ClimaInfo, 20 de fevereiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Câmara federal discute eliminação dos subsídios na conta de luz

Segundo estimativas de gente do setor, quase metade da conta de luz dos consumidores é gasta para bancar subsídios, isenções e outras benesses dados a grupos e setores do mercado. Uma parte, a bem da verdade, banca as tarifas sociais para os consumidores de baixa renda e o programa Luz para Todos. Por outro lado, o produtor rural tem uma tarifa superespecial, e tanto faz se ele é um pequeno agricultor familiar ou um megaprodutor de grãos para exportação. No final do ano passado, Temer e amigos mandaram para o congresso uma série de projetos de lei que aumentariam, se aprovados, o déficit fiscal. Um deles vai no sentido contrário, estabelecendo um cronograma de eliminação de boa parte desses subsídios e isenções. A bancada ruralista se juntou a outros grupos que perderão suas boquinhas para derrubar o projeto de lei. Ontem, o IDEC e associações de grandes consumidores de eletricidade divulgaram uma carta pedindo a aprovação da lei pelo congresso. A briga é boa e será um bom teste de forças.

 

Senado discute meta para renováveis para 2040

Em 2016, o ex-senador Cristovam Buarque apresentou um projeto de lei estabelecendo uma meta de participação de fontes renováveis na matriz energética brasileira para o ano de 2040. No texto original, Buarque propunha um aumento da participação das fontes renováveis na oferta interna de energia para no mínimo 60%, em 2040.

O projeto passou pela Comissão de Meio Ambiente, onde o ex-senador Flexa Ribeiro, conhecido pela sua atuação na defesa da grilagem de terras públicas no sul do Pará, propôs um substitutivo eliminando a meta. O substitutivo delega a responsabilidade de colocar números para o Plano Nacional de Energia 2050.

Nesta semana, o projeto de lei e o substitutivo estão passando pela Comissão de Serviços de Infraestrutura.

 

O desenvolvimento da Amazônia baseado na sua biodiversidade

A jornalista Daniela Chiaretti escreveu um importante artigo sobre o projeto de desenvolvimento econômico para Amazônia calcado em pesquisa, desenvolvimento e industrialização dos múltiplos recursos da sua biodiversidade. Chiaretti cita um dos pais do projeto, o biólogo Ismael Nobre, que anunciou um “Bem-vindos à Amazônia 4.0.” O artigo traz uma lista de exemplos, como o da descoberta de um gene em um microrganismo capaz de decodificar uma enzima que transforma a celulose em açúcar; se funcionar em escala industrial, isto aumentaria em 50% a produção de etanol por tonelada de cana-de-açúcar. Outro pesquisador desenvolveu um grampo de sutura cirúrgica inspirado no formato da mandíbula da saúva. E por aí vai. Este projeto de desenvolvimento da Amazônia vem sendo engendrado por pesquisadores da USP e do Imazon e, segundo Chiaretti, “trata-se de inserir tecnologia de ponta na floresta e sair da armadilha atual, em que as árvores amazônicas são derrubadas porque não se consegue impulsionar um modelo de negócios que seja sustentável.” O artigo termina com uma boa imagem: “A ideia dos brasileiros é fazer com que a Amazônia se desenvolva com as riquezas que vêm da floresta. Não precisa imitar São Paulo e ter que corrigir depois todos os desafios urbanos da metrópole que cresceu transformando o verde em asfalto.”

 

Agro é tudo menos liberal

A bancada ruralista, não muito discretamente, entrou em choque com as políticas liberais do ministro da economia Paulo Guedes. Na pauta de Guedes, estão desde o corte de subsídios do Plano Safra até a cobrança de contribuição previdenciária sobre exportações agropecuárias. A bancada está mandando recados de que pode atrapalhar a aprovação da reforma previdência. Como era mesmo o discurso de jamais atrapalhar o produtor rural?

 

Noruega, o novo “Fundo Indonésia” e a dificuldade em rastrear o óleo de palma

Assim como fez com o Fundo Amazônia, a Noruega assinou um acordo de US$ 1 bilhão com a Indonésia para ajudar a conter o desmatamento. Finalmente, dez anos depois de assinado, foi feito o primeiro pagamento, fruto de uma queda no desmatamento medido pelo governo e corroborado por ONGs. O ato foi comemorado, embora a quantia, da ordem de US$ 20 milhões não seja lá grande coisa, mas sinaliza que a Noruega cumpre sua parte, pagando, quando a outra parte cumpre a sua, parando de desmatar. O artigo da Reuters fala mais do acordo e dos esforços do país para conter o desmatamento.

Já outro artigo, também da Reuters, fala do mercado de óleo de palma na Europa, onde apenas 74% do produto é certificadamente livre de desmatamento. Dez países europeus haviam se comprometido a só comprar óleo de palma certificado a partir de 2020. Na toada atual, a meta não será cumprida. Enquanto países mais ao norte da Europa estão fazendo a lição de casa, os governos de Portugal, Espanha e Itália estão devendo. O artigo ainda conta a história da Roundtable on Sustainable Palm Oil e o avanço da pauta na Europa.

 

Criado o Conselho Militar Internacional para Clima e Segurança

Ontem, em Haia, Holanda, foi lançado o Conselho Militar Internacional para Clima e Segurança, (IMCCS, a sigla em inglês). O IMCCS nasce com o duplo propósito de incentivar as comunicações e as políticas para lidar com as implicações sobre a segurança advindas das mudanças climáticas e produzir anualmente um Relatório sobre Segurança e o Clima Mundial. O Conselho será formado por militares de alta patente da reserva e foi criado a partir de organizações que trabalham sobre o tema clima e segurança dos EUA, Reino Unido, Holanda e França. Inicialmente, o Center for Climate and Security (CCS) centralizará o secretariado. O general Tom Middendorp, Presidente do IMCCS, entende que “as mudanças climáticas são combustível para as causas de conflitos em todo o mundo e constituem uma ameaça direta para as populações e as instalações nas zonas costeiras e nas pequenas ilhas. Portanto, ela deve ser encarada seriamente como uma questão de segurança importante que precisa ser enfrentada. Os militares podem e devem fazer parte da solução ao enfrentar as mudanças climáticas. O IMCCS pode ajudar a criar sinergias dentro da comunidade militar internacional por meio do intercâmbio de boas práticas, da coordenação de esforços e da cooperação em novas iniciativas.” A Veja comentou a criação do IMCCS.

 

Cinco estratégias para petroleiras que queiram sobreviver

A consultoria Wood Mackenzie apontou cinco estratégias para as grandes petroleiras sobreviverem à transição energética e ao fim dos combustíveis fósseis.

  1. Investir seletivamente e somente em alta qualidade. Ir desinvestindo em ativos menos atraentes. Levantar proteções para o caso de vir a ser a “último sobrevivente” (em inglês, last man standing).
  2. Aproveitar o mercado de alternativas de uso do petróleo como as petroquímicas e os combustíveis para a aviação.
  3. Investir em biocombustíveis para aproveitar a malha logística.
  4. Securitizar os fluxos financeiros.
  5. Investir em tecnologia, desde inteligência artificial ao big data.

Bem, nos parece que usar o petróleo para a produção de plásticos deixou de ser opção, a menos que as petroquímicas se responsabilizem pelo seu recolhimento e destinação ecologicamente corretos. Aqui no Brasil, investir em biocombustíveis parece razoável, mas, no resto do mundo, é preciso tomar muito cuidado com a segurança alimentar. As outras “estratégias” são, de fato, para “o último sobrevivente”.

 

Economia do clima para iniciantes

Brayden Gerrard escreveu um artigo explicando os conceitos básicos e o funcionamento dos modelos usados na área da economia do clima. A peça-chave é o custo social do carbono, que estima os custos e os benefícios advindos de diferentes cenários climáticos. Gerrard pega três dos principais modelos usados atualmente e explica as principais diferenças nas suas premissas e abordagens. Em suma, ele diz que um custo social do carbono entre 20 e 200 US$/tCO2 é razoável e muito provável. A parte final do artigo é dedicada a mostrar quais países adotaram algum tipo de precificação de carbono e se estes estão, ou não, na faixa razoável.

 

Desmatamento global compromete as metas de Paris

Artigo recém publicado na Nature Climate Change avalia que as metas do Acordo de Paris podem não ser alcançadas por conta do desmatamento e do não cumprimento de compromissos ligados ao uso da terra. O artigo cita o aumento de 29% no desmatamento no Brasil, entre 2015 e 2016, e o impacto sobre as florestas da expansão da exploração de óleo de palma na Indonésia e no Peru. Um dos autores, Peter Alexander, da Universidade de Edimburgo, diz que “os compromissos (assumidos pelos países) nunca foram suficientes, o que é ruim em si, mas, de modo geral, eles não eram realistas, dado o (pouco) suporte político que tiveram.” A CNN comentou o trabalho.

 

Glifosato aumenta risco de câncer

No ano passado, um tribunal norte-americano condenou a então Monsanto, agora Bayer, a pagar quase US$ 300 milhões a um jardineiro com câncer terminal provocado, segundo ele, pelo herbicida mais vendido, o Roundup. Agora, acaba de sair uma pesquisa mostrando que o glifosato, a molécula-chave do Roundup, aumenta em quase 50% o risco de determinados tipos de cânceres.

Aqui no Brasil, aplicam-se quase 200 mil toneladas por ano do produto nas lavouras, principalmente nas de soja e milho.

 

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