O Preço da (nossa conta de) Energia Elétrica

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Energia elétrica e Custo Brasil

Roberto Kishinami *

Se durante a pandemia as contas de energia elétrica são algo para literalmente ficar para mais adiante, no esforço de recuperação da economia que se seguirá elas serão prementes e fundamentais. Energia é insumo indispensável em qualquer economia. Porém no nosso caso, pode também ser parte da nefasta conta do chamado Custo Brasil.

A análise de como os principais fatores que compõem o custo da conta que recebemos mensalmente têm se comportado frente à inflação, medida pelo IPCA (índice de preços ao consumidor amplo, do IBGE), mostra tendências distintas. A maior parte das perdas na rede são furtos e desvios (os famosos “gatos”), pagos por todos que não furtam ou desviam. Estes são ascendentes. Porém, os custos das concessionárias para a manutenção dos postes, fios, transformadores e demais itens de infraestrutura, assim como os custos da transmissão em si, têm subido abaixo da inflação.

Ocorre que o custo da energia que as concessionárias compram sobe acima da inflação. Esse é o componente da tarifa de energia elétrica que tem provocado esse aumento. Os preços das tecnologias ou fontes de energia nos leilões realizados desde 2004 até o final do ano de 2019 mostram que há duas tecnologias que estão ficando mais caras: as grandes hidroelétricas e as térmicas, tanto a gás natural como a biomassa. Do lado das que estão ficando mais baratas, dá para ver que o preço das pequenas centrais hidroelétricas, que têm até 50MW instalados, caem bem lentamente. As eólicas e solares fotovoltaicas, por sua vez, são as que reduziram bem rapidamente seus preços, chegando a cerca de R$80/MWh no final de 2019.

Só que um leilão de energia trata-se de comprar a preços de hoje a energia que será consumida nos próximos 7, 20, 30 e até 35 anos. Ou seja, o resultado dos leilões realizados até o final de 2019 vai impactar os preços da energia pelas próximas décadas. Essa engenharia financeira de longo prazo prevê ainda a atualização de preços dessa energia pela inflação (IPCA), conforme cláusula dos contratos resultantes dos leilões. Trata-se, na prática, de um mecanismo inflacionário que retroalimenta a subida dos preços, fazendo com que a trajetória dos preços da energia elétrica seja sempre ascendente.

Embora ao comprar nossa energia em leilões organizados pela ANEEL as concessionárias combinem diferentes fontes, formando uma “carteira” com o objetivo de aproveitar suas complementaridades e formar um preço “médio”, as grandes hidroelétricas ainda são a principal fonte de eletricidade no Brasil (71% da eletricidade produzida em 2019). Para reduzir o preço dessa energia, portanto, será preciso aumentar a participação das fontes mais baratas no “mix” de energia. As fontes mais caras – grandes hidroelétricas e térmicas – têm de ceder espaço para as eólicas e solar fotovoltaica.

A energia que vamos consumir na próxima década está em boa parte contratada, mas o mesmo não ocorre para os anos posteriores a 2030. Isso significa que há oportunidade para se reduzir os custos a partir dessa data, desde que os acréscimos nos próximos leilões sejam das fontes mais baratas: eólicas e solares fotovoltaicas.

Em resumo, a gestão futura do preço da energia deveria passar a seguir duas regras simples. Primeira: não se comprar mais o que é caro. Segunda: acrescentar, na margem, o que está cada vez mais barato. Manter-se na margem não significa minimizar ou desprezar, mas acrescentar na medida que o consumo cresce. E só contratar o tanto que o consumo vai realmente crescer. Em energia, as sobras são cobradas da mesma forma que o “prato completo”. Além disso, usar com inteligência o que já está contratado. Sem desperdício.

São regras simples, mas que sempre funcionaram.

(*) Roberto Kishinami é Coordenador do portfólio de Energia do Instituto Clima e Sociedade – iCS

 

ClimaInfo, 16 de junho de 2020.

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