Brasil não avança no mapa do caminho para fim dos combustíveis fósseis

Nem mesmo a urgência da transição energética escancarada pela guerra no Irã destravou as diretrizes do roteiro nacional, atrasadas há dois meses.
7 de abril de 2026
mapa do caminho atrasado
Ricardo Stuckert/PR

O Brasil anunciou subsídios e linhas de crédito para conter os preços altos do óleo diesel, do querosene de aviação (QAV) e do gás de cozinha (GLP), a fim de minimizar os impactos do choque do petróleo provocado pela guerra no Oriente Médio. No entanto, o mapa do caminho nacional para substituir os combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia – que se tornou ainda mais urgente com a guerra no Irã – continua no limbo.

O prazo dado pelo despacho presidencial de dezembro de 2025 para que quatro ministérios – Meio Ambiente (MMA), Minas e Energia (MME), Fazenda (MF) e Casa Civil – elaborassem diretrizes para a construção do roteiro nacional terminou em 6 de fevereiro. Dois meses depois, nada aconteceu. E nem as pastas, nem a Presidência da República, dão sinal de que as orientações serão disponibilizadas em breve.

O Observatório do Clima (OC) destaca que o atraso no mapa do caminho nacional expõe padrões duplos do Brasil. Afinal, o país, na presidência da COP30, está elaborando a proposta de roteiro para a transição energética global. Mas não dá o exemplo em casa.

“Enquanto os ministros Fernando Haddad [Fazenda] e Marina Silva [Meio Ambiente] defendiam um processo próprio para o mapa do caminho nacional, o ministro Alexandre Silveira, de Minas e Energia, quer diluir o roteiro dentro de propostas já existentes do planejamento energético brasileiro. Isso significaria, na prática, não ter um mapa do caminho, já que o planejamento energético brasileiro prevê ampliação dos investimentos em [combustíveis] fósseis”, explica o OC.

Um consultor veterano em negociações climáticas, com atuação nos âmbitos nacional e internacional, que preferiu não se identificar, disse à Exame que, sem diretrizes definidas em consenso entre os ministérios, nada avança. Assim, uma fase considerada fundamental para o mapa do caminho nacional – a participação de pesquisadores, cientistas, organizações da sociedade civil e empresas na construção do roteiro – permanece travada.

Por isso, o Observatório do Clima ressalta que, com a saída de Haddad e Marina para concorrer nas eleições, a tendência é que Silveira, que permanece ministro, prevaleça e que o mapa do caminho doméstico seja desfigurado ou enterrado. A oito meses do fim de seu mandato, o presidente Lula ainda pode arbitrar o impasse em favor de uma proposta que traga firmes diretrizes. Mas cada semana sem decisão é mais uma semana em que o Brasil ocupa, no debate climático global, o papel de “faça o que eu digo, mas não o que eu [não] faço”.

Isso prejudica a imagem de Lula, que empenhou o único ativo internacional de que o Brasil dispõe – a confiança -, e atrapalha a construção do mapa do caminho global pela presidência da COP30”, avalia o OC.

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