Tragédia no RS: maioria das estações que enviam dados de chuva em tempo real não funciona

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Giulian Serafim/PMPA

Apenas 46 das 94 estações de medição de chuva do governo gaúcho estão transmitindo dados em tempo real, o que compromete prevenção de novos desastres.

A maior parte das estações de medição de chuvas no leste do Rio Grande do Sul, área mais afetada pelo desastre climático deste mês, simplesmente não está funcionando corretamente. De acordo com a Agência Pública, o governo gaúcho conta com 94 estações nessa região do estado, mas apenas 60 estão disponíveis no portal da Agência Nacional de Águas (ANA) e, destas, 48 não estão transmitindo os dados como deveriam fazer.

Os dados de chuva em tempo real são importantes ferramentas para avaliar a intensidade da precipitação e facilitar a notificação da população sobre riscos de inundação. No entanto, a falta de manutenção dos equipamentos pela gestão do governador Eduardo Leite (PSDB) prejudicou esse acompanhamento, dificultando assim eventuais medidas de prevenção.

“Perdemos informações importantes para os municípios pequenos e [ficamos com poucos dados] para dimensionar corretamente a chuva e a vazão, e isso afeta a tomada de decisão”, explicou o professor Fernando Meirelles, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do RS (UFRGS) e ex-diretor do Departamento de Recursos Hídricos da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA).

Na bacia hidrográfica do Guaíba, apenas oito das 27 estações estão enviando informações ao sistema da ANA. Na laguna dos Patos, onde existiam 18 estações, somente duas estão transmitindo dados. Já na lagoa Mirim, das 15 estações existentes, só duas operam devidamente.

O trabalho de manutenção vem sendo diminuído nos últimos anos, até ser efetivamente interrompido no ano passado. “Apenas duas pessoas estavam trabalhando para os equipamentos funcionarem. Como um técnico está de licença-saúde desde novembro passado e o outro não tem condições de fazer esse trabalho sozinho, o colega está no momento atuando nos atendimentos de emergência”, disse Pablo Pereira, presidente da Associação dos Servidores da SEMA.

Além da falta de manutenção, o governo gaúcho vem sendo questionado pelas mudanças promovidas nas políticas ambientais estaduais. Na semana passada, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu dez dias para que as autoridades gaúchas encaminhassem informações sobre uma dessas alterações, a que flexibilizou as regras sobre o uso de Áreas de Preservação Permanente (APP) para a construção de barragens.

Ao Valor, a secretária de meio ambiente do RS, Marjorie Kauffmann, afirmou que a lei em questão foi proposta pela Assembleia Legislativa como uma medida para ampliar os estoques de água depois do estado sofrer sucessivas estiagens que comprometeram a produção agrícola. Especialistas contestam essa colocação e apontam que a medida contribuiu para ampliar o impacto das chuvas históricas do começo do mês.

Em tempo: A ministra Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima) se reuniu nesta 3ª feira (28/5) com o presidente Lula para discutir o plano de prevenção de desastres climáticos. A crise no RS intensificou os esforços do governo federal para apresentar uma proposta integrada aos planos de adaptação climática. “O plano é uma tentativa de fazer um deslocamento da necessária abordagem de gestão do desastre para a gestão do risco. [Ele] tem a característica de preparação e adaptação. Não é um plano de curto prazo, é de médio e longo prazos”, afirmou Marina a’O Globo.

 

 

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ClimaInfo, 29 de maio de 2024.

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