ClimaInfo, 10 de janeiro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

O ESTADO DOS RESERVATÓRIOS E AS CONTAS DE ENERGIA

Para muita gente o ano começou nublado e com muitas chuvas, o suficiente para analistas do setor elétrico preverem que os reservatórios operarão com alguma tranquilidade. Uma matéria no Valor de 2a feira vai nessa direção, mas faz uma ressalva ao dizer que, a continuar o atual ritmo de chuvas, ao final do mês os reservatórios estarão mais vazios do que no final de janeiro de 2017.

Uma outra notícia do A Tarde diz que a estiagem em 2017 fez com que as térmicas movidas a combustíveis fósseis tivessem que operar durante muito tempo. O consumidor pagou parte da conta da operação das térmicas quando foram acionadas as bandeiras tarifárias coloridas. Mas sobraram contas a pagar, que virão nos reajustes das tarifas das concessionárias ao longo do ano, algo em torno de 10%.

Com reservatórios menos cheios do que o ano passado e com os restos a pagar, dá para imaginar que teremos dois reajustes, um por conta de 2017 e outro por conta de 2018, além das bandeiras coloridas.

http://www.valor.com.br/brasil/5248565/pais-comeca-ano-com-melhor-cenario-hidrico-desde-2012#

http://atarde.uol.com.br/economia/noticias/1926032-estiagem-de-2017-pode-levar-a-reajustes-de-mais-de-10-para-energia-em-2018

 

MAIS SOBRE O FIM DAS HIDRELÉTRICAS NA AMAZÔNIA

Um artigo de Taís Hirata na Folha de São Paulo de ontem, dá números e explica a possibilidade de não termos mais novas hidrelétricas na Amazônia. Parece que o pessoal do setor está – finalmente – aprendendo a melhor estimar o custo ambiental de uma usina. Nos anos 90, este custo representava menos de 6% do custo da usina e, agora, passa de 20%. Até aí, como os custos acabam sendo repassados aos consumidores, daria para continuar a construir. O que está pegando é que as usinas na Amazônia impactam terras indígenas e a resistência ficou forte o suficiente para desestimular possíveis interessados. O pessoal do setor, que antes não dava muita bola para índio, começa a usar a mudança do clima como argumento, dizendo que, se não construir hidrelétricas, o país vai ter que queimar gás natural, um combustível fóssil. Para a jornalista, este mesmo pessoal lamenta abandonar os 50 GW que ainda poderiam ser explorados na Amazônia.

Mas a realidade conseguiu se infiltrar nos jornais no mesmo dia. Acontece que, para um novo leilão de geração, que deve acontecer em abril e que contratará usinas com o compromisso de operarem a partir de 2022, se inscreveram mais de 1.600 projetos que, somados, podem gerar aproximadamente 50 GW. Desses, 48 GW são projetos eólicos e fotovoltaicos. Ou seja, quase o mesmo que poderia vir a ser explorado por inundações da Amazônia que impactariam a vida de indígenas e ribeirinhos, é possível colocar no sistema com o uso de sol e vento.

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/01/1948976-custo-ambiental-cresce-e-potencial-para-novas-hidreletricas-chega-ao-fim.shtml

http://www.valor.com.br/brasil/5250413/eolicas-lideram-lista-de-inscritos-em-leilao-de-energia-marcado-para-abril


O ARGUMENTO SURRADO DOS QUE NÃO QUEREM PARAR DE DESMATAR

O ministério da agricultura está escrevendo editoriais e colunas em defesa do agronegócio e escolhendo o meio ambiente como inimigo.

Em agosto, o secretário executivo do ministério da agricultura escreveu sobre “A hipocrisia ambiental”. Em dezembro, voltou a dizer que a agricultura brasileira ocupa apenas 7,6% do território nacional e produz que é uma maravilha, comparando-a com EUA e Europa que, para ele, ocupam muito mais terra dos seus países. Ontem, o editorial do Estadão voltou a repisar este novo número mágico e abriu fogo direto contra quem defende o meio ambiente já no subtítulo, quando acusa “um falatório mal informado, muitas vezes desonesto”.

Repetir, repetir e repetir um “número mágico” não fará dele realidade. Com mostrou Tasso Azevedo em artigo comentado aqui na 2a feira, o Brasil “ocupa 33% do território com atividade agropecuária, e não 7,6%, que correspondem apenas à área de cultivos agrícolas, sem contar a pecuária. Nos estados de ocupação consolidada, o percentual é ainda mais alto: São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Paraná, por exemplo, têm mais de 65% do território com uso agropecuário. Mesmo Mato Grosso, ainda na fronteira agrícola, já alcança 37% de ocupação”.

Tasso, sempre gentil, deu o título de “Sem exagero” para seu artigo. Ao que, acrescentaríamos “Sem desonestidade”.

http://www.codigoflorestal.com/2017/08/a-hipocrisia-ambiental-por-eumar-novacki.html

http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-pais-poupador-de-terras,70002143515

https://tassoazevedo.blogspot.com.br/2017/12/sem-exagero.html


QUEDA NO PREÇO DO AÇÚCAR LEVARÁ USINAS A PRODUZIR MAIS ETANOL

Um artigo no Valor de 2a feira diz que a safra de cana 2018-19 vai produzir mais etanol do que açúcar, depois de alguns anos seguidos em que o preço internacional do açúcar estava mais doce que o do etanol. O artigo analisa o preço internacional do petróleo e, portanto, da gasolina, e usa uma estimativa da Única (União das Indústrias de Cana de Açúcar) prevendo um aumento real entre 3 e 4% no preço da gasolina e, portanto, do etanol. Também analisa a safra desse ano e a taxa do dólar.
Até ontem, as várias declarações do setor estavam voltadas para sobretaxar a importação de etanol de milho dos EUA e para o RenovaBio, que seriam a salvação da lavoura. Nada que uma queda no preço do açúcar não resolva rapidinho.
http://www.valor.com.br/agro/5246503/usinas-devem-priorizar-etanol-na-proxima-safra#


ARTIGO SOBRE A AVIAÇÃO NACIONAL ESQUECE O AQUECIMENTO GLOBAL

Chamou a atenção um artigo no Valor de 2a feira sobre as oportunidades que a aviação brasileira está perdendo. Lá fora, viaja-se muito mais por habitante e gera-se muito mais PIB. Como o setor é extremamente competitivo, as margens de lucro são baixas e, segundo o artigo, as travas por aqui estão numa regulação e no preço do combustível da Petrobrás, que aumentam o custo operacional e tornam as operadoras nacionais não competitivas no mercado internacional e restringem a expansão do mercado doméstico. O artigo chamou a atenção por não mencionar a responsabilidade das emissões da aviação no aumento do aquecimento global e as decisões internacionais tomadas para reduzi-las.

Como se o céu de brigadeiro não esquentasse.

http://www.valor.com.br/opiniao/5248597/beneficios-da-aviacao-ainda-nao-explorados-pelo-brasil#


PLANO TRUMP PARA RESSUSCITAR FÓSSEIS É DERROTADO NA JUSTIÇA E FRACASSA EM LEILÕES

Trump está vendo frustrados seus planos para a glorificação dos fósseis. Seu secretário de energia, Rick Perry, apresentou ao órgão regulador de energia uma proposta de ajuda às indústrias do carvão e nuclear, alegando que eram imprescindíveis para a segurança energética do país. A FERC (Comissão Federal de Regulação da Energia) rejeitou a petição, dizendo que esta não faz sentido, que existe oferta abundante de outras fontes mais baratas e que não penalizaria o consumidor.

Em outro ringue, o governo Trump vem abrindo leilões de áreas federais para exploração de petróleo. Deu mais ou menos certo na melhor bacia de folhelho do Novo México, onde lotes foram vendidos ao preço médio dos últimos tempos. Mas só 2% dos lotes localizados em Wyoming e em Nevada, em áreas exploradas pelas petroleiras, atraíram interessados. Analistas dizem que nem vale a pena tentar leiloar outras áreas, porque o interesse será nulo.

http://www.valor.com.br/internacional/5250493/regulador-rejeita-proposta-de-trump-de-ajudar-usina-nuclear-e-carvao#

http://thehill.com/energy-environment/367983-regulators-kill-perrys-proposal-to-prop-up-coal-nuclear-power-plants

http://www.latimes.com/nation/la-na-oil-gas-lease-public-land-2018-story.html


RÚSSIA BATE RECORDE DE PRODUÇÃO DE PETRÓLEO

A Rússia acaba de bater um recorde, e não foi anabolizando atletas. Com a marca de 11 milhões de barris por dia (bpd), segundo dados do Ministério de Energia da Rússia, o país alcançou o maior patamar de extração de petróleo dos últimos 30 anos. Isso apesar de a Rússia ter ingressado no acordo da OPEP e seus aliados para restringir o abastecimento mundial de petróleo em 1o de janeiro de 2017. A promessa russa foi cortar gradualmente 300.000 bpd em relação ao nível de outubro de 2016, que foi a maior produção mensal do país em quase 30 anos – 11,3 milhões de bpd.

No final de novembro, os produtores não-membros da OPEC, liderados pela Rússia, bem como os membros da OPEP, concordaram em esticar seu pacto de redução da produção até o final de 2018. Se o acordo se mantiver até o final deste ano, poderá haver uma interrupção no crescimento da produção de petróleo da Rússia. Mas ela continuará operando em um patamar historicamente alto.

Para comparação, a produção brasileira no ano passado foi de 2,8 milhões de bpd.

https://oilprice.com/Energy/Crude-Oil/Russia-Boosts-2017-Crude-Oil-Production-To-30-Year-High.html


A RESPONSABILIDADE POLÍTICA PELO COLAPSO DA TERRA

O jornalista e editor Roberto Savio escreveu um artigo forte e bastante pessimista sobre o futuro da humanidade. Ao invés de apresentar teses, Savio foi empilhando dados, fatos e números. O ponto de partida é a reunião dos ministros da União Europeia nos últimos dias de 2017, quando estes decidiram reduzir a ambição das metas da EU, indo, como ele diz, na mesma direção de Trump. A meta de Paris, que queria uma matriz energética 27% renovável até 2025, baixou para 24%, e os ministros prorrogaram os subsídios aos fósseis até 2030, ao invés de 2020 como tinham combinado antes. Daí, Savio coloca números nesses subsídios, e não só na EU. Os governos estão dando US$ 10 milhões por minuto para a indústria fóssil. Somando tudo, o mundo gasta mais de US$ 5 trilhões por ano e esse valor não para de subir. Hoje, isso corresponde a 6,5% do PIB global. Savio reclama que a mídia não dá o destaque necessário.

Do petróleo Savio, vai às vacas para mostrar que as emissões da pecuária correspondem à 18% das emissões mundiais, enquanto as do transporte – que queima gasolina, diesel e gás natural – correspondem a 13% do total das emissões globais. E que o principal problema das vacas não é a pressão sobre o clima, mas o consumo de água. O repisado número de 16 mil litros de água usados para a produção de um quilo de carne é ilustrado por Savio na forma de um hambúrguer consumindo a água de dois meses de banho. Das vacas à sobrepesca, ele volta à mudança do clima dizendo a que a produção de vinhos de qualidade na Inglaterra está aumentando significativamente porque o clima do sul da Inglaterra está cada vez mais parecido com o da França de décadas atrás. Savi termina dizendo que “vamos comprar um champanhe inglês para tomar num cruzeiro de luxo pelo Polo Norte (sem gelo), e deixe a orquestra tocar, como fizeram no Titanic até o último minuto”.

http://www.ipsnews.net/2017/12/political-responsibility-collapse-planet/


ILHA EÓLICA HOLANDESA PODERÁ LEVAR ELETRICIDADE A VÁRIOS PAÍSES

Os holandeses têm planos para a construção de uma ilha artificial num banco de areia no Mar do Norte. A ilha centralizaria a operação de muitas turbinas eólicas, com capacidade da ordem de 30 GW. O projeto prevê conexões submarinas com Holanda, Inglaterra, Bélgica, Alemanha e Dinamarca. E ainda teria um potencial de expansão importante. Comparativamente, o pessoal da Tennet T que está por trás da iniciativa, mostrou que o custo de geração seria bem mais baixo que o das eólicas offshore existentes. Torre por torre, a diferença não é muita. Mas um dos itens mais caros nas plantas offshore é o cabeamento. Quanto mais longe, mais cabo é preciso, mais caro o projeto. Ao centralizar num único ponto, ganha-se escala. Mais, o projeto prevê que a transmissão da energia da ilha para terra firme será feita em corrente contínua, tecnologia que exige cabos menores e, portanto, mais baratos. Os linhões de Itaipu e o novo linhão de Belo Monte operam em corrente contínua. O vento, que sempre foi um pesadelo para as plataformas de petróleo no Mar do Norte, se transforma a cada novo projeto em um recurso para a substituição do óleo e do gás, que alguma hora vão acabar.

https://www.theguardian.com/environment/2017/dec/29/is-this-the-future-dutch-plan-vast-windfarm-island-in-north-sea


SUÉCIA USA CALOR DA NUVEM DA INTERNET PARA AQUECER CASAS

Os imensos datacenters onde reside “a nuvem” exigem um controle rigoroso da temperatura e umidade do ambiente, que deve ser frio e seco. Para tal, são equipados com sistemas de condicionamento de ar igualmente imensos. Quem já pôs a mão do lado de fora de um ar condicionado sabe que ele é quente porque, afinal, o aparelho está tirando ar mais quente da sala e jogando para fora. Os suecos decidiram aproveitar esse ar quentinho para aquecer as casas nos muitos meses de frio. A moda está pegando e o governo está fazendo parcerias com os datacenters de grandes empresas como os da rede de lojas H&M e os da corporação Ericsson. O plano é que o Stockholm Data Parks chegue a suprir 10% do calor de todas as residências suecas até 2030. A Finlândia, o Canadá e os EUA têm projetos semelhantes.

http://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-42398222


MILHARES DE NORTE-AMERICANOS NÃO TÊM RECURSOS PARA SAIR DE ÁREAS DE RISCO CLIMÁTICO

Moradores do litoral do estado norte-americano da Louisiana, onde fica New Orleans, estão entre os mais ameaçados por fortes furacões e pela elevação do nível do mar. Boa parte do litoral é um vasto manguezal de quilômetros de extensão. Também é uma das áreas mais pobres do país. Uma matéria da PRX, em colaboração com a Reveal – Center for Investigative Reporting, conta um pouco do drama de quem não tem dinheiro para se mudar para longe da desgraça anunciada. Trump teve 60% dos votos de lá.

https://www.npr.org/2018/01/04/572721503/louisiana-says-thousands-should-move-from-vulnerable-coast-but-cant-pay-them

 

 

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