
A apreensão de 15 kg de ouro no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, em novembro de 2025, motivou uma investigação da Receita Federal sobre empresários do setor de mineração. A carga, avaliada em R$ 8,1 milhões, pertencia à Coluna DTVM e tinha fortes inconsistências na documentação. O ouro apreendido tinha como destino a companhia MD Overseas DMCC, com sede em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Segundo a Repórter Brasil, cerca de 8 kg do metal foram comprados pela Coluna de um grupo de 18 garimpeiros de Peixoto de Azevedo, município no norte do Mato Grosso. Os garimpeiros atuavam como uma cooperativa por meio de uma Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) – autorização simplificada da Agência Nacional de Mineração (ANM) destinada à mineração em pequena escala. A autorização possui critérios socioambientais menos exigentes do que a Concessão de Lavra prevista no Código de Mineração, necessária para a atividade em larga escala.
No entanto, para a Receita Federal, “a análise individualizada e o cruzamento dos dados de cada vendedor evidenciaram que não se tratam de pessoas cooperativadas ou garimpeiros, mas, sim, de verdadeiros empresários mineradores que operam em escala industrial na extração de ouro”. Eles teriam utilizado a PLG apenas para emissão de notas fiscais “com o objetivo de ‘esquentar’ a origem de ouro extraído de áreas não identificadas”, afirma termo da fiscalização do órgão.
Entre os empresários envolvidos no esquema estão os irmãos Ray Robson Manica e Fabio Raul Manica, sócios do Grupo Manica Gold, sediado em Peixoto de Azevedo. Um relatório do Serviço de Gestão de Riscos Aduaneiros da Alfândega do Aeroporto de Guarulhos aponta que, somente em 2024, os dois teriam vendido cerca de R$ 41 milhões em ouro a clientes diversos.
Fabio Raul Manica teria registrado em notas fiscais gastos de R$ 4,86 milhões em 2024 e 2025, incluindo a compra de 876 mil litros de diesel. Um valor considerado “absolutamente incompatível com uma atividade de garimpagem artesanal ou associativa”, segundo a Receita Federal.
Em outro caso, Claudio André Loésia, um dos diretores da Cooperativa dos Garimpeiros do Vale do Rio Peixoto (Coogavepe) e sócio da Gold Mine, teria vendido para a Coluna cerca de R$ 10 milhões em ouro. O valor “equivale a cerca de 14 kg, quantidade tecnicamente improvável de ser extraída por uma única Pessoa Física, dada a necessidade de processamento de toneladas de rochas ou rejeitos fluviais para obtenção desse montante”, avaliou o órgão.
Um relatório produzido pelo Greenpeace mostrou como garimpeiros estão se adaptando para não serem pegos pela fiscalização do IBAMA. A ONG analisou 187 áreas florestais com licenças de mineração de ouro emitidas pela ANM próximas a Terras Indígenas (TIs) e Áreas Protegidas na Amazônia e constatou que 98 delas não apresentavam indícios de atividade mineradora, informam O Globo, InfoMoney e REPAM.
A poucos quilômetros dos Territórios Indígenas, as minas autorizadas comercializam uma quantidade completamente desproporcional de ouro. O peso do material declarado na nota de venda chega a ser dez vezes maior do que a produção seria capaz de suprir. A suspeita, então, é que parte do ouro venha de garimpo dentro das TIs.
Somente no ano passado, a Polícia Federal apreendeu um recorde de 447 kg de ouro extraído ilegalmente.
Em tempo: O IBAMA apontou “indícios de ilícito ambiental” em uma área de mineração vizinha ao território dos Waimiri Atroari, no Amazonas. Indígenas afirmam terem encontrado animais mortos, como botos e tartarugas, nos rios que cortam a TI entre abril e maio. A suspeita é que a maior produtora de estanho refinado do Brasil, a Mineração Taboca, teria poluído as águas com os rejeitos de suas operações. "As evidências visuais obtidas via sensoriamento remoto confirmam que a frente de lavra e a degradação ambiental associada avançam em direção ao limite imediato da TI Waimiri Atroari”, informa um documento enviado ao Ministério Público Federal no Amazonas. A Repórter Brasil dá mais detalhes.



