
“Não é tragédia, é omissão de planejamento”. O título da análise do Observatório do Clima após chuvas extremas na Zona da Mata mineira matarem 73 pessoas e deixarem cerca de 13.000 desabrigados e desalojados sintetiza o que documentos técnicos, a ciência e as decisões orçamentárias revelam sobre a tragédia, destaca a Exame. Mesmo com eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos por causa das mudanças climáticas, a adaptação das cidades brasileiras ao “novo anormal” anda devagar, quase parando.
Exemplo desse descaso vem do governo de Minas Gerais, que reduziu em 96% as verbas destinadas à prevenção de impactos das chuvas entre 2023 a 2025. Em 2023, a gestão de Romeu Zema (NOVO) destinou R$ 134,8 milhões ao programa “Suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas”. Cifra que despencou para R$ 5,8 milhões, dos quais R$ 5,6 milhões foram aplicados para atenuar os danos das chuvas apenas em estradas. Nos dois primeiros meses de 2026, a gestão Zema gastou pouco mais de R$ 36 mil.
Zema tentou colocar a culpa da tragédia em uma suposta “excepcionalidade” das chuvas. De fato, os temporais que devastaram Juiz de Fora estão entre as piores chuvas da história da cidade, segundo medições feitas a partir de 1961, informa a Agência Pública. Mas tentar mostrar surpresa, como faz o governador mineiro, é um argumento para lá de furado.
“Dizer que essa chuva não estava prevista é um equívoco. Os relatórios do IPCC alertam há anos para a intensificação de eventos extremos, e Juiz de Fora convive há décadas com alagamentos”, afirma o geógrafo Adriano Liziero. “A culpa não é da chuva, é da falta de adaptação e de um modelo urbano que empurra os mais pobres para áreas de risco”, completa.
Além disso, a tragédia não ocorreu em um território desconhecido pelos mapas de risco, lembra ((o))eco. Em Minas Gerais, 218 municípios já tiveram áreas vulneráveis mapeadas pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), que identificou cerca de 3,5 mil áreas classificadas como de risco alto ou muito alto, onde vivem mais de 583 mil pessoas. Sem falar no mapeamento do CEMADEN que coloca Juiz de Fora como a 9ª cidade do país com mais pessoas vivendo em áreas de risco.
No fim de 2025, o governo Lula aprovou o Plano Nacional de Combate às Mudanças Climáticas, que contempla dois eixos: mitigação e adaptação. Mas é preciso colocá-lo em prática e fazer muito mais do que tem sido feito, destaca Miriam Leitão n’O Globo. “A adaptação precisa estar contemplada nas políticas públicas em todos os níveis administrativos, municipal, estadual e federal, para que novas tragédias não continuem se sucedendo”, reforça.
Após a tragédia, as cidades da Zona da Mata Mineira tentam retomar a normalidade. Em Juiz de Fora, onde morreram 65 pessoas, equipes iniciaram uma força-tarefa para limpar a cidade, relata o g1. Já em Ubá, com sete mortes confirmadas, continuavam as buscas pelo último desaparecido após as chuvas extremas, informa o g1. Trata-se de Luciano Franklin Fernandes, de 50 anos. Ele é namorado da mulher que resistiu três horas abraçada a um poste para não ser levada pela enxurrada.



