicou uma matéria a respeito.

 

Para ver e ler

Você sabe de onde vem e quanto custa a energia que usa?

Quase 70% da fonte de energia no Brasil vem de hidrelétricas; como alternativa temos as novas fontes renováveis – eólica, solar e biomassa – disponíveis em abundância no país. No entanto, muita gente ainda tem dúvidas se estas dão conta do recado. Faltará luz em nossas casas? Está na hora de perguntar quanto custa e de onde vem a energia elétrica que a gente usa. O Instituto Escolhas responde: assista ao vídeo e leia o estudo.

 

Para ler

Down to Earth: Politics in the New Climatic Regime

O polêmico filósofo francês, Bruno Latour, observa as mudanças no cenário mundial, com a volta dos partidos de direita e de um nacionalismo isolacionista à la Trump e Brexit. Latour vê um padrão neste instinto de escape que está longe de ser exclusivo do Reino Unido. Ele sugere uma fantasia de fuga, em última análise, fuga de um planeta compartilhado que está se tornando menos habitável. Não compreenderemos nada sobre a política dos últimos cinquenta anos”, escreve, “se não colocarmos a questão das mudanças climáticas e da sua negação escancaradas na nossa frente”. Isto quer dizer que a política é agora terrena: há uma quantidade finita (e cada vez menor) de terra firme disponível, e o problema de como partilhá-la e conservá-la só aumenta. Quanto ao Brexit, “o país que tinha inventado o espaço aberto do mercado no mar e na terra, o país que tinha incessantemente empurrado a União Europeia para se transformar numa enorme loja, este mesmo país, confrontado com a chegada repentina de milhares de refugiados, decidiu por impulso deixar de jogar o jogo da globalização”. À venda na Amazon brasileira por R$ 57.

 

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Climate Signs

Emily Raboteau escreveu uma crônica no New York Review of Books sobre, como diz o título, os sinais climáticos. Ela conta como seus filhos estão lidando com a mudança do clima, em museus, na escola e em casa. Em um museu, seus filhos ficam fixados nos impactos dos furacões mais recentes e ela conta que tirou as crianças de lá “do aterrador mapa do nosso habitat e fomos procurar ossos de dinossauro – uma extinção em massa mais fácil de digerir por estar num passado distante”. Depois, ela passeia por lugares e épocas de Nova York, onde mora, falando das mudanças e das pessoas. Ela lembra uma frase de um discurso de Martin Luther King Jr. sobre o Vietnã: “Estamos diante dos fatos, meus amigos, que amanhã é hoje. Somos confrontados pela terrível urgência do agora”. E, volta e meia, nas suas andanças pela cidade e na crônica, ela encontra um cartaz, um grafite ou uma placa em um parque com frases como: “Negar o clima mata”, “É a água, o imigrante a temer”. E imagina uma placa em uma livraria dizendo: “Favor notar: a seção de Ficção Pós-Apocalíptica foi transferida para Atualidades”. O texto está em inglês e pode ser acessado no site da NYRB.

 

Para ler

Advancing the Landscape of Clean Energy Innovation

Ernest J. Moniz, ex-secretário de Energia e Daniel Yergin, autor da história clássica do petróleo “A Busca”, publicaram um relatório sobre as inovações nas fontes renováveis de energia nos EUA sob a perspectiva do potencial tecnológico, dos padrões de investimento e das políticas públicas. O relatório identifica as forças e as fraquezas neste “ecossistema” e faz recomendações no sentido de torná-lo mais efetivo. Ele também discute as oportunidades mais significativas para acelerar a penetração dessas inovações, representadas pelos milhares de avanços tecnológicos que ocorrem fora do setor energético. O trabalho pode ser baixado do site do IHS Markit e foi comentado pelo pessoal da Axio.

 

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