O que é o El Niño?

El Niño é o aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial central e oriental. Ele ocorre de forma cíclica, em geral a cada dois a sete anos, e dura entre nove e doze meses. 

Os ventos alísios que normalmente empurram água quente para o oeste enfraquecem, o calor acumulado escoa de volta para leste, e toda a circulação atmosférica global muda junto. Chuvas se deslocam, monções enfraquecem ou se intensificam, e o termômetro global sobe alguns décimos de grau; o suficiente para bater recordes de temperatura em anos de eventos fortes.

Super El Niño em 2026

O termo “Super El Niño” é utilizado para se referir a eventos em que a anomalia de temperatura na superfície do mar na região Niño 3.4 supera +2°C em relação à média histórica. Nos últimos 140 anos, aconteceram três eventos nessa faixa: 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Essa é a previsão que modelos apontam para 2026.

Até o momento, as chances de um Super El Niño são de 25%. O Professor de Ciências Atmosféricas e Ambientais da Universidade de Albany, Paul Roundy avaliou que havia um “potencial real” para o El Niño mais forte dos últimos 140 anos. 

Cientistas da Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) ressaltam, porém, que as previsões da primavera no Hemisfério Norte não são muito nítidas, devido às transições naturais que acontecem nesta época do ano. Além disso, especialistas salientam que as leituras tendem a ser mais distorcidas, devido à crescente concentração de gases do efeito estufa na atmosfera.

Impacto das mudanças climáticas 

O El Niño é um fenômeno natural e recorrente. A diferença agora é que a temperatura média do planeta está mais elevada e alterando os padrões climáticos. Com isso, seus efeitos tornam-se mais fortes. 

É como adicionar uma colher de açúcar a uma xícara de café adoçado e a uma xícara de café não adoçado. A colher pode ter o mesmo tamanho para ambas as xícaras, mas em uma delas o café já estava doce. 

Com o clima é a mesma coisa: o El Niño aquece o verão no hemisfério Norte, mas ele já estava mais quente por causa do aquecimento climático.

O impacto do aquecimento global sobre o El Niño foi comprovado pelos cientistas – já há estudo comprovando que, sozinho, este fenômeno meteorológico não conseguiria quebrar tantos recordes sucessivos de temperatura como o mês de julho registrou.

O que está acontecendo agora é como um “menu degustação” do que poderemos ter de agora até o final do século, se continuarmos emitindo a mesma quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera. 

As atividades humanas que mais geram esses gases são a queima de combustíveis fósseis, como petróleo e seus derivados (gasolina, diesel), carvão e gás, o desmatamento e queimadas e a pecuária.

Efeitos do El Niño no Brasil

Agricultura e Alimentos:

  • Seca no Norte e Nordeste do Brasil, com comprometimento de lavouras e reservas hídricas
  • Atraso de chuvas no Centro-Oeste pode prejudicar o plantio da soja e a segunda safra (safrinha) de milho (~75% da produção nacional)
  • Chuvas excessivas no Sul: risco de perdas na colheita por excesso de umidade
  • Pressão global sobre arroz, açúcar, cacau e óleos vegetais

Energia e reservatórios:

  • Reservatórios do Sudeste e Nordeste (os mais estratégicos) sob risco de não se recuperar adequadamente no segundo semestre
  • Maior acionamento de termelétricas (mais caras), pressionando tarifas
  • Risco de retorno de bandeiras tarifárias vermelhas na conta de luz
  • Subsídios do setor elétrico já projetados em R$ 47,8 bi em 2026 (+17,7% vs. 2025), podendo piorar

Inflação e economia:

  • Banco Central já elevou projeção de inflação para 3,9%; mercado projeta 4,36%
  • Dois canais diretos de pressão: alimentos e energia elétrica
  • Bancos como Daycoval revisaram projeções explicitamente citando o risco do El Niño

Eventos extremos e outros setores:

  • Sul do Brasil: risco elevado de enchentes e temporais na primavera
  • Ondas de calor longas e frequentes no interior do Brasil; padrão semelhante a 2023, possivelmente mais intenso

El Niño 2023-2024

Entre 2023 e 2024, o mundo registrou 13 meses consecutivos de temperaturas recordes. Tivemos o verão europeu mais quente da história e no Brasil não foi diferente: as ondas de calor se estenderam por todos os meses durante o ano todo. 

O El Niño de 2023-24 foi moderado no oceano, mas suficiente para tornar 2024 o ano mais quente da história. Os recordes de temperatura que o Super El Niño de 2015 estabeleceu foram batidos em 2024 com um El Niño mais fraco. O que acontece com um evento mais forte sobre essa mesma base aquecida é o que preocupa os climatologistas.

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