ClimaInfo, 24 de janeiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

A repercussão da fala de Bolsonaro em Davos não foi das mais positivas

Daniel Buarque relata a repercussão da primeira e curta aparição de Bolsonaro no cenário mundial em Davos. O mundo dos negócios, diz Buarque, espera atos e prazos e não se encanta com promessas de campanha. O New York Times, por exemplo, disse que “o discurso de abertura de Bolsonaro deu o tom para uma reunião de Davos (…) em desacordo com a ética da conferência de cooperação global e a ordem liberal internacional.” O Daily Telegraph disse que “Bolsonaro não conseguiu honrar seu título de ‘Trump dos Trópicos’, com um discurso pouco inspirado em Davos, que deixou de lançar luz sobre a direção da oitava maior economia do mundo.” Buarque aponta que houve uma falta de interesse geral da mídia, “gerada pelo discurso sem novidades e sem detalhes sobre os planos de Bolsonaro para o país.” A Fortune deu um título e um texto mais positivo citando Nariman Behravesh, da IHS Markit, dizendo que o discurso foi muito parecido com os de líderes que vão a Davos buscando atrair investimentos. “Foi um pouco decepcionante não conter mais detalhes do que pretende fazer, mas os objetivos gerais foram encorajadores.” Provavelmente o moço quis dar o recado de que esperam “mais detalhes” antes de abrir o cofre.

Amélia Gonzalez relata os comentários de vários ambientalistas brasileiros sobre a fala do presidente em Davos, em especial o trecho em que ele falou da interdependência entre meio ambiente e desenvolvimento. Já neste início de governo, ficou claro para os ambientalistas que a prática se dá no sentido contrário da frase, dado o desmonte do ministério do meio ambiente e a transferência de algumas de suas mais importantes atribuições para o colo ruralista no ministério da agricultura.

Ontem, Bolsonaro e seus ministros não compareceram à coletiva de imprensa, deixando perplexos os jornalistas que os esperavam. O presidente alegou que tinha muitos compromissos e que estava cansado. Até Trump, no ano passado, foi na coletiva e conseguiu não se sair mal. Bolsonaro acabou dando razão a quem disse que ele tinha stage fright – medo do palco.

 

Combater o crime organizado inclui combater a grilagem de terras

Brenda Brito, do Imazon, analisou no Nexo o roubo de terras públicas, basicamente cobrando do governo o enfrentamento destes crimes. A prática é secular, mas ganhou mais peso e dramaticidade com a ocupação da Amazônia. “O avanço da fronteira agropecuária é a principal causa do desmatamento, mas a apropriação ilegal de terras públicas, a grilagem, também constitui um elemento importante desta devastação. Isso porque os grileiros costumam identificar áreas com poucos sinais de ocupação, desmatá-las, plantar pasto e colocar gado para sinalizar seu uso. Em seguida, inscrevem-nas como imóveis privados no CAR (Cadastro Ambiental Rural) e/ou em institutos de terra governamentais e solicitam a respectiva titulação. ‘Documentados’ com esses comprovantes de inscrição, comercializam a posse dessas áreas com terceiros, muitos deles conscientes de se tratar de terra grilada”. O artigo cita os conflitos e as pressões sobre moradores e povos tradicionais. Um subtítulo dá o mote da matéria: “os discursos de tolerância zero à corrupção e ao roubo do patrimônio público precisam definitivamente alcançar a Amazônia e aqueles que insistem em saquear terras públicas”.

Com a palavra o ministro autodeclarado combatente do crime organizado, Sergio Moro.

 

A preocupação do mundo com o futuro da Amazônia provocada por Bolsonaro

O jornalista Andrés Oppenheimer contou, no jornal argentino La Nación, dos temores internacionais quanto às ações de Bolsonaro levarem a uma perda importante da floresta Amazônica. Oppenheimer conversou com Zeke Hausfather sobre um artigo em que este dizia que os oceanos estão esquentando mais rapidamente do que se supunha. Perguntado sobre as causas, Hausfather falou do aumento das emissões na China e nos EUA e chamou a atenção para a Amazônia, pela quantidade de carbono que armazena em suas árvores e a catástrofe que sua perda significaria para o clima global. “O mundo certamente pode pressionar o Brasil”, disse Hausfather, “mas, ao final do dia, isto (preservar a floresta) é algo que o Brasil precisa fazer por si mesmo.”

A moda introduzida pelo novo governo é achar que o mundo nos deve e que terá que pagar para seguirmos preservando a floresta. É um olhar raso, imediatista. O futuro do clima inclui o futuro dos brasileiros.

 

A vitória de Pirro dos ruralistas no governo

Os professores Mercedes Bustamante, Helder Queiroz e Carlos Joly avaliam no Valor Econômico as mudanças promovidas pelo governo no que toca o meio ambiente e os povos tradicionais. “Orientadas pelo forte apoio do setor ruralista ao governo federal empossado, as mudanças na gestão ambiental concentraram-se no que esse setor considera como empecilhos às suas atividades (…) Várias interações, humanas e ecológicas, entre ecossistemas terrestres e aquáticos e populações rurais e urbanas passaram ao largo das preocupações daqueles com a responsabilidade de governar para todos os brasileiros.” Eles entendem que as “vitórias” da banda podre do agronegócio, os que grilam, corrompem, promovem violências e que “prosperam na especulação fundiária” são, na verdade, vitórias de Pirro. “A agricultura é uma atividade econômica altamente dependente dos recursos naturais e serviços ecossistêmicos (…) A degradação ambiental impõe custos de longa duração à economia, que resultam em perdas de produção e de capital humano.”

É um recado que vem sendo repetido sem parar. O prazo de validade da degradação ambiental é curto e os impactos climáticos sobre o próprio agronegócio podem ser acachapantes.

Em tempo: Pirro, um rei grego, venceu uma grande batalha contra os romanos. Um contemporâneo contou que Pirro teria dito que “uma outra vitória como esta o arruinaria completamente”, pois ele havia “perdido uma parte enorme das forças que trouxera consigo, e quase todos os seus amigos íntimos e principais comandantes.”

 

Attenborough avisa Davos que o Jardim do Éden não mais existe

Em sua fala, o mais conhecido naturalista britânico, sir David Attenborough, disse que ele certamente pertence ao holoceno, a era geológica que precedeu à atual. Explicou que o clima no holoceno foi estável e permitiu que a humanidade desse um salto inédito na história das espécies. E avisou: “O holoceno terminou. O Jardim do Éden não mais existe. Nós mudamos de tal modo o mundo que os cientistas dizem que estamos em outra era geológica: o antropoceno – a era dos humanos (…) O que fizermos agora e nos próximos anos afetará profundamente os próximos milênios.” Depois de sua fala, dirigindo-se a jornalistas, deu um recado mais direto: “o crescimento terá um fim, seja um final repentino ou em um modo controlado”. E emendou com uma piada conhecida falando que quem diz ser possível um crescimento ilimitado em circunstâncias finitas é “ou um lunático ou um economista”.

 

WRI alerta para a falta de progresso na meta de emissões globais para 2020

O progresso no combate às mudanças climáticas tem sido muito lento em quase todas as partes da economia global, de acordo com uma análise do World Resources Institute comentada pelo The Guardian e pela France24. “Remover o carvão do mix energético global está demorando demais, muitas florestas ainda estão sendo destruídas e os subsídios aos combustíveis fósseis estão em andamento, apesar de distorcerem o mercado”, observa o documento.

 

Os carros elétricos não reduzirão a demanda por petróleo, diz chefe de Agência Internacional de Energia

Apesar do rápido crescimento, os veículos elétricos (EVs) estão fazendo pouco para conter a crescente demanda por petróleo, de acordo com o Fatih Birol, da Agência Internacional de Energia. Falando no Fórum Econômico Mundial, Birol disse que caminhões, petroquímicos e viagens aéreas estão impulsionando as necessidades mundiais de petróleo, que deverão aumentar em 1,3 milhão de barris por dia [cerca de 1%], enquanto os EVs estão compensando apenas dezenas de milhares de barris por dia de demanda.

 

A conta de US$ 653 bilhões dos desastres naturais de 2017 e 2018

A seguradora Aon estima que os furacões, incêndios, enchentes, terremotos e outros desastres causaram ao mundo um prejuízo de mais de US$ 653 bilhões. No ano passado, segundo eles, a conta dos quase 400 eventos catastróficos saiu a US$ 235 bilhões, enquanto os eventos em 2017 custaram quase US$ 420 bilhões. O relatório da Aon ainda aponta que nem metade destes prejuízos estavam de algum modo cobertos por seguros. Os campeões no ranking dos prejuízos foram os furacões, tufões e ciclones tropicais: Michael e Florence nos EUA, Jebi e Trami no Japão e o Mangkhut que passou pelas Filipinas e pela China. O prejuízo maior ficou para os EUA, por ter sofrido com os incêndios na Califórnia e pelo preço da terra e imóveis ser lá bem mais alto do que na maior parte do mundo. Mas a maioria das 10.000 mortes aconteceu na Ásia e no Pacífico.

 

O gelo na Groenlândia está derretendo rapidamente

Pesquisadores da Universidade de Ohio, nos EUA, descobriram que o gelo groenlandês está desaparecendo mais rapidamente do que indicavam estudos anteriores. O principal motivo é que, até há pouco, as pesquisas buscavam entender a dinâmica nas regiões Sudeste e Noroeste, de onde se desprendem o maior número de icebergs. A pesquisa realizada descobriu que a maior perda continuada de gelo se deu na região Sudoeste, onde não existem muitos glaciares. A ausência destes significa que o gelo está derretendo no interior do país e aumentando o volume de água nos rios durante o verão. E essa água aumenta o nível do mar. O The Guardian comentou a descoberta.


Para enviar trabalhos e concorrer

Prêmio MapBiomas

Para estimular e ampliar mais aplicações e trabalhos com análises de mudanças de uso da terra no território brasileiro, a iniciativa resolveu lançar o Prêmio MapBiomas, em parceria com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) e o Instituto Escolhas, com apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS).

Nesta primeira premiação, o MapBiomas premiará trabalhos que explorem as relações entre a infraestrutura de energia e transporte e as mudanças de cobertura e uso da terra no Brasil.

Prazo de entrega até 31 de janeiro.

Mais informações sobre a premiação e como participar neste site.

 

Para concorrer a bolsas

Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente

Estão abertas as inscrições para bolsas de mestrado e doutorado do Instituto Escolhas. O programa faz parte da Cátedra Escolhas de Economia e Meio Ambiente e tem como objetivo contribuir para aumentar a formação nessas áreas, buscando colaborar para o ensino e a pesquisa no Brasil das questões socioambientais contemporâneas e globais a partir da abordagem das ciências econômicas, criando diálogo entre diferentes áreas do saber que são importantes para a superação dos dilemas inerentes aos processos de desenvolvimento do país. Podem se inscrever pesquisadores de temas voltados à agricultura, água, cidades, economia de baixo carbono, energia, florestas, riscos socioambientais do sistema financeiro e valoração de serviços ambientais, entre outros.

Até 3 de fevereiro. Mais informações neste site.

 

Para enviar artigos
Revista Clima com Cultura Científica

A revista Clima com Cultura Científica – pesquisa, jornalismo e arte convida à submissão de artigos, resenhas e produções artísticas e culturais para o seu décimo quarto dossiê, a ser publicado em abril de 2019. Este dossiê emerge como extensão das discussões e vivências compartilhadas no projeto interdisciplinar “Pensando com Fungos”, desenvolvido pelo Laboratório de Ficção, Ciência e Cultura (LABFICC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ao longo do ano de 2018. A existência dos fungos aponta para características que impactam as formas como pensamos a terra, os fungos, os solos, a floresta, as espécies e todo conhecimento que tenta conectá-los.

Mais informações neste site.

 

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