Silveira defende data centers como “soberania”, mas projetos vão “exportar” elétrons

Ministro de Minas e Energia diz que empresas internacionais do setor estão procurando o Brasil, comprovando que eletricidade do país virou commodity.
2 de junho de 2026
alexandre silveira mme
Divulgação MME
Resumo
  • Governo aposta em data centers como ativo estratégico: Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defende tratar o setor como tema de soberania nacional, citando o crescimento da demanda internacional e o potencial de atrair bilhões em investimentos para o Brasil.
  • Expansão acelera pressão sobre energia e recursos naturais: Impulsionados pela inteligência artificial e pela abundância de eletricidade renovável, os projetos de data centers avançam rapidamente no país, mas levantam preocupações sobre consumo intensivo de água e uso crescente da infraestrutura energética.
  • Risco de nova “comoditização” da economia: País pode assumir um papel de fornecedor de eletricidade barata para grandes empresas globais de tecnologia, “exportando elétrons” sem capturar maior valor agregado ou desenvolver capacidades industriais locais.
  • O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu na 2ª feira (1º/6) que o Brasil trate os data centers como tema de soberania nacional e infraestrutura estratégica. No entanto, além de desconsiderar os impactos desses projetos sobre a oferta hídrica, pela quantidade de água que consomem, Silveira ignora o risco de, novamente, o Brasil virar um exportador de commodities – no caso, os elétrons das fontes renováveis de energia.

    O ministro afirmou que o Brasil reúne condições para atrair investimentos internacionais por causa da matriz energética limpa, da segurança jurídica e do reposicionamento geopolítico do país. Segundo ele, a discussão sobre data centers envolve tecnologia, mas depende principalmente da oferta de energia necessária para operar essas estruturas, relata o Poder 360.

    Segundo Silveira, o país tem 38 gigawatts (GW) em pedidos de parecer de acesso e 7,1 GW com potencial para representar R$ 159 bilhões em investimentos nos próximos anos, informam Brasil Energia e Canal Solar. O ministro ainda declarou que empresas internacionais do setor passaram a procurar o Brasil em razão da instabilidade no Oriente Médio. E o fato do país hoje contar com excesso de energia renovável tem atraído mais companhias.

    Dados apresentados pelo Ministério de Minas e Energia (MME) mostram que os pedidos de conexão para novos projetos de data centers cresceram 330% entre 2024 e 2025, segundo o Brasil 247. Em dezembro do ano passado, a demanda registrada para empreendimentos previstos até 2038 alcançava 28,5 GW.

    O Brasil possui hoje 205 data centers em operação e projetos em construção que somam mais de R$ 114,5 bilhões em investimentos. E a conta continua subindo: dona do maior portfólio de data centers no país, com 26 unidades em operação, a Ascenty anunciou a construção de seu primeiro complexo voltado à inteligência artificial no país, com investimentos previstos de R$ 30 bilhões, informa a Folha.

    Um data center é, em essência, uma fábrica de processamento de informação. Um galpão com servidores que armazenam, digerem e distribuem os dados por trás de tudo o que acontece na internet – uma transação via Pix, um vídeo no YouTube e, claro, a aplicação que mais exige eletricidade: inteligência artificial, explica o InvestNews. Ou seja, data centers não geram nenhum valor agregado. Além de monopolizarem a eletricidade gerada por uma planta renovável. É mais uma comoditização da economia brasileira.

    Um exemplo claro disso é dado pel’O Globo. Segundo o jornal, por trás do data center de R$ 200 bilhões que está sendo construído para o TikTok no Ceará – projeto já cercado de problemas com energia e água -, há uma estratégia da Casa dos Ventos de transformá-lo em “avenida de exportação de elétrons” a partir do Brasil e em escala industrial.

    A Casa dos Ventos foi fundada pelo empresário Mário Araripe em 2007 e é uma das primeiras empresas a explorar o potencial eólico do Nordeste. Quase duas décadas depois, a companhia enxerga na corrida global pela IA a oportunidade de extrair da energia renovável brasileira um valor até então inédito: a “exportação de elétrons” como dados processados. Commodity na veia.

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