ClimaInfo, 18 de fevereiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Salles “explica” o inexplicável

Na semana passada, os ministros da agricultura, do meio-ambiente e o futuro ex-secretário de governo foram a uma terra indígena, posaram de cocar e, também, em cima de uma colheitadeira de soja. Tudo para justificar o discurso segundo a qual os índios querem progresso e modernidade. O problema, segundo a matéria da Folha, é que os ministros escolheram visitar uma área embargada pelo Ibama por conta de três ilícitos: “o cultivo de OGMs (Organismos Geneticamente Modificados) em área indígena, prática proibida pela Lei 11.460; o impedimento da regeneração da vegetação nativa; e o funcionamento de atividades utilizadoras de recursos naturais.” Os OGMs foram encontrados tanto nos hectares plantados pelos índios quando na parte por eles arrendada a não-índios. O ministério da agricultura, em verdadeiro contorcionismo, disse que estava tudo acordado, mas acabou desistindo do discurso depois que o Ministério Público avisou que não havia acordo algum e que o site do Ibama registrava a terra como embargada. Mesmo assim, Salles veio mais uma vez a público dizendo que “a plantação não é ilegal, tanto que ela foi feita durante 13 anos. Eles começaram a plantar desde 2005 e, de repente, apenas em 2017, é que os órgãos tanto de meio ambiente quanto de controle específicos do estado [do Mato Grosso] foram lá e tomaram posições que vão contra essa atividade indígena que já era feita há 13 anos.”

Nada a comentar, mas lembramos de Noel Rosa: “Meu Deus do céu, que palpite infeliz”.

Em tempo: neste final de semana começou a circular um abaixo assinado pedindo a demissão de Salles. Até o fechamento destas notas, haviam quase 300 mil assinaturas.

 

Pedindo a lei e a ordem que faltam na Amazônia

Na semana passada, dois artigos divertidos trataram da vigilância – determinada pelo general Augusto Heleno – dos movimentos da Igreja Católica na Amazônia para a organização do Sínodo Pan-Amazônico convocado para outubro pelo Papa Francisco.

Carlos Rittl, do Observatório do Clima, disse que “se fossem um pouquinho menos ideológicos e um pouquinho menos obcecados em encontrar perigosos comunas armando uma revolução atrás de cada moita, os militares entenderiam que ninguém precisa espionar os padres. Afinal, o que a Igreja e o Papa querem para a Amazônia é basicamente a mesma coisa que Bolsonaro prometeu instituir no país: lei e ordem. As agendas do quartel e da Santa Sé são bastante convergentes.” Ele coloca o dedo na real ferida Amazônica, causa de grande parte do desmatamento e das mortes na região: “O crime organizado está por trás de uma fatia significativa do desmatamento na floresta. Em 2018, 59% do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou em áreas públicas griladas. Há quadrilhas especializadas em roubo de madeira e quadrilhas especializadas em invadir terra pública, com ajuda da melhor tecnologia de sensoriamento remoto, pôr a floresta abaixo – usando trabalho escravo -, forjar títulos e vender a área para pecuaristas e agricultores que sempre poderão alegar que não sabiam de nada (…) As Forças Armadas conhecem o valor estratégico da Amazônia. Deveriam unir-se ao Papa e a toda a sociedade na busca de soluções para seu desenvolvimento sustentável”.

O artigo do jornalista Reinaldo Azevedo segue numa linha semelhante, ressaltando que a Amazônia brasileira é nossa, mas que o bioma todo é parte de outros oito países. Azevedo termina com sua habitual ironia: “Parlamentares falam em convocar o general Heleno para saber se os bispos foram espionados. É que a preocupação do GSI com o Sínodo surgiu a partir de relatórios preparados por agentes da Abin. Nem precisava. Bastava, como eu disse, visitar o site da CNBB.”

 

IDEC: Angra 3 é desnecessária e economicamente inviável

A polêmica usina nuclear de Angra 3 continua na mídia. Na 6a feira, Clauber Leite reafirmou dois argumentos contrários: o que mostra que a energia da usina será, de longe, a mais cara das fontes ligadas ao Sistema Integrado Nacional; e o que demonstra que, dada a abundância de outras fontes, será completamente desnecessária. Leite adiciona mais um argumento: “a precificação da energia de Angra 3 recomendada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em outubro último (R$ 480 por MWh) como alternativa para viabilizar a construção da usina, pode gerar um favorecimento ilegal dos acionistas da Eletrobras. Isso porque o preço das ações adquiridas até então considerava os contratos assinados pela empresa se comprometendo à entrega da energia ao valor inferior previsto anteriormente (R$ 250 por MWh). A efetiva viabilização do processo ao valor indicado pelo CNPE pode resultar, portanto, numa transferência ilegal de renda do consumidor final para os acionistas da companhia.”

O Greenpeace, desde sempre, é contra usinas nucleares, mas mantendo-se apoiado na ciência. O escritório francês da organização publicou um relatório precioso sobre o estado dos resíduos das usinas nucleares no mundo. A essência da operação de uma usina é o controle das reações nucleares para gerar calor. Chega um momento no qual as varetas de combustível não têm urânio suficiente para manter a reação nuclear com eficiência, mas ainda contêm urânio e outros materiais radiativos que exigem um cuidado muito especial. A prática usual no Brasil é deixar as varetas usadas dentro do próprio reator. Em alguns outros países, o material é reciclado e o resíduo estocado sob grande e custosa vigilância. Não existem, hoje, alternativas seguras e viáveis para o armazenamento das varetas de combustível utilizadas ou para os resíduos do reprocessamento durante os milhares de anos necessários para a redução da radiação destes materiais em níveis seguros. Do ponto de vista das emissões de gases de efeito estufa, quando se faz a avaliação de ciclo de vida de diferentes fontes de eletricidade para estimar as emissões embutidas em cada kWh gerado, mesmo desconsiderando esta etapa final de armazenamento, as emissões da eletricidade de usinas nucleares são maiores do que as das fontes limpas, embora sejam bem menores do que as das térmicas fósseis.

Em tempo: em janeiro, uma nota do MME dava conta que “o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem sido obrigado a despachar, de forma contínua, usinas térmicas a diesel com tarifas acima de R$ 700/MW”. Isso é uma comparação marota. As térmicas a diesel são usadas para suprir picos de demanda ou, excepcionalmente, cobrir térmicas a gás natural. Uma usina nuclear, por concepção, não se presta a esse tipo de operação, assim, a comparação não faz sentido.

 

Novas tragédias da Vale são risco real

Neste final de semana, a Vale mandou evacuar 200 pessoas na região de Nova Lima por conta do risco apresentado por duas barragens de rejeito. O governo deu um prazo de 3 anos para que a Vale e demais mineradoras desativem todas as 88 barragens feitas via “alteamento a montante”, pelo risco que representam. Mais, quer que, até a desativação, sejam feitas inspeções diárias. Enquanto isso, o Rio Paraopeba já tem mais de 300 km de águas contaminadas pela lama dos rejeitos vindos da tragédia provocada pela Vale em Brumadinho.

 

Estadão: ideologia não é bom parâmetro para análises de risco

Editorial do Estadão retoma os resultados de uma pesquisa do Pew Center feita em 26 países mostrando o aumento da preocupação ao longo do tempo com a mudança climática: em 2013, 56% viam o aquecimento global como uma grande ameaça; em 2017 eram 63%; e, no ano passado, este percentual aumentou para 67%. Para o Estadão, a pesquisa confirma “que o mundo está cada vez mais preocupado com a sustentabilidade do planeta, o que tem muitas consequências sociais, políticas e econômicas”, e que “os governos que se mostrarem alheios ou contrários a essa preocupação estarão contrariando os sentimentos de sua própria população, além de se colocarem na contramão da história.” O jornal observa que “embora seja citado em muitos lugares como uma ameaça significativa, tal perigo [o da mudança do clima] não é visto em nenhum país como a principal ameaça.” E comenta que “às vezes, há perigos que não se quer ver.” O Estadão diz que isso “mostra a importância de que os governos atuem de forma responsável, com base em dados empíricos e estudos consistentes. A ideologia não é bom parâmetro para a análise de riscos.”

Esperemos que o mensageiro influencie na abertura dos ouvidos do chanceler Araújo.

 

Eletricidade renovável para geração de hidrogênio na Alemanha

Para o analista Chris Goodall, os preços baixos da eletricidade na Alemanha no fim de semana de 9 e 10 de fevereiro, resultado de ventos fortes, foram um importante lembrete da necessidade urgente de progresso no uso do excedente renovável para geração de hidrogênio. Dois dos operadores das redes alemãs propuseram a construção de um eletrolisador de 100 MW na Baixa Saxônia, desenhado para produzir hidrogênio, que deve ser inserido na infraestrutura de distribuição de gás natural. As metas climáticas alemãs, que incluem a eliminação progressiva da energia nuclear e o abandono do carvão, apresentam um enorme desafio para o sistema energético do país, indicando ser necessário criar as condições para a produção de gás por meio da eletricidade numa escala de gigawatts após 2030, segundo disse um representante de uma das proponentes, a Amprion, em conferência de imprensa. O custo divulgado de 150 milhões de Euros implica custo por quilowatt de 1500 Euros. Este valor parece surpreendentemente baixo, mesmo considerando que os preços dos eletrólitos estão baixando rapidamente.

 

ONU sugere estratégias de promoção de mudanças de comportamento para o combate ao aquecimento global

Cada um pode – ou deve – “comer menos carne, voar menos de avião ou escolher energias renováveis” para ajudar no combate ao aquecimento global. Mas não estamos fazendo, ou, pelo menos, não na velocidade e intensidade necessárias. Segundo a ONU, a ciência comportamental pode dar dicas do que pode e deve ser feito para mudar nosso comportamento:

  1. Faça a melhor opção ser a default: por exemplo, doar órgãos deveria ser o default; e ser um não doador, a exceção.
  2. Mude a maneira com a qual as escolhas são apresentadas de modo a favorecer o comportamento sustentável.
  3. Remova inteiramente a opção “insustentável”: por exemplo, o comportamento habitual, é o uso de sacolas plásticas. Onde se proibiu o uso de sacolas plásticas, um “novo normal” se estabeleceu num prazo de dias e não de décadas.
  4. Remova obstáculos e “dificuldades”: só se consegue um prato vegetariano em algumas companhias aéreas se este for pedido com antecedência. As empresas aéreas deveriam inverter, oferecendo opções vegetarianas e deixando os amantes de carnes livres para pedir uma opção carnívora no momento da compra das passagens.
  5. Personalize a comunicação: campanhas políticas e mil e uma campanhas publicitárias aprenderam a personalizar mensagens e dirigi-las a alvos bem definidos. Essa estratégia precisa ser usada em campanhas de informação pública, incluindo campanhas envolvendo as mudanças climáticas.

Um relatório da ONU de 2017 sobre o tema diz que “alcançar o consumo sustentável exigirá um grande esforço global – é crítico que usemos todas as ferramentas à nossa disposição. Ao usar o entendimento profundo sobre a tomada de decisões fornecido pela ciência comportamental, legisladores podem criar políticas mais eficazes para a alteração de padrões de consumo e o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”.

 

Deu no New York Times: é hora de entrar em pânico

A era do pânico climático chegou e as ondas de calor que no último verão do hemisfério norte mataram dezenas de pessoas de Quebec ao Japão, os incêndios florestais mais destrutivos da história da Califórnia  e os furacões que forçaram três milhões de chineses a fugir de suas casas devem nos abrir os olhos para este fato. E olha que estamos vivendo em um mundo que aqueceu somente um grau Celsius desde o final de 1800.

O pânico pode parecer contraproducente, mas para David Wallace-Wells, chegamos a um ponto tal que o alarmismo e o pensamento catastrófico são valiosos, por várias razões.

A primeira é que a mudança climática é uma crise precisamente porque é uma catástrofe iminente que exige uma resposta global agressiva, já. Em outras palavras, é justo que estejamos alarmados. A trajetória das emissões que estamos percorrendo nos levará provavelmente a 1,5oC de aquecimento até 2040, 2oC dentro de décadas e, talvez, 4,0oC até 2100.

A segunda razão é que, ao definir com maior precisão o limite do concebível, o pensamento catastrófico torna mais fácil ver claramente a ameaça das mudanças climáticas.

A terceira é que enquanto a preocupação com a mudança climática está crescendo, a complacência continua sendo um problema político muito maior do que o fatalismo.

Um quarto argumento para abraçar o pensamento catastrófico vem da história: o medo pode mobilizar, até mesmo mudar o mundo. Quando Rachel Carson publicou seu polêmico livro antipesticida “Primavera Silenciosa”, a revista Life disse que Carson “superestimou seu caso”, e o The Saturday Evening Post rejeitou o livro como “alarmista”. Mas ele levou quase que sozinho a uma proibição do DDT.

Finalmente, o argumento talvez mais forte a favor do pensamento catastrófico é que todos os nossos reflexos mentais seguem na direção oposta, em direção à descrença sobre a possibilidade de resultados muito ruins. Wallace-Wells diz ter aprendido isso por experiência própria, por ter passado os últimos três anos enterrado na ciência climática e seguindo a pesquisa à medida que ela se expandia para territórios cada vez mais escuros. Ele diz que “o número de artigos científicos com ‘boas notícias’ que encontrei neste período provavelmente pode ser contado com os dedos das minhas duas mãos. Enquanto os artigos que trazem ‘más notícias’ são provavelmente milhares e, a cada dia, que passa parecem trazer uma nova e angustiante revisão para a nossa compreensão do trauma ambiental que já se desenrola.”

 

E a mudança do clima vai mudando o azeite de oliva

A Itália corre o risco de deixar de ser o produtor número um de azeite de oliva. A produção no ano passado foi a menor em 25 anos, um tombo de mais de 50% em relação à 2017. As regiões produtoras sofreram uma onda de frio prematura e episódios de chuvas torrenciais. Além disso, no sul da bota, de onde sai 65% da produção nacional, as oliveiras foram pesadamente atacadas por uma bactéria. As oliveiras de Portugal e da Grécia também sofreram com o clima e a produção nestes países caiu em 20% e 35%, respectivamente. A Espanha, por sua vez, foi beneficiada por um clima muito favorável e sua produção deve aumentar 25% em 2019. Mais detalhes na Fortune.

 

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