Tragédia climática no RS: Lagoa dos Patos sobe e volta a inundar sul gaúcho

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Gustavo Vara/Prefeitura de Pelotas

Em Pelotas, Canal São Gonçalo atinge 3 metros, superando pela 2ª vez em menos de uma semana, a cota máxima da enchente histórica de 1941.

Após alguns dias de tempo aberto, mas com temperaturas extremamente baixas, os atingidos pela catástrofe climática no Rio Grande do Sul voltam a viver momentos de apreensão. A previsão é a de que chuvas fortes voltem a atingir o estado neste fim de semana. E, se em Porto Alegre o nível do lago Guaíba ficou abaixo dos 5 metros pela 1ª vez desde o início da semana, trazendo algum alívio, no sul do estado as cidades voltaram a ser inundadas pela Lagoa dos Patos, que voltou a subir e registrar recordes.

A enchente piorou muito nas últimas horas no sul gaúcho, atingindo marcas jamais registradas, destaca o Metsul, com a elevação acentuada da Lagoa dos Patos, que recebeu um volume extraordinário de água dos rios do Centro e da Metade Norte do estado, além do rio Camaquã. O Canal São Gonçalo, em Pelotas, atingiu 3 metros no começo da manhã de 5ª feira (16/5). Já na noite anterior o canal superou a cota máxima da enchente de 1941, de 2,88 m, que já havia sido igualada no domingo.

Quatro bairros em Pelotas receberam alerta para retirada emergencial de moradores. O município tinha 673 pessoas em abrigos. São Lourenço do Sul registrou 2,87 m na lagoa às 9h de ontem. O município de 21 mil habitantes tem 171 desabrigados e dois pontos de acolhimento municipais lotados. E em Rio Grande, 30 bairros foram classificados como “em área de risco” pela prefeitura. No município, com 615 desabrigados, as águas da lagoa estavam 76 centímetros acima do nível do cais às 10h, detalha o UOL. A travessia de balsa entre Rio Grande e São José do Norte, município também submerso pela elevação da Lagoa dos Patos, foi interrompida por tempo indeterminado, informa o MetSul.

Em Porto Alegre, o nível do lago Guaíba estava a 4,98 m na manhã de ontem, relata a CNN. Especialistas da UFRGS preveem que o Guaíba deve se manter acima de 4 metros até o dia 21 de maio, mas o nível elevado da água pode ser prolongado, a depender do volume das próximas chuvas. Contudo, o lago deve ficar acima da cota de inundação, de 3 m até pelo menos o fim do mês.

O MetSul chama atenção para como as enchentes de grandes proporções e magnitudes sem precedentes mudaram o mapa do RS, com rios muito fora da calha e grandes áreas sob inundação. No sul do estado e na bacia do Jacuí a transformação do mapa é maior. Nas imagens de satélite de alta resolução da NASA da tarde de 4ª feira (15/5), as lagoas Mirim e dos Patos pareceriam unidas como uma só, o que efetivamente ocorreu.

Até o início da manhã de ontem, a Defesa Civil gaúcha registrava 151 pessoas mortas, em 44 cidades gaúchas, relatam Folha, Agência Brasil e g1. Havia ainda 104 desaparecidos e 806 feridos. No total, 458 dos 497 municípios do estado foram afetados, com 77.199 desabrigados e 538.164 desalojados.

Os dramas das pessoas também se ampliam. Dona Lúcia Muria, de 72 anos, uma das anciãs do Quilombo dos Machado, na zona norte de Porto Alegre, contou à Agência Pública que já viveu outras enchentes, mas que nunca viu a água chegar ao nível atual. A Vila Respeito, onde está grande parte das 265 famílias do Quilombo, foi fortemente atingida.

A Reuters destaca o desespero nos olhos de Nilton Muradaz Junior quando ele olha para o vasto lago que já foi sua fazenda e casa, mas agora exibe poucos sinais dos animais, equipamentos e estruturas que ele perdeu nas enchentes. “É de partir o coração que o sonho e a vida que criamos aqui sejam tirados desta forma. Não tenho nem palavras. As pessoas precisam tomar consciência das mudanças climáticas o mais rápido possível para que ainda tenhamos uma chance de evitar que isso aconteça novamente de forma ainda mais grave”, disse.

E a perda de vidas já causadas pela tragédia climática pode ser apenas a “ponta do iceberg” da catástrofe em termos de impacto à saúde, avalia na BBC o pesquisador da Fiocruz, Carlos Machado. Estudos feitos por Machado e outros pesquisadores após enchentes mostram a elevação de variadas doenças horas, dias, meses e até anos após o evento climático extremo.

Nas primeiras horas e dias após uma enchente, os óbitos e internações costumam vir das operações de resgate e socorro e consistem principalmente de traumas agudos. Após algumas semanas e meses, doenças transmissíveis começam a ser diagnosticadas com mais frequência.

“Estamos falando das doenças mais tradicionais, como leptospirose, doenças diarreicas e hepatite, mas também daquelas relacionadas ao fato de muitas pessoas serem obrigadas a viver em abrigos após um evento como esse”, explicou.

 

 

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ClimaInfo, 17 de maio de 2024.

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