ClimaInfo, 21 de março de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

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O que a ciência do clima tem a dizer para o Brasil?

Quatro importantes cientistas climáticos do Inpe produziram um documento técnico sobre questões climáticas globais com o objetivo de esclarecer que as evidências físicas são robustas e suficientes para que se atribua à influência humana a mudança do clima e, também, explicar como a ciência determina as causas das mudanças observadas no planeta. O documento foi motivado pela carta aberta enviada por negacionistas da ciência climática ao ministro do meio ambiente no começo deste mês.

Os autores descrevem o estado das pesquisas climáticas, apresentando fatos e referências que mostram que o aquecimento global acontece, que altera o clima do planeta e que a contribuição da civilização humana é incontestável. Em uma frase simples: “A negação da contribuição antrópica para o aquecimento global contradiz os resultados em milhares de estudos publicados em todo o mundo por cientistas de diferentes nacionalidades e trabalhando em diferentes instituições, com contribuições importantes de pesquisadores brasileiros.” Para os autores, o estágio da discussão não é mais sobre as mudanças climáticas serem ou não causadas pelos humanos, o clima está mudando e seus impactos atuais e futuros afetam e continuarão afetando diretamente a humanidade, até mesmo as exportações brasileiras.

Em tempo: uma das autoras, Thelma Krug, além de pesquisadora titular do INPE é vice-presidente do IPCC.

 

Dá para expandir a produção agrícola no Brasil sem derrubar árvores

O pessoal do Observatório do Clima (OC) cansou de ouvir muita gente, e gente importante, repetir ad nauseam que o agronegócio precisa se expandir e que é preciso relaxar a proteção dos ecossistemas, pois o país teria área protegida em demasia. Partindo da simples constatação de que as propriedades privadas rurais ocupam 245 milhões de hectares e as áreas protegidas somam 216 milhões, o OC produziu um vídeo simpático e didático mostrando que “o Brasil tem espaço de sobra para proteger o clima, conservar sua diversidade e comunidades, e ainda se tornar o maior produtor de alimentos, fibras e bioenergia do mundo. Basta ampliarmos as técnicas de produtividade em todo país para expandir a atual produção de alimentos sem nenhum desmatamento. Para isso, precisamos apenas usar nosso território com inteligência.”

Não se sabe se a Ministra Tereza Cristina viu o vídeo. Em todo caso, na viagem aos EUA com Bolsonaro, ela disse em alto em bom som no Brazil Day que a agricultura brasileira tem capacidade para aumentar em 30% a produção de alimentos “sem destruir sequer uma árvore em todo o nosso território”.

Confessamos ser normalmente difícil concordar com a Ministra, mas desta vez temos que dar o braço a torcer. Ficaremos na torcida para que seus atos de governo espelhem sua declaração.

Em tempo: como já devem ter percebido, só nos referimos a Ministros, com ‘M” maiúsculo, nas vezes em que o comportamento destes for condizente ao cargo que ocupam.

 

Governo prepara decreto transferindo demarcação de terras indígenas para o INCRA, agora na pasta da agricultura

O governo pretende mudar por decreto o processo de demarcação de terras indígenas que foi transferido por Medida Provisória desde o Ministério da Justiça para o Ministério da Agricultura. O decreto está sendo costurado pelas pastas da Agricultura, Casa Civil e Gabinete de Segurança Institucional (GSI), com a participação da Advocacia Geral da União (AGU). A ideia é transferir os processos da Funai para o INCRA, órgão que agora está no Ministério da Agricultura. A ministra Tereza Cristina diz que o Incra deve abrir licitações para terceirizar a contratação de equipes de antropólogos e dos outros profissionais necessários à realização dos estudos de identificação e delimitação das terras reivindicadas pelos povos indígenas: “O que não vai ter mais são antropólogos, como tinha lá atrás, em que você pinçava: quero que seja o antropólogo A, B, C ou D”. A costura do decreto está em andamento apesar da transferência da competência entre ministérios ter sido considerada inconstitucional pelo MPF e estar sendo questionada pelo PSB no STF.

 

O desmantelamento da legislação ambiental brasileira

Os pesquisadores Denis Abessa e Lucas Buruaem, da UNESP, e Ana Famá, da USP, publicaram um comentário na Nature Ecology & Evolution dizendo que o novo governo, pelas ações já tomadas e pelas constantes e repetidas promessas, sinaliza um desmonte sistemático do arcabouço legal que rege a gestão do meio ambiente. O título do comentário é “O desmonte sistemático das leis ambientais brasileiras traz o risco de perdas em todas as frentes”. Depois de listar as perdas que podem advir das estranhas cabeças deste governo, tanto para o meio ambiente quanto para os povos tradicionais, os pesquisadores dão um tom positivo dizendo que “as políticas ambientais no Brasil devem ser baseadas na mais sólida ciência e não em orientações ideológicas ou políticas. Nesse sentido, a comunidade científica nacional está pronta para colaborar para o desenvolvimento do país e para o estabelecimento de políticas ambientais efetivas.” Fábio de Castro escreveu sobre o comentário no Direto da Ciência.

 

Mais injustiça climática na tragédia do Ciclone Idai

A perdas humanas e econômicas provocadas pelo Ciclone Idai, que arrasou partes de Moçambique, Zimbabwe e Malawi, continuam aumentando. Os relatos das equipes de salvamento são tocantes pela repetida constatação quanto à impossibilidade de resgatar sobreviventes agarrados em árvores e em telhados completamente cercados pela água que ainda não começou a baixar. Eric Holthaus escreveu no Grist que o Idai atingiu três dos países mais pobres do mundo. Os três vinham sofrendo com seis anos de seca que, além de aumentar em muito a miséria da população, endureceu a terra tornando-a menos permeável, o que multiplicou a força das correntezas e enchentes provocadas pelo Idai. Holthaus escreve que “o ciclone Idai não é um desastre natural; a tempestade se tornou pior por causa da mudança do clima, séculos de colonialismo e pelas continuadas injustiças internacionais”. Ele admite que “é difícil para nós, que vivemos em países mais ricos, imaginar um desastre como esse (…) O Ciclone Idai é uma crise humanitária que, mais uma vez, escancara a injustiça fundamental da mudança climática”. Eric faz uma advertência que muita gente no Brasil deveria ouvir: “O ciclone Idai deveria ser um aviso sóbrio de que, em muitas partes do mundo, as pessoas não podem mais se dar ao luxo de ignorar a mudança do clima. A destruição já chegou lá.”

 

Acabar com a mudança climática requer o fim do capitalismo. Teremos estômago para isso?

Comentando a greve estudantil de 6a feira e as motivações radicais dos jovens envolvidos, o articulista do The Guardian, Phil McDuff, disse que “acabar com a mudança climática requer o fim do capitalismo (…) Ajustes nas políticas não o farão, precisamos atirar o sistema pela janela e repensar totalmente a nossa relação com a propriedade, o trabalho e o capital”. McDuff acrescenta: “Fingir que podemos contornar a questão enquanto esperamos por uma bala de prata tecnológica que possa manter as temperaturas baixas sem que isto nos custe nada é algo que vai além da ignorância voluntária. É uma questão básica de moral”.

Apesar de propor o fim do capitalismo, as ideias de McDuff dificilmente podem ser enquadradas como “de esquerda”. Seu ponto de partida é outro, não passa por conflitos de classe ou pela propriedade dos meios de produção, mas pela constatação da superexploração dos recursos em um sistema finito como o do nosso planeta.

Em tempo: o professor Goldemberg escreveu no Estadão contra a politização do aquecimento global. Ele diz que o fenômeno é de difícil explicação por não ser visível, pelos seus impactos não serem imediatos e pelos elevados custos de mitigação. O professor emérito diz que é preciso “um esforço redobrado dos cientistas para evitar que o tema do aquecimento global seja novamente ‘politizado’ e deixar muito claro que não é sensato adiar as medidas que poderão resolvê-lo.”

 

Bancos destinam trilhões para petróleo, gás e carvão

Estão ficando comuns declarações de compromisso das altas finanças e do mundo bancário com o enfrentamento das mudanças climáticas. No entanto, um estudo liderado pela Bank Track mostrou que, desde 2016, os bancos alocaram financiamentos de quase US$ 2 trilhões para os negócios com combustíveis fósseis. O trabalho foi conduzido em conjunto com cinco outras organizações e os resultados foram endossados por mais de 160. Foram analisados os negócios dos maiores bancos mundiais, nomes como JPMorgan, Chase, Wells Fargo, Citi, Bank of America, Barclays, Mitsubishi e o RBC canadense. Alison Kirsch, da Rainforest Action Network, declarou que “o relatório é um alerta vermelho. A escala monumental na qual os bancos globais continuam a despejar bilhões de dólares em combustíveis fósseis é completamente incompatível com um futuro possível de se viver”. Adele Peters dá um exemplo que nos toca na Fast Company: “Se você tem conta no Chase, seu dinheiro pode ter ajudado a financiar a perfuração de petróleo na Floresta Amazônica”.

 

EUA: congressistas se comprometem a não receber doações de campanha de origem fóssil

Começa a crescer a adesão de políticos ao No Fossil Fuel Money Pledge (Compromisso contra dinheiro fóssil em campanhas políticas), no qual se comprometem a não aceitar doações de campanha das indústrias do petróleo, gás ou carvão. Nos EUA, as empresas podem fazer doações de campanha, dentro de certos limites. Políticos da ala mais à esquerda do Partido Democrata aderiram e os organizadores do Compromisso esperam que os demais candidatos à eleição presidencial do próximo ano também venham a assiná-lo. Artigo publicado na New Republic pergunta se isto não seria um tiro no pé, posto que os candidatos republicanos teriam uma carteira de campanha mais recheada. Sarah Bryner, do Centro de Política Responsável, explica que “geralmente a indústria dos combustíveis fósseis não desempenha um papel importante no lado democrata das eleições presidenciais.” Nas últimas eleições, tanto Hillary Clinton quanto Barak Obama receberam cerca de US$ 1 milhão cada um ao longa de cada uma das campanhas que disputaram. A campanha toda de Hillary arrecadou US$ 1 bilhão e a primeira de Obama ainda mais.

 

Glifosato, o agrotóxico mais vendido no Brasil, é condenado pela 2a vez por causar câncer

O júri de um tribunal de São Francisco decidiu que o glifosato, agrotóxico da ex-Monsanto, agora Bayer, foi responsável pelo câncer do tipo Linfoma de Non Hodgkin de um homem de 70 anos que trabalhou mais de 30 anos aspergindo o produto. O valor da ação ainda não foi divulgado. Esta é a segunda sentença de um tribunal norte-americano associando a aplicação do glifosato ao câncer. Uma matéria da CBC canadense levantou os esforços que a Monsanto fez para evitar estes processos e encobrir os efeitos do produto. No ano passado, a Bayer comprou a Monsanto e, ontem, suas ações despencaram. O Blog do Pedlowski lembra que, “enquanto no Brasil o herbicida Glifosato teve renovada a autorização para comercialização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária por meio da Nota Técnica 23/2018, e a sua fabricante, a multinacional Bayer, continua fazendo rios de dinheiro com a venda do produto, nos EUA as coisas estão caminhando num sentido completamente oposto.”

 

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