Falta de água e saneamento coloca bilhões em risco de contaminação por coronavírus

Anjal Prakash*

Enquanto escrevo este texto, mais de 200 mil casos de contaminação pelo novo coronavírus, COVID-19, tinham sido detectados em todo o mundo, com quase 9 mil mortes confirmadas. O vírus está causando destruição em vários países desenvolvidos neste momento. Nos países do Sul Global (Ásia, África e América Latina), a propagação do vírus é mais lenta por enquanto, mas as próximas duas a três semanas serão cruciais para verificar a propagação do COVID-19.

A lavagem das mãos – conforme diretivas da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre medidas de proteção – é uma defesa básica de primeira linha, sendo a forma mais eficaz de prevenir a propagação do COVID-19. No entanto, isso é um problema para 3 bilhões de pessoas em todo o mundo. Nas próximas semanas, testemunharemos a luta dos países em desenvolvimento com maior estresse hídrico para enfrentar a propagação desse coronavírus.

Lavar as mãos com água e sabão mata o vírus que pode estar presente na superfície da pele. Esta precaução, juntamente com o distanciamento social, é crucial para parar a propagação. Mas, para fazer isto, é preciso que as pessoas tenham acesso à água, saneamento e instalações de higiene (water, sanitation and hygiene, WASH em inglês).

O Dia Mundial da Água, que acontece neste domingo 22 de março, é o momento para discutir como podemos garantir instalações sanitárias mais seguras para milhões de pessoas no Sul Global, onde elas podem estar em risco neste momento e onde a infraestrutura de saúde é inadequada para lidar com a propagação do vírus. E, embora o distanciamento social possa ser aplicado às pessoas que trabalham em setores organizados, muitas economias em transição têm milhões de pobres, especialmente em localidades urbanas, que trabalham de maneira informal. Como mantê-las seguras e, ao mesmo tempo, não atrapalhar seu sustento diário?

Felizmente, este coronavírus não foi detectado na água potável e os métodos convencionais de tratamento de água podem remover ou neutralizar o COVID-19. No entanto, para impedir sua propagação, muita ênfase tem sido dada ao saneamento e à higiene.

Para garantir o saneamento e a higiene, é preciso ter acesso à água potável. O Relatório do Programa Conjunto de Monitoramento da UNICEF e da OMS sobre o Progresso em Água Potável, Saneamento e Higiene – 2000-2017 informa que, de cada três pessoas em todo o mundo, uma não tem acesso a instalações de higiene. Embora tenha sido observado um progresso significativo no sentido de universalizar o acesso ao saneamento e à água potável, ainda persistem enormes lacunas na qualidade dos serviços fornecidos.

De acordo com o relatório, 2,2 e 4,2 bilhões de pessoas ao redor do mundo não têm acesso a instalações de água e saneamento, respectivamente. Cerca de 3 bilhões carecem de instalações básicas para lavar as mãos, o que as deixa particularmente vulneráveis ao risco de contrair COVID-19.

Regionalmente, a África Subsaariana, a Ásia Central e do Sul e as comunidades da América Latina são as mais vulneráveis, já que grande parte de sua população tem acesso limitado ou inexistente a instalações de higiene. Se juntarmos os dados globais sobre lavagem de mãos com acesso à água, vemos uma sobreposição significativa, e oito em cada dez pessoas continuam a não ter sequer serviços básicos. Quase metade delas são os mais pobres do mundo, vivendo em países menos desenvolvidos, países em desenvolvimento sem acesso ao mar e pequenos estados insulares em desenvolvimento.

Muitas pessoas até têm acesso à água, mas não necessariamente tem a lavagem das mãos como uma prática higiênica básica. Esta não é apenas uma questão educacional: onde não existe água suficiente sequer para beber, lavar as mãos se torna uma preocupação secundária. As pessoas precisam fazer decisões difíceis sobre o que fazer com a água disponível.

Essa lacuna de desigualdade é um exemplo claro de quem estará sob risco nas próximas duas a quatro semanas, quando o coronavírus estiver se propagando no Sul Global. A infraestrutura de saúde nessas localidades já está sob grande pressão.

Alguns países, como Índia, estão implementando medidas fortes para combater a pandemia, incluindo atendimento médico gratuito e instalações de quarentena para a população afetada, identificando pessoas em risco e isolando-as. Fechar escolas, locais públicos e solicitar às pessoas que se autoisolem são medidas vitais para garantir que o vírus não se espalhe, o que seria um enorme fardo para a infraestrutura de saúde. No entanto, uma vez que essa crise seja superada, os países do Sul Global precisarão se dedicar de maneira significativa para proporcionar o acesso a instalações de higiene para sua população mais pobre e vulnerável.

Este problema pode piorar. O Relatório Especial do IPCC sobre o limite de 1,5ºC para o aquecimento global aponta que 80% da população do mundo já experimenta algum grau de estresse hídrico – boa parte delas, no Sul Global. A mudança do clima altera temperatura, precipitações e umidade, e, como resultado, aumenta o risco de transmissão de doenças e o surgimento de infecções transmitidas por vetores. As mortes causadas por doenças transmitidas por vetores são cerca de 300 vezes maiores nos países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos. Um planeta em aquecimento e com ecossistemas menos resilientes impõe uma ameaça ainda maior à saúde pública.

Um investimento robusto em instalações de água, saneamento e higiene deveria ser uma prioridade para os países que se encontram no centro potencial de risco. Isso significa mais financiamento para que os lares tenham acesso a água e saneamento, bem como educação higiênica.

Nossas vulnerabilidades foram expostas, assim agora precisamos ver os países implementando medidas públicas vigorosas para prover acesso a instalações de água, saneamento e higiene para os mais pobres e vulneráveis do mundo. Enfrentar esta questão implica em reduzir a demanda hídrica de outros setores. Por exemplo, o volume de água usado diretamente pelo setor de energia é considerável, representando aproximadamente 15% das retiradas de água potável globais em 2010. A transição rápida de centrais elétricas a carvão com utilização intensiva de água para fontes renováveis de energia que não dependam de água pode reduzir o estresse hídrico e ajudar a limitar o aumento de temperatura do planeta em menos de 2ºC.

A crise do COVID-19 destaca que, globalmente, somos tão fortes quanto nosso elo mais fraco. Devemos cuidar do planeta e dos mais vulneráveis, o que garantirá um ambiente seguro para todos.

Mapa 1: Proporção da População com instalações básicas para lavagem de mãos em casa, 2017

 

Fonte: World Health Organization. (2019). Progress on household drinking water, sanitation and hygiene 2000-2017: special focus on inequalities. World Health Organization: pp:10. Disponível online em https://www.who.int/water_sanitation_health/publications/jmp-report-2019/en/

Dr. Anjal Prakash é diretor de pesquisa e professor associado adjunto no Bharti Institute of Public Policy da Indian school of Business, na Índia. Ele foi o principal autor-coordenador do relatório especial do IPCC sobre Oceanos e a Criosfera e autor principal no 6º Relatório de Avaliação (AR6) do mesmo órgão. (anjal_prakash@isb.edu)

 

ClimaInfo, 23 de março de 2020.

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