“Eles transformaram o nosso rio em uma água sem vida”

Mãe Donana pleiteia a titulação do Território Quilombola do Quingoma na Bahia

Tatiane Matheus*

 

“Só chega aqui no Quilombo lixo e lixo. No Quilombo não tem um posto de saúde, não tem transporte, só tem uns ‘ligeirinhos’ (transporte público) que rodam quando querem. A gente fica uma hora, duas horas, a gente fica esperando transporte. O hospital metropolitano foi construído dentro de uma área de mata importante. Eu fico muito triste porque a gente vê a mata do Quilombo, reserva lindíssima, perdendo [árvores] trintenárias para rodovias. Não sou contra o hospital, mas [contra] onde ele foi colocado, perto do aquífero”, comenta a mãe Donana, líder do Território Quilombola do Quingoma, na Bahia. Donana é crítica à desapropriação de terrenos de mais de 50 famílias e à construção de uma galeria que está aterrando as nascentes do rio. E sua história é mais um exemplo do que se chama Racismo Ambiental, mesmo quando ele não é devidamente denominado dessa forma.

“O nosso Quilombo não está à venda. A gente não coloca preço no nosso Quilombo. Aqui está a nossa história, os nossos ancestrais estiveram aqui. Nós temos o dever de lutar para manter este Quilombo histórico e ele ser respeitado pela importância histórica dentro deste estado, dentro deste Brasil, porque aqui é o primeiro núcleo de resistência negra do Brasil”, conclui Donana.

As histórias de Donana e suas críticas à devastação ambiental (além das cultural e social) que a comunidade sofre – como nas palavras de Donana: “Eles transformaram o nosso rio em uma água sem vida” -, é o que interliga a sua história ao Movimento Jaguaribe Vivo que, em articulação com a Convergência pelo Clima, dialoga com mulheres que trabalham e vivem no território por onde passa esse rio e em outras comunidades próximas a ele. Esse grupo reúne ambientalistas e pesquisadores dedicados, sobretudo, ao cuidado com a água, compreendendo sua dinâmica como elemento fundamental de promoção de conectividades ecossistêmicas, inclusive nas cidades.

Desde 2014, o processo de implantação de intervenções urbanísticas na Bacia do Rio Jaguaribe trouxe impactos à região com obras públicas que, segundo a bióloga Maíra Azevedo, são realizadas com concepção ultrapassada, aprovadas em processos corrompidos, executadas com importantes falhas de fiscalização e monitoramento do cumprimento de condicionantes. O Movimento  (@salveoriojaguaribe) também compõe a Convergência pelo Clima formada por organizações que acompanharam o recente processo de elaboração do Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças do Clima (PMAMC) e do Plano Municipal de Recuperação e Preservação da Mata Atlântica (PMMA) de Salvador. Neste momento, uma rede de ONGs que atuam na região da Mata Atlântica enviaram uma nota para alguns órgãos do município e estado da Bahia sobre a Mata Atlântica de Salvador e Região Metropolitana, além de uma nova solicitação de informações a respeito dessas obras públicas que estão sendo realizadas.

Ancestralidade – Nos anos 60, quando tinha uns seis anos, a avó de Ana Lúcia dos Santos Silva, a mãe Donana — hoje líder da Comunidade Quilombola Quingoma, localizada em Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador (BA) — contava histórias de que seu bisavô veio de uma comunidade quilombola que foi perseguida e que um de seus descendentes iria voltar à terra para lutar pelo seu povo.

Donana foi, finalmente, para a terra de seus antepassados só aos 43 anos e hoje luta por ela. Poderia até parecer uma história de contos de fadas ao escutá-la dizendo que ouviu a sua ancestralidade e ela foi a escolhida entre os descendentes como a predestinada para proteger a terra de seus antepassados.Mas, os problemas são inúmeros e de um conto mágico não têm nada. Entretanto, é por ela que podemos entender sobre como a estrutura da sociedade brasileira invisibiliza e impacta pessoas, sob os pontos de vista social e ambiental.

Existem indícios que a área quilombola de Quingoma foi formada em 1569 por negros que chegaram nos primeiros navios com pessoas escravizadas no Brasil.Em 1893, um menino do quilombo foi preso e ao ser torturado contou onde estava o local, que naquele ano foi invadido e devastado. Esta área, na atualidade, foi certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2013, mas ainda não houve a emissão do título. Este lugar sofre ataques e está longe de ser um caso isolado.  Desde a implantação da Via Metropolitana Camaçari – Lauro de Freitas, já foram registradas mais de dez ocorrências de violência contra o povo do quilombo. Neste 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, Donana e todos aqueles que a apoiam seguem no que chamam de caminhada de resistência e luta, com a esperança de conseguirem a titulação do território como Quilombo.

 

*Tatiane Matheus é jornalista e pesquisadora no Instituto ClimaInfo 

 

ClimaInfo, 16 de novembro de 2021.

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