Vazamento de petróleo na foz do Amazonas contaminaria Amapá e países vizinhos

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Reprodução/via Brasil247

Cinco das sete boias de deriva lançadas na área próxima ao bloco FZA-M-59, onde a Petrobras quer buscar petróleo, alcançaram Guiana Francesa, Suriname e Guiana.

Em março, pesquisadores do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), a bordo do veleiro Witness, do Greenpeace Brasil, levantaram dados na região da foz do Amazonas onde está o FZA-M-59. Nesse bloco, a cerca de 160 km de Oiapoque, no litoral amapaense, a Petrobras quer perfurar um poço para explorar combustíveis fósseis. Pelo alto risco da perfuração e o baixo conhecimento sobre os impactos socioambientais da atividade petrolífera na foz, o IBAMA negou a licença.

A petroleira pediu reconsideração da decisão e agora, sob o comando de Magda Chambriard, volta a pressionar pela autorização do órgão. Magda chegou a defender a interferência do presidente Lula para liberar a licença, tentando tornar política uma decisão que tem de ser eminentemente técnica.

O principal objetivo do estudo do IEPA e do Greenpeace Brasil era mapear as correntes marítimas da região. E embora a pesquisa ainda esteja sendo concluída, constatou o que a própria Petrobras tinha indicado nos estudos para o licenciamento do poço no FZA-M-59: um eventual vazamento de petróleo pode contaminar centenas de quilômetros mar afora e atingir as costas da Guiana Francesa, do Suriname e até da Guiana, detalha Mônica Bergamo na Folha, em matéria repercutida pelo Brasil 247.

Para analisar o impacto de um eventual derramamento, os pesquisadores lançaram ao mar sete derivadores, ou boias de deriva. Os equipamentos oceanográficos transmitem sua geolocalização em tempo real e captam informações do ambiente. Assim, foi possível simular os caminhos de um possível vazamento de óleo na bacia da foz do Amazonas.

Resultado: 5 dos 7 derivadores atravessaram águas internacionais, alcançando os países vizinhos. Um chegou a percorrer mais de 1.500 km, segundo o estudo.

“A foz do Amazonas tem correntes marítimas e costeiras muito fortes, com dinâmicas pouco conhecidas e um grande carregamento de água do rio para os oceanos. Um vazamento de óleo causaria uma grande dispersão difícil de ser contida. Os resultados reafirmam alertas anteriores feitos por diversos especialistas sobre os potenciais impactos da exploração petrolífera à vida marinha e em populações costeiras na região”, afirma o coordenador da frente de Oceanos do Greenpeace Brasil, Marcelo Laterman.

Vale lembrar que dos 95 poços já perfurados na foz do Amazonas, 31 foram abandonados por dificuldades operacionais. Na última tentativa, em 2011, a Petrobras suspendeu a perfuração devido às fortes correntezas. E todos os poços que foram perfurados com sucesso resultaram seco [sem combustíveis fósseis] ou com quantidade subcomercial, o que não justificava o investimento.

Mas, se a pressão da ala pró-combustíveis fósseis do governo pela exploração de combustíveis fósseis na foz do Amazonas aumentou, cresceu na mesma medida a resistência de cientistas e de organizações da sociedade civil à ideia, sobretudo após a tragédia no RS, comprovadamente causada pelas mudanças climáticas. Por isso, na avaliação do coordenador-geral de mudanças do clima do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Thiago Longo, nenhuma autorização para perfurar poços de petróleo na foz ou em outras bacias mais sensíveis da chamada margem equatorial deve ser dada até a COP30, em novembro de 2025, informam Estadão, UOL, IstoÉ e IstoÉ Dinheiro.

O adiamento é um início. Mas não resolve a necessidade global de eliminação gradual dos combustíveis fósseis. Nem dá ao Brasil o papel de líder mundial tão almejado por Lula na agenda climática e ambiental.

Em tempo 1: A venda de ações da Saudi Aramco, a maior petroleira do mundo em reservas de combustíveis fósseis, foi concluída em poucas horas. Investidores árabes e de outros países compraram os papéis, que renderam US$ 12 bilhões à estatal saudita, informa O Globo. A oferta equivale a 0,6% do capital da Saudi Aramco.

Em tempo 2: Além de petróleo e gás fóssil, as petroleiras estadunidenses estão apostando alto nos recursos não convencionais [xisto], que utilizam a impactante técnica de fraturamento hidráulico (fracking), segundo a Folha. Desde julho do ano passado, Exxon, Chevron e Occidental Petroleum anunciaram negócios no valor de US$ 194 bilhões em todo o setor de xisto dos EUA, mostra a consultoria Rystad Energy. É quase o triplo do montante no período anterior de 12 meses. O mais recente acordo ocorreu na semana passada, quando a ConocoPhillips comprou a Marathon Oil por US$ 22,5 bilhões.

 

 

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ClimaInfo, 4 de junho de 2024.

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