Eletricidade nuclear não é limpa, muito menos necessária
Em março de 2026, o governo federal anunciou apoio a um movimento para triplicar a energia nuclear até 2050. Pegando carona na crise provocada pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã e na consequente montanha russa de preços do barril de petróleo e do gás fóssil, alegou que o país precisa da eletricidade nuclear para garantir a tal da “segurança energética”. O acordo é capitaneado pela França, onde a eletricidade é gerada em grande parte por usinas nucleares. O que está longe de ser o caso do Brasil.
Um país com tanto sol, vento e água é tão mais seguro energeticamente quanto mais e melhor forem usados esses recursos. Depender da importação de combustíveis fósseis e nucleares significa estar sempre na mão do preço global de mercado – este animal que cresce fora de controle em tempos de crise e vira um bichinho fofo quando sobra oferta.
Outro argumento recorrente e anunciado aos quatro ventos é que a eletricidade nuclear é limpa e renovável. Só que o combustível nuclear, como o urânio, é ainda menos “renovável” do que o petróleo, o gás fóssil e o carvão. Estes últimos se formaram há poucas centenas de milhões de anos. Já a idade do urânio é medida em bilhões de anos.
Além disso, gerar eletricidade nuclear emite entre 3 e 4 vezes mais gases de efeito estufa do que uma hidrelétrica sem reservatório, comparando seus ciclos de vida. A construção das duas consome muito aço e cimento – dois dos materiais com maior pegada de carbono. Só que a nuclear consome muita energia elétrica no processo de enriquecimento do combustível.
Como a pequena planta de enriquecimento de combustível que existe no Brasil não dá conta de abastecer as velhas Angra 1 e 2, temos que importar de países cujo sistema elétrico é baseado em térmicas a gás e carvão. Importamos, portanto, as emissões embutidas no combustível nuclear.
Além disso, ao final da vida útil, uma usina nuclear emitirá ainda mais durante o descomissionamento. Afinal, são necessários mais cimento e aço para encapsular todo o material que ficou radioativo ao longo dos anos.
Isso, claro, se não houver acidentes trágicos como os de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, e Fukushima, no Japão, em 2011.
Se a eletricidade nuclear não faz o menor sentido para o Brasil enfrentar a crise climática, faz ainda menos sentido econômico. Cada vez que nossos decisores colocam Angra 3 na agenda, o custo de concluir a obra aumenta. E a tarifa mínima para viabilizar a operação sobe ainda mais.
Enquanto a energia eólica e solar está saindo em torno de R$ 150 por megawatt-hora (MWh) e as térmicas que usam combustíveis fósseis por volta de R$ 300/MWh, a tarifa de Angra 3 está hoje fixada em torno de R$ 800/MWh. E a usina não entraria em operação antes de 2033.
Como a decisão final sobre a termonuclear ainda não foi tomada, é praticamente certo que o custo de concluir a obra e a tarifa serão ainda maiores. E vale lembrar que a viabilidade de uma usina nuclear exige que ela funcione o tempo todo, na base, como se diz. Rodando com esse taxímetro a toda. A conta de luz para o consumidor passará de muito alta para insuportável.
Finalmente, há um componente político importante nesta discussão que raramente vem à tona. Um sistema com milhares de plantas eólicas, solares, baterias e hídricas é mais estável, descentralizado e democrático do que outro com poucas usinas intensivas em capital e know-how e nas mãos de poucos e poderosos.
No Brasil, o caminho para reduzir e, a longo prazo, eliminar a dependência de combustíveis fósseis é o aproveitamento dos nossos recursos renováveis. E não trocar um vício fóssil por outro nuclear.
Por: Shigueo Watanabe Jr, físico, pesquisador do Instituto ClimaInfo e especialista em mudanças climáticas.



