COVID-19 e clima: um ano de narrativas

covid e clima

Há quase um ano, em 23 de janeiro de 2020, a China impôs um lockdown na cidade de Wuhan, o que despertou a atenção global e sinalizou a perspectiva sombria de uma pandemia. No mês seguinte, o Brasil detectou seu primeiro caso oficial de COVID-19. Desde então, essa doença causou enormes perdas e mudou a vida de praticamente todos no planeta, forçando mudanças rápidas, reformulando discussões e desafiando velhas normas. A mudança climática e a pandemia se apresentaram como crises compostas durante o ano, e a interligação entre elas reforçou a necessidade de se alinhar desenvolvimento e natureza.

Quatro narrativas principais foram identificadas e substanciadas:

1. O mundo precisa enfrentar duas crises ao mesmo tempo. Doenças zoonóticas, como a COVID-19, e a mudança climática são ameaças globais entrelaçadas e compartilham alguns remédios semelhantes. Em meio à pandemia, a crise climática continua a ser sentida de forma aguda em todo o mundo.

2. Lições aprendidas. Pessoas em todo o mundo trabalharam juntas para proteger uns aos outros e a sociedade, apesar da devastação da COVID-19. A pandemia expôs a urgência de se construir uma sociedade e uma economia resilientes, onde as atividades humanas estejam alinhadas com objetivos sustentáveis.

3. Precisamos de uma mudança integrada e sistêmica para enfrentar as crises. Tanto a crise climática quanto a crise da COVID-19 ressaltaram a desigualdade internacional.

4. Embora haja sinais de esperança, precisamos fazer mais para garantir uma recuperação verde equânime.

Vamos a elas. Boa Leitura.

 

1. O mundo precisa enfrentar duas crises ao mesmo tempo. Doenças zoonóticas, como a COVID-19, e a mudança climática são ameaças globais entrelaçadas e compartilham alguns remédios semelhantes. Em meio à pandemia, a crise climática continua a ser sentida de forma aguda em todo o mundo.

Antecedentes: As causas tanto da COVID-19 quanto da crise climática compartilham semelhanças, e seus efeitos são convergentes. Uma crise não anula outra; juntamente com a pandemia de COVID-19, a crise climática continuou nos assolando em 2020. A mudança climática é projetada como a maior ameaça global à saúde do século 21, minando os sistemas que funcionaram para combater a pandemia de COVID-19.

1. Zoonoses (doenças de origem animal) e mudanças climáticas são ameaças entrelaçadas e compartilham impactos e remédios convergentes.

a. As doenças zoonóticas, como a COVID-19, estão ligadas às atividades humanas e à transformação dos ecossistemas. A mudança climática é um dos motores por trás da crescente tendência de surgimento de doenças zoonóticas, de acordo com um relatório conjunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e do Instituto Internacional de Pesquisa Pecuária. O relatório identifica sete motores de doenças emergentes na criação de animais, incluindo o aumento da demanda por proteína animal; o aumento da agricultura intensa e insustentável; o aumento de uso e exploração da vida selvagem; e a crise climática.

b. Muitos cientistas afirmam que a mudança climática e a perda da biodiversidade provavelmente aumentarão o risco de pandemias. Por exemplo, uma pesquisa da Redding descobriu que a mudança climática poderia aumentar o risco de novos surtos de Ébola em várias partes da África até 2070. Outro estudo descobriu que a mudança climática poderia aumentar o risco de alastramento do vírus Hendra, uma doença de origem animal que pode passar morcegos Pteropodidae (morcegos gigante conhecido como Raposas Voadoras) para humanos através de cavalos.

c. A mudança de uso da terra pelo homem (como o desmatamento) é outro fator que causa perda de habitat e conflitos entre homens e animais. Em sua principal avaliação da biodiversidade publicada em maio de 2019, o IPBES relatou que os seres humanos “alteraram significativamente” 75% da superfície da Terra e 66% dos oceanos. O relatório conclui que “ligações complexas entre o aumento da degradação causada pelo homem, mudanças no uso da terra, perda/degradação de habitats e perda da biodiversidade foram todas ligadas ao aumento da prevalência e risco de doenças zoonóticas para uma variedade de patógenos”. As pressões contínuas sobre a vida selvagem provavelmente aumentarão o contato entre animais e humanos, tornando mais provável o alastramento do patógeno dos animais para as pessoas. O desmatamento também é uma das principais causas da mudança climática.

d. Até a pandemia de COVID-19, as mudanças climáticas e a política de saúde global tinham sido amplamente tratadas como questões separadas pelo público e pela mídia. Vozes crescentes na comunidade científica estão chamando a atenção para as complexas interações das saúdes humana, animal e ambiental e a adoção de práticas totalmente integradas de saúde chamada abordagem One Health. O alinhamento das respostas apresenta uma oportunidade para melhorar a saúde pública, criar um futuro econômico sustentável e melhor proteger os recursos naturais e a biodiversidade remanescentes do planeta.

2. 2020 foi o ano mais quente nos registros (empatado com 2016), continuando uma tendência preocupante.

a. As temperaturas globais subiram cerca de 1,1°C desde 1880, e o aumento não está diminuindo. Espera-se que 2020 seja o ano mais quente já registrado e até 2010 espera-se a década a mais quente. No Hemisfério Norte, o verão de 2020 foi o mais quente já registrado, medindo, aproximadamente 1,17°C acima da média do século 20. No final do ano, ficou claro que 2020 foi o ano mais quente de todos os recordes (empatado com 2016).

b. Em 2020, vimos o calor bater recordes. Na Austrália e na Sibéria, algumas regiões apresentaram temperaturas espantosas de 7°C mais quentes que a pré-industrial. Eventos de calor extremo prolongado, como o da Sibéria, são quase impossíveis sem o impacto das atividades humanas: sem nenhuma mudança climática, uma onda de calor prolongada aconteceria menos de uma vez a cada 80.000 anos. Em outras palavras, seria quase impossível em um clima não aquecido por gases de efeito estufa.

c. Economistas e cientistas continuam a alertar sobre o crescente peso econômico das mudanças climáticas. Se não agirmos agora, os impactos globais das mudanças climáticas poderão reduzir o PIB global em quase um quarto até 2100. Eventos climáticos extremos impulsionados pelas mudanças climáticas custou ao mundo bilhões de dólares este ano. Inundações, tempestades de vento, ciclones tropicais e incêndios mataram milhares de pessoas em todo o mundo: nove eventos extremos que custaram mais de 5 bilhões de dólares cada um foram identificados em um relatório da Christian Aid.

3. A crise climática só vai piorar.

a. A mudança climática está se acelerando. Em 2020, o mundo atingiu vários marcos climáticos sombrios, incluindo o ano mais quente do mundo, a pior temporada de incêndios e a menor extensão de gelo do mar Ártico já registrada no mês de julho. A cada ano, a elevação do nível do mar se acelera com o aumento da temperatura global. O mundo caminha agora para mais de 3°C de aquecimento até o final deste século, apesar de um breve mergulho nas emissões de dióxido de carbono durante a pandemia da COVID-19, de acordo com o relatório da UNEP sobre a lacuna de emissões.

4. As mudanças climáticas continuarão a cobrar pesados tributo aos sistemas globais e locais de saúde.

a. A COVID-19 colocou uma enorme pressão nos sistemas de saúde em todo o mundo, expondo lacunas pré-existentes na saúde pública. Mas há mais ameaças pela frente, com a mudança climática projetada para ser a maior ameaça global à saúde do século 21. Estima-se que aproximadamente 250.000 mortes adicionais por ano ocorrerão como resultado da mudança climática entre 2030 e 2050.

b. Alguns exemplos: a mortalidade relacionada ao calor em pessoas com mais de 65 anos aumentou 53,7% entre 2009 e 2018 – até o final do século, 20% das pessoas, principalmente em regiões pobres, podem estar vivendo em condições de calor extremo. Sem a mitigação do clima, uma parte substancial da população global estará exposta a temperaturas médias anuais mais quentes do que em quase qualquer lugar hoje em dia. No final do século, a elevação prevista do nível do mar de 1 metro ameaça deslocar até 565 milhões de pessoas, e quase um bilhão de pessoas poderá estar exposto a doenças transmitidas por mosquitos.

c. Para enfrentar os enormes desafios, precisamos construir mais resiliência nos sistemas de saúde. A comunidade de saúde terá um papel fundamental na resposta às mudanças climáticas, de acordo com a OMS, que enfatiza que a severidade e a frequência de condições climáticas extremas, possíveis colapsos do sistema alimentar, seca e aumento do risco de conflitos violentos associados à escassez de recursos, está ameaçando os sistemas de saúde globais.

d. Políticas de mitigação para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C poderiam evitar ~150 milhões de mortes prematuras no decorrer do século. Globalmente, a economia em custos com saúde apenas com a descarbonização mais do que cobriria todos os custos de implementação.

 

2. Lições aprendidas. Pessoas em todo o mundo trabalharam juntas para proteger uns aos outros e a sociedade, apesar da devastação da COVID-19. A pandemia expôs a urgência de se construir uma sociedade resiliente e uma economia onde as atividades humanas estejam alinhadas com objetivos sustentáveis.

Antecedentes: Uma sociedade mais resiliente é aquela onde as atividades humanas e econômicas estejam alinhadas com objetivos sustentáveis, permitindo que sistemas e indivíduos enfrentem adversidades ou riscos significativos. Em muitos países, especialmente durante os primeiros meses da pandemia, as pessoas se uniram para proteger uns aos outros e a sociedade.

Ao longo do ano, vimos que as pessoas têm o poder de mudar como vivem e se movem, que a mudança dos combustíveis fósseis para energia limpa é agora uma realidade clara, e que as pessoas estão dispostas a reconsiderar sua relação com a alimentação e a natureza. O setor de combustíveis fósseis e as cadeias de abastecimento existentes revelaram sua fraqueza diante das rupturas causadas pela COVID-19, enquanto as indústrias de energia renovável e as cadeias de abastecimento emergentes revelaram sua força. As tendências e mudanças de pensamento observadas dão esperança de que, com forte liderança, a sociedade pode se unir e agir de forma decisiva em relação à mudança do clima.

1. Podemos nos unir. Os governos demonstraram que têm competência e poder para intervir em tempos de crise.

a. Já em abril de 2020, quase metade da população mundial havia sido solicitada ou ordenada por seus governos a permanecer em casa.

b. Devido à pandemia, a China anunciou 4,8 trilhões de RMB em medidas fiscais, incluindo aumento dos gastos na prevenção e controle de doenças, produção de equipamentos médicos e desembolsos acelerados do seguro-desemprego. Na Alemanha, o governo federal adotou dois orçamentos suplementares de 156 bilhões de euros e 130 bilhões de euros, e está planejando emitir 218,5 bilhões de euros em dívidas para financiar os pacotes. No Reino Unido, foram anunciadas medidas fiscais e de gastos para apoiar lares e famílias, incluindo um financiamento adicional de 48,5 bilhões de libras para o Serviço Nacional de Saúde, 29 bilhões de libras para apoiar as empresas e 8 bilhões de libras para expandir a rede de segurança social para os mais vulneráveis. O governo do Reino Unido também prometeu salários subsidiados para os funcionários atingidos pela pandemia (para estatísticas individuais de cada país use o tracker do FMI).

c. Em geral, a pandemia mostrou que cuidar das pessoas deveria (e poderia) vir antes das finanças públicas, como salientado por comentaristas. Os trilhões de dólares em estímulo durante a pandemia teriam sido impensáveis apenas alguns meses antes, mas em um momento de necessidade esses fundos foram disponibilizados. Entretanto, subsistem dúvidas sobre por quanto tempo esses estímulos governamentais podem ser mantidos, e qual o impacto que a reversão dessas políticas pode ter.

d. A lição que fica para a ação climática é a de que não devemos nos limitar pelas antigas ideias de “custo-benefícios” quando entendemos que a mudança climática representa uma ameaça imediata e leva a consequências duradouras. As medidas tomadas pelos governos diante da crise da COVID-19, tais como o fechamento maciço do comércio, os enormes pacotes de auxílio e grandes aumentos no déficit fiscal, provaram que os governos podem romper barreiras antes percebidas como intransponíveis. As futuras crises climáticas exigirão que tomadores de decisão rompam com assertividade e rapidamente com os estereótipos comportamentais e de políticas/percepções.

2. Podemos reinventar nossas cidades e sistemas de transporte e mudar nossa maneira de viver, trabalhar e viajar.

a. A boa qualidade do ar durante os lockdowns pela COVID-19 levou os governos a repensarem energia, mobilidade e planejamento urbano, e a não voltarem ao “business as usual” após a volta das atividades. Algumas cidades estão começando a “reimaginar” a vida após a COVID-19, como em Milão, que está dando menos espaço para os carros, a fim de tornar os bairros mais habitáveis e impulsionar os negócios de restaurantes e bares. Em Paris, foi anunciado no início de 2021 que um esquema de 250 milhões de euros “repensará” os famosos Champs-Élysées. O número de pistas será cortado ao meio (para quatro pistas), as estradas serão repavimentadas com um material de superfície mais silencioso, faixas de pedestres serão expandido e milhares de novas árvores serão plantadas. Na Holanda, introduziu-se em 2020 a chamada Economia Doughnut Amsterdam para uma recuperação econômica mais justa e mais verde.

b. Mesmo antes da pandemia, 60% das viagens de veículos na França e 46% das viagens de veículos nos EUA eram inferiores a 5 km, o que sugere que muitas pessoas podiam caminhar e pedalar diariamente em suas comunidades. Muitos lugares estão criando mais espaço para se andar de bicicleta e a pé para ajudar os bairros a se tornarem mais habitáveis, bem como para ajudar a manter o distanciamento social. A expansão da infraestrutura ciclística, por exemplo, ajudará a atender às exigências da era pós-COVID e apoiará uma recuperação econômica saudável e verde.

c. A COVID-19 e as paralisações econômicas resultantes criaram desafios sem precedentes para a indústria da moda, incluindo a diminuição de compra dos consumidores e ruptura de cadeias de abastecimento. A indústria da moda, considerada uma das indústrias mais poluentes do mundo e alimentada por anos de superprodução e cultura da moda rápida, pode sair da pandemia irreconhecível. Uma leva de marcas e lojas de moda entrou em falência. Esta situação pode acelerar a mudança para cadeias de abastecimento mais verdes e sustentáveis. Muitas marcas de moda estão convencidas de que, no contexto da COVID-19, a mudança para modelos de negócios mais sustentáveis, economia circular e gestão da cadeia de suprimentos são passos essenciais para que as empresas sobrevivam.

3. Podemos migrar dos combustíveis fósseis para a energia limpa. Energias renováveis abriram caminho apesar da pandemia da COVID-19, continuando uma tendência já em aceleração – as energias renováveis foram responsáveis por quase dois terços das adições ao setor energético em 2019.

a. A AIE previu que a instalação de eletricidade renovável atingiria um nível recorde em 2020, em nítido contraste com a COVID-19, exacerbando o declínio da indústria de combustíveis fósseis. A AIE se refere a uma aceitação crescente da necessidade de se enfrentar a crise climática como uma das principais razões pelas quais as energias renováveis estão se tornando cada vez mais atraentes para os investidores.

b. Apesar da pandemia, no primeiro semestre de 2020, pela primeira vez, as energias renováveis geraram mais eletricidade do que as fontes de combustível fóssil na União Europeia – 43% contra 34%. Posteriormente, as emissões caíram 23% no setor de energia elétrica.

c. As energias renováveis são agora o novo recurso energético de mais baixo custo. Dramáticas reduções de preços transformaram as renováveis na mais barata nova fonte de eletricidade, levando a níveis recordes de instalações e geração. Hoje, as energias solar e eólica são as fontes mais baratas de geração de energia para dois terços da população mundial – partindo de 1% em 2015, quando foi assinado o monumental Acordo de Paris, de acordo com a BloombergNEF.

d. Com a onda de queda de custos, mais vento e energia solar foram adicionados do que qualquer outra fonte de geração de eletricidade em 2019, respondendo por 70% das novas instalações. Como resultado, a capacidade global total atingiu 650,5 GW para solar e 637,5 GW para eólica em 2020.

e. A demanda global de carvão caiu 7% enquanto que a demanda de petróleo caiu 8% em 2020, de acordo com o Outlook Global de Energia da AIE. O número global de centrais elétricas a carvão também diminuiu pela primeira vez em 2020, com mais capacidade aposentada do que aberta no primeiro semestre do ano. Por outro lado, a geração de energias renováveis foi projetada para crescer em torno de 7% em 2020.

f. O pico da demanda de petróleo pode já ter passado. O consenso de toda a indústria é que a pandemia antecipou o pico de demanda de petróleo, e alguns acreditam que esse pico já tenha sido ultrapassado. Em suas perspectivas energéticas anuais, a BP previu que o pico de demanda de petróleo havia ocorrido em 2019. A previsão energética da DNV GL chegou à mesma conclusão em suas Perspectivas Anuais de Transição Energética. Mas mesmo antes da pandemia, o crescimento da demanda por combustíveis fósseis havia diminuído para apenas 1% ao ano, e a demanda fóssil caiu em quase 40% do mundo, de acordo com o Carbon Tracker.

4. Por outro lado, a pandemia enfraqueceu os investimentos para a indústria de combustíveis fósseis.

a. Os investidores se retiraram das empresas de petróleo e gás devido ao aumento dos riscos econômicos associados à volatilidade dos preços do petróleo, menores retornos e queda na demanda. Os mercados estão impulsionando a mudança dos combustíveis fósseis para energia limpa, com os investidores se voltando permanentemente contra os combustíveis fósseis.

b. Em 2020, o investimento em energia limpa passou a ser o principal objetivo. A avaliação de mercado dos gigantes da energia limpa NextEra, Enel, Iberdrola e Orsted superou às das empresas petrolíferas Exxon Mobil, Eni, Repsol e BP. Os preços das ações dessas empresas de energia limpa dispararam à medida que os investidores se tornaram cada vez mais confiantes em um futuro de baixo carbono e direcionaram mais dinheiro para energia renovável, armazenamento de baterias e infraestrutura de rede durante o ano.

c. Na Alemanha e na França, os investimentos renováveis produziram retornos de 178,2% em um período de cinco anos, em comparação com -20,7% para investimentos em combustíveis fósseis; enquanto no Reino Unido os números foram de 75,4% em comparação com 8,8% para combustíveis fósseis, de acordo com um relatório publicado pelo Imperial College London e pela AIE em maio de 2020.

d. Durante a pandemia, os estoques de energia limpa dos EUA atingiram seus níveis mais altos desde a crise financeira de 2008, mesmo com as ações das empresas de petróleo e gás tendo diminuído. A vitória eleitoral de Biden também aumentou a confiança dos investidores nas ações de energia limpa. O fundo de troca Invesco Solar (TAN US) subiu até 11,5% em 5 de novembro e saltou 144,3% nos retornos acumulados no ano, enquanto o Índice de Energia S&P 500 caiu 51% nos retornos acumulados no ano, com a Exxon Mobil (-52%) e a Chevron (-40%) sofrendo grandes perdas.1

5. Podemos fazer a transição para um uso da terra e dietas mais sustentáveis e saudáveis.

a. A pandemia parece ter acelerado a conscientização das questões de sustentabilidade, especialmente entre os consumidores mais jovens. Os mais jovens estão comprando produtos mais éticos, sustentáveis e saudáveis, de acordo com o Financial Times, sendo o veganismo apresentando uma das tendências de crescimento mais rápido na indústria alimentícia. Por exemplo, a Impossible Foods – uma empresa que vende carne “falsa” feita de plantas e tem como objetivo um “futuro sem carne” até 2035 – continuou a bater recordes de vendas e produção em 2020. No final do ano, ela havia expandido seus empreendimentos para o mercado asiático livre de carne, que se encontrava em aceleração.

b. Isto é do que nunca mais importante: hoje em dia, a atividade humana afeta 75% da superfície terrestre. Nos últimos 50 anos, a população humana dobrou e a economia e o comércio global cresceram quase quatro e dez vezes, respectivamente. O turismo global teve um aumento de 56 vezes desde 1950. As mudanças no uso da terra2 tiveram o maior impacto negativo relativo na natureza desde 1970, através da expansão das áreas agrícolas e urbanas. Quase um milhão de espécies estão enfrentando a extinção e mais de 85% das áreas úmidas foram perdidas.

c. A mudança do clima levará a secas mais severas e frequentes – a seca exacerba a escassez de água e a falta de acesso à água coloca as pessoas em maior risco de contraírem COVID-19. As secas também prejudicam a segurança alimentar. Por exemplo, incêndios florestais, secas e a COVID-19 aumentaram os custos de supermercados na Austrália. Os preços ao consumidor subiram 2,2% ao longo do ano até 31 de março de 2020, o maior aumento em cinco anos e meio, e continuando instável.

d. Há também mais reconhecimento de que precisamos de maior resiliência dos sistemas alimentares globais, com cadeias de fornecimento mais curtas e mais sustentáveis e com ações coletivas ao longo de toda a cadeia agroalimentar sendo fundamentais.

6. Podemos reconstruir as cadeias de abastecimento locais e enfrentar a crise alimentar global alavancando mais interessados locais.

a. As cadeias de abastecimento em muitos países desenvolvidos lutaram para lidar tanto com o fechamento de instalações de processamento centralizado quanto com as rápidas mudanças na demanda.

b. Como resultado da crise da COVID-19, muitas empresas estão mudando para fornecedores regionais para mitigar riscos, e um número crescente de organizações está agora incorporando diversidade e visibilidade em parcerias mais amplas com fornecedores. Soluções mais holísticas de cadeia de fornecimento poderiam incluir a aproximação das cadeias de fornecimento do consumidor (potencialmente para diferentes países) ou a incorporação de soluções digitais, criando espaço para se pensar em operações sustentáveis para o futuro, de acordo com o WEF. Novas formas de pensar o fornecimento foram aceleradas, o que inclui o impulsionamento de tecnologias avançadas, como Internet das Coisas, inteligência artificial, robótica e 5G.

c. Restrições de movimento para conter a pandemia criaram rupturas nas cadeias de fornecimento de alimentos, expondo as fraquezas nas formas como os alimentos são movimentados da fazenda para o prato . As barreiras comerciais iniciais para aliviar os receios de escassez de alimentos destacaram a necessidade de segurança alimentar para os grandes importadores de alimentos. Especialistas argumentam que um sistema mais resistente precisa ter mais capacidade de reserva e diversidade, especialmente em um momento em que os riscos de ruptura estão aumentando. Há necessidade de relocação dos sistemas alimentares, reconstrução de infraestruturas regionais de processamento (matadouros, mercados atacadistas) e encurtamento das cadeias alimentares para se melhorar a resiliência do sistema alimentar.

7. A COVID-19 expôs a vulnerabilidade da cadeia de abastecimento alimentar internacional de longa distância.

a. Mesmo antes da COVID-19, a renda era reduzida, cadeias de abastecimento interrompidas e a fome aumentava. Mas 2020 marca o aumento mais grave da insegurança alimentar global, impactando as famílias vulneráveis em quase todos os países. Até o final de 2020, 270 milhões de pessoas deviam estar vivendo em condições de fome, de acordo com o Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas, contra os já espantosos 149 milhões antes da COVID-19.

b. Surtos da COVID-19 em frigoríficos expuseram como a indústria da carne havia sido otimizada para priorizar custo e eficiência em detrimento dos direitos dos trabalhadores, da saúde humana e do meio ambiente. Estes surtos evidenciaram ainda mais a necessidade urgente de uma transição justa em direção a um sistema alimentar sustentável.

c. A pandemia também trouxe a necessidade de segurança alimentar. Grandes importadores de alimentos estão agora tornando a segurança alimentar parte central de suas estruturas políticas nacionais. A China tem exortado os consumidores a desperdiçar menos, enquanto os governos de Cingapura e do Golfo têm investido em novas tecnologias para aumentar a produção local de alimentos. A indústria alimentícia está tentando minimizar seus impactos ambientais, com muitas iniciativas coordenadas acontecendo em todo o mundo. Na França, Nestlé, Lidl e McCain criaram uma iniciativa para tratar da saúde do solo. Além disso, Nestlé, Mondelez, Coca-Cola, Kellog, Pepsico e General Mills estão entre as empresas alimentícias que recentemente se comprometeram a reduzir as emissões em suas cadeias de fornecimento. A indústria alimentícia globais também está apoiando iniciativas para apoiar a biodiversidade em uma recuperação verde da COVID-19.

d. Mas há algumas histórias positivas da COVID-19: na Índia, partes do sistema alimentar têm se mostrado “surpreendentemente resilientes“. Os vendedores tradicionais e de rua de produtos frescos também mantiveram as cadeias de abastecimento funcionando, enquanto os varejistas informais abraçaram a tecnologia, recebendo pedidos através da WhatsApp e adotando pagamentos eletrônicos. Os consumidores estão comprando mais alimentos online, mas menos comida pronta, e estão apoiando as empresas locais e os pequenos agricultores. Na Europa, 45% dos 5.000 consumidores estão fazendo a maioria de suas compras de supermercado online, enquanto a demanda nos EUA e na China disparou para esquemas de CSA (community supported agriculture memberships, em tradução livre, associações com agricultores apoiados localmente), entrepostos agrícolas e outras formas de venda direta. Em todos os EUA, pequenos produtores viram suas vendas crescerem. Muitos bares e restaurantes estão se adaptando para sobreviver, oferecendo entregas e pagamentos sem contato. Na Alemanha, mais de 50% dos pagamentos eram feitos sem contato interpessoal, em comparação com 35% antes da crise. Na China, 3 plataformas de comércio eletrônico asseguraram o fornecimento de alimentos para os residentes urbanos.

 

3. Precisamos de uma mudança integrada e sistêmica para enfrentar as crises. Tanto a crise climática quanto a crise de COVID-19 chamaram atenção para a desigualdade internacional.

Antecedentes: Muitas questões sociais, incluindo desigualdade, injustiça social, racismo e injustiça racial, foram expostas de forma aguda durante a pandemia. Todas estas questões estão profundamente interligadas e destacam a necessidade de se construir uma sociedade mais justa e equalitária, bem como a necessidade de se respeitar as fronteiras e os limites da natureza e dos recursos naturais. Este é um apelo global para uma mudança integrada e sistêmica.

1. Tanto a COVID-19 quanto a crise climática destacam a desigualdade internacional.

a. A COVID-19 destacou intensamente a desigualdade internacional. Por exemplo, são necessárias respostas imediatas para se evitar uma iminente crise financeira na África, pois ganhos sociais obtidos no continente estão sendo colocados em cheque pela pandemia da COVID-19. Nos últimos anos, foram feitos progressos na realização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU em todo o mundo, mas em 2020 a tendência se inverteu, de acordo com o relatório anual Goalkeepers publicado pela fundação Bill e Melinda Gates.

b. Um risco atual é que a desigualdade seja ainda mais fortemente exemplificada pelo lançamento das vacinas para a COVID-19. Cerca de 70 países pobres só poderão vacinar uma em cada dez pessoas contra a COVID-19 em 2021, a menos que sejam tomadas medidas urgentes, segundo a People’s Vaccine Alliance. Em contraste, países como os EUA, Canadá e Reino Unido, mais a UE, encomendaram vacinas suficientes para inocular toda sua população várias vezes – os países ricos, incluindo os acima, separaram mais de 50% das vacinas mais promissoras, apesar de representarem apenas 14% da população mundial.

c. A mudança do clima também é, fundamentalmente, um problema de desigualdade global. Os três maiores emissores do mundo (China, EUA e UE) liberam três vezes as emissões dos 100 países da base em conjunto. A décima parte mais rica das pessoas consome cerca de 20 vezes mais energia do que a décima parte inferior, onde quer que vivam, de acordo com um estudo da Universidade de Leeds que analisa 86 nações. Para aumentar o insulto, os países de baixa renda estão geralmente sub-representados nas negociações climáticas da ONU, que têm como objetivo encontrar soluções comuns de enfrentamento das mudanças climáticas.

d. Apesar disso, os países mais vulneráveis às mudanças climáticas continuam demonstrando uma incansável liderança. Uma série de novos e atualizados anúncios e metas de como enfrentar a crise climática surgiu na cúpula climática da ONU em 2020 (realizada cinco anos até o dia em que o Acordo de Paris foi assinado). Mas os compromissos atuais de financiamento climático não vão cortá-lo, e as nações mais pobres ainda precisam de mais apoio financeiro para lidar com os impactos climáticos cada vez mais acelerados. António Guterres expressou sua preocupação de que as nações ricas ainda estão longe dos 100 bilhões de dólares prometidos por ano para apoiar as nações mais pobres na adaptação às mudanças climáticas.

2. Devido a desequilíbrios sistêmicos de poder, comunidades marginalizadas são desproporcionalmente afetadas pelas mudanças climáticas. Ainda que estas comunidades sejam as que menos contribuem para isso.

a. Enfrentar a crise climática sem abordar os desequilíbrios de poder exacerba as opressões sistêmicas porque não aborda a causa-raiz do problema: a desigualdade.

b. A maioria dos especialistas concorda que as mudanças climáticas atingirão mais fortemente os povos indígenas, as pessoas que vivem na linha da pobreza e as comunidades negras.

c. Apenas para dar alguns exemplos, os povos indígenas na região do Ártico e nos Himalaias sofrem desproporcionalmente com o aumento da temperatura, com mudanças em seu ecossistema representando sérios desafios para a saúde humana e a segurança alimentar. Ao mesmo tempo, na Amazônia brasileira, as comunidades indígenas não só sofrem com a intensa seca, os repetidos incêndios florestais e outros perigos, como também perdem terras para as indústrias extrativistas.

d. A raça também desempenha um papel crucial, por exemplo, os negros na África do Sul são os menos abastados, com ~64% da população negra vivendo na linha da pobreza, em comparação com 1% da população branca. Eles também sofrem mais os efeitos ambientais da mineração de carvão e das usinas elétricas a carvão, ao mesmo tempo em que são explorados como mão de obra barata. Nos EUA, suas comunidades negras têm renda mais baixa, menos educação e estado de saúde mais precário do que as comunidades brancas não-hispânicas.3 A maioria dos afroamericanos vive no Sul, o que inclui as áreas que sofrerão os impactos climáticos mais severos, tais como enchentes e furacões.

e. Bem como castas, classes sociais e gênero. Na Índia, por exemplo, a escassez de água tem causado muitos suicídios, mas os números mais altos estão entre os Dalit e outras comunidades de castas inferiores. Outro estudo em Orissa descobriu que as mulheres das castas superiores foram capazes de lidar com múltiplos desastres de forma mais eficaz do que as mulheres das castas inferiores, que não tinham moradia estável e redes suporte local que pudessem protegê-las dos impactos climáticos (aqui, aqui e aqui). Além disso, 68% dos 130 estudos revisados por pares sobre clima e saúde constataram que mulheres e meninas são mais afetadas pelos impactos climpaticos, incluindo insegurança alimentar e doenças mentais relacionadas ao clima, ou violência de parceiros após eventos climáticos extremos.

3. Cidadãos e líderes de todos os pilares da sociedade estão exigindo mudanças nos sistemas, com urgência exacerbada pela COVID-19 e pela crise climática.

a. Este ano, empresas e alguns dos maiores investidores mundiais – responsáveis por 10,5 trilhões de dólares em ativos sob sua gestão, 2,1 trilhões de dólares de valor de mercado e cerca de 200 milhões de trabalhadores em 163 países – se juntaram ao Papa para pedir por um “sistema legítimo” a fim de estar em conformidade com as Metas de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Uma “Iniciativa de Transformação de Capital” também foi lançada este ano, visando ser um “do-tank” de fonte aberta para criar espaço para colaboração e inovação necessárias para mudança financeiras sistêmicas.

b. A devastação causada pela pandemia tem sido devastadora, levando os líderes a repensarem sistemas de saúde. De acordo com o Relatório Anual Lancet, milhões de vidas podem ser salvas se as emissões e a crise da COVID-19 forem enfrentadas em conjunto. Enfrentar a crise climática também pode ajudar a deter o surgimento de novas zoonozes potencialmente pandêmicas.

c. Cada vez mais, as pessoas estão obrigando governos e líderes a prestar contas em relação à crise climática. Quase um terço de todos os casos de litigância climático foram abertos nos últimos cinco anos, de acordo com o Banco de Dados Global sobre Legislações Climáticas (120 de 391 casos de 27 países). Destes 120 casos, 76% das ações foram contra governos, e 21% foram contra entidades corporativas ou privadas.

d. A Comissão para o Futuro da Humanidade divulgou um relatório que descreve as ameaças que precisamos enfrentar em conjunto, incluindo – mas não limitados a – pandemias e mudanças climáticas, escassez de recursos naturais, colapso dos ecossistemas que sustentam a vida, crescimento da população humana, poluição, insegurança alimentar e tecnologias emergentes, identificando que muitas dessas ameaças têm causas comuns, bem como soluções comuns.

e. Seguindo a mesma linha, um novo relatório do PNUD, de dezembro de 2020, argumentou que todos os países precisam redesenhar seus caminhos para o progresso, responsabilizando-se totalmente pelas perigosas pressões que os seres humanos exercem sobre o planeta. O relatório inova ao incluir uma estrutura de fronteira planetária (página 51), que tenta remodelar a maneira como pensamos sobre o desenvolvimento sustentável, levando em conta as limitações da natureza. Aliviar as pressões sobre a natureza, de forma a beneficiar todas as pessoas, requer o desmantelamento dos grandes desequilíbrios de poder e desigualdade, de acordo com o relatório.

 

4. Embora haja sinais de esperança, precisamos fazer mais para garantir uma recuperação verde equalitária.

Antecedentes: A atual recuperação verde não é grande o suficiente nem ambiciosa o suficiente. Ainda antecipamos a projeção de um rápido aumento das emissões. A recuperação verde deve ser o centro da política econômica pós-COVID de cada país. Há benefícios claros em se buscar uma recuperação verde.

1. A atual implantação de pacotes de recuperação em todo o mundo ainda é menor do que o apoio aos ultrapassados setores de combustíveis fósseis. Os governos estão gastando trilhões de dólares para se recuperar da COVID-19, e está em suas mãos dirigir investimentos que travem um caminho de crescimento mais sustentável.

a. Uma recuperação verde poderia cortar 25% das emissões de efeito estufa previstas em 2030, com base nas políticas em vigor antes da COVID-19, de acordo com o relatório de lacunas do PNUMA.

b. Mas, até agora, o estímulo fiscal às indústrias intensivas em carbono é mais de 4 vezes maior do que aos setores com baixo teor de carbono. Desde 11 de dezembro de 2020, os governos aprovaram cerca de 190 bilhões de dólares para o estímulo verde, o que é mínimo em comparação com os 932 bilhões de dólares de ajuda às indústrias de combustíveis fósseis e carbono intensivas, de acordo com a BloombergNEF. A UE ainda não chegou a um acordo sobre um orçamento de longo prazo e pacotes de recuperação, o que poderia expandir significativamente a quantidade de estímulo verde.

c. Existe um quadro misto em nível individual de países. Por exemplo, os EUA comprometeram-se com um estímulo ao setor de energia limpa de 27,27 bilhões de dólares, mas também um estímulo incondicional aos combustíveis fósseis de 72,35 bilhões de dólares. A França comprometeu-se com 30,48 bilhões de dólares para energia limpa, mas também 22,3 bilhões de dólares para combustíveis fósseis (incondicionais e condicionais).

2. Precisamos manter ações contínuas, pois o que fizemos até agora não é suficiente.

a. Embora espere-se que as emissões globais fósseis diminuam em aproximadamente 2,4 bilhões de toneladas de CO2 em 2020 (-7%), uma queda recorde, a diminuição de emissões provocada pela COVID-19 não foi suficiente. A recuperação das emissões após crises anteriores sugere que a tendência de longo prazo das emissões fósseis globais será influenciada pelas ações de estímulo da economia global em resposta à pandemia. Ainda é muito cedo para inferir o nível de recuperação das emissões durante 2021 e posteriores.

b. Precisamos reduzir a produção de combustíveis fósseis agora para limitar o catastrófico aquecimento global. O mundo precisará diminuir a produção de combustíveis fósseis em 6% ao ano entre 2020 e 2030 para se ter uma chance de limitação do aquecimento a 1,5°C. Mas ao invés disso, os países estão planejando um aumento anual de 2% ao ano, o que levaria a mais do que o dobro da produção compatível com o aquecimento a 1,5°C, de acordo com o relatório de lacuna de produção.

3. Existem benefícios bem documentados em favor da busca de uma recuperação verde, por exemplo:

a. Por dólar investido em eficiência energética, estações de carregamento ou o setor de energias renováveis geram mais do que o dobro de empregos em comparação com o investimento nos setores de combustíveis fósseis, de acordo com um estudo de Oxford de co-autoria de Cameron Hepburn, Joseph Stigliz e Lord Nicholas Stern. Em geral, o financiamento público será bem melhor investido para estimular setores com alto potencial de criação de empregos do que para apoiar a indústria de combustíveis fósseis em declínio, já que a crise da COVID-19 deve ter acelerado o pico da demanda de petróleo.

b. Os setores de energia renovável e veículos elétricos (VE) apresentam oportunidades específicas, pois estão em um lugar muito diferente em relação à rodada anterior de estímulos (após a crise financeira de 2008/9). O setor de VEs está maduro e em uma fase de rápido crescimento com as vendas de automóveis crescendo 200 vezes na última década, enquanto a energia renovável já é mais barata do que os combustíveis fósseis para dois terços da população mundial. O estímulo direcionado poderia ter impactos enormes e imediatos, acelerando a transição de baixo carbono.

c. A transição para VEs criará empregos no setor de fabricação de baterias, na criação de redes de estações de carga rápida e em atualizações dessas redes, bem como na geração de mais energia renovável e tecnologias futuras de veículos (ou seja, mapas, aplicativos). Juntos, eles compreendem maior necessidade de ofertas de trabalho do que a indústria de petróleo e gás.

d. A mídia continua a destacar que os investimentos em uma economia carbono zero impulsionarão o crescimento econômico. Um relatório da SYSTEMIQ mostra que uma corrida econômica verde surgiu desde Paris, impulsionando a adoção de tecnologias de baixo carbono. Cunhado de “O Efeito Paris“, o relatório mostra – entre outras coisas – que os esforços à emissões-zero poderiam gerar 35 milhões de empregos globalmente até 2030.

4. Desde o surgimento da COVID-19, tornou-se cada vez mais claro que proteger a natureza e apoiar nossas economias rurais pode trazer prosperidade e criar empregos.

a. Evidências do estímulo de 2009-2010 mostraram que cada milhão de dólares investidos na restauração de ecossistemas criou 10 vezes mais empregos do que os investimentos no setor de carvão ou nuclear. A integração de soluções baseadas na natureza (NbS) nos pacotes de estímulo e recuperação da COVID-19 também pode gerar um crescimento econômico mais efetivo, ajudar a alcançar as Metas de Desenvolvimento Sustentável e construir sociedades resistentes ao clima, proporcionando assim uma oportunidade única para a construção de uma economia positiva respeitando a natureza.

b. Os países estão começando a levar a sério a ameaça econômica da perda de ecossistemas e da natureza. Por exemplo, a China começou a incorporar uma métrica econômica responsável pelo bem dos ecossistemas, enquanto o Reino Unido encomendou um relatório sobre a ligação entre economia e biodiversidade, de acordo com um editorial da Nature. A revista britânica (“Dasgupta Review”) descreve como nossa humanidade e nossas economias estão incorporadas à natureza.

c. A natureza pode ser integrada às economias como parte da recuperação pós-COVID de forma a proporcionar bons empregos, novas fontes de valor econômico e o capital natural necessário para a saúde pública e a resiliência da sociedade. O Fórum Econômico Mundial identificou 3 blocos de esforços para uma recuperação econômica resiliente:

i. Proteger e restaurar a natureza, por exemplo, investindo em infraestrutura urbana verde e implementando a proteção e restauração de ecossistemas em larga escala.

ii. Aumentar a produtividade dos recursos, como o desenvolvimento da infraestrutura e incentivos para apoiar modelos de negócios circulares e dissociar o crescimento econômico do esgotamento dos recursos naturais.

iii. Escalar cadeias de valor novas e regenerativas. Isto poderia incluir a aceleração da transição para agricultura e pesca regenerativas, bem como para modelos de negócios florestais regenerativos.

d. 2021 verá um foco na natureza e na biodiversidade, já que o órgão da ONU responsável pela biodiversidade – a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) – visa adotar a estrutura de biodiversidade pós-2020, que estabelece ambições e orientações sobre como abordar globalmente as preocupações com a biodiversidade e a perda de ecossistemas. A Comissão Europeia também incluiu a natureza em suas metas para 2030, e visa proteger a natureza e reverter a degradação dos ecossistemas.

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  1. Terminal Bloomberg. Acessedo em 5 de novembro, 2020.
  2. Veja aqui a definição de mudança de uso do terra. Estas atividades incluem desmatamento, expansão fronteiras terrestres, urbanização/suburbanização, desenvolvimento de infraestrutura (ferrovias, estradas, linhas de energia), alterações hidrológicas (barragens, irrigação, construção de canais), desenvolvimento agrícola (colheitas, pecuária) e extração/apropriação de recursos naturais (mineração, extração de madeira, caça).
  3. O  Gabinete do Censo dos Estados Unidos define os brancos não hispânicos como a população de americanos brancos que não são de ascendência hispânica. O hispânico branco é a porção hispânica da população branca, ou a porção branca da população hispânica. Subtraindo o hispânico branco da população hispânica total, obtém-se o número total de hispânicos que são negros, nativos americanos ou nativos do Alasca, ou asiáticos ou das Ilhas do Pacífico.

 

ClimaInfo, 22 de janeiro de 2021.

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