setores-chave

OS SETORES-CHAVE PARA UMA RETOMADA VERDE DA ECONOMIA

As evidências de que a economia verde é a melhor alternativa para a retomada do desenvolvimento do Brasil se acumulam: levantamento feito pelo Instituto ClimaInfo em parceria com o Observatório do Clima e o GT Infraestrutura mostra que priorizar investimentos em alguns setores-chave gera empregos,crescimento econômico e melhora da qualidade de vida da população, além de reduzir as emissões dos gases responsáveis pela crise climática. A pesquisa identificou ações que podem começar no curto prazo, não exigindo tempos longos de planejamento elaboração de projetos. Elaborado com base em estudos e dados disponíveis, o relatório destaca números impressionantes:

  • Menos da metade do que é gasto atualmente com a coleta de resíduos sólidos, ou algo entre um ou dois bilhões de reais, seriam suficientes para organizar meio milhão de catadores a mais em cooperativas. Os novos catadores/catadoras representam cerca de 7% do número de desempregados no país e significam maior movimentação na economia local.

  • A meta assumida voluntariamente pelo Brasil no âmbito do Acordo climático de Paris, de alcançar 10% de ganhos de eficiência energética no setor elétrico até 2030, exige um investimento anual da ordem de R$ 12 bilhões até 2030 que, por sua vez, gerariam 408 mil empregos nos próxios dez anos.

  • A recuperação de 12 milhões de hectares até 2030 – que é a meta voluntariamente estabelecida pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris – geraria 250.000postos de trabalho.

  • O Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB) prevê investimentos da ordem de R$ 30 bilhões por ano. Como cada bilhão investido em saneamento gera 10 mil empregos apenas em obras, cumprir a meta do PLANSAB gera 300 mil empregos ainda este ano.

  • Investir R$ 1,05 milhão em energia solar distribuída permite instalar sistemas fotovoltaicos completos em mais de 260 mil residências de baixa renda, criando 6.300 empregos no curto prazo. Segundo a ABSOLAR, esse valor corresponde a 3 meses de isenção da cobrança de luz de consumidores de baixa renda cadastrados no programa Tarifa Social. Estima-se que cada consumidor obtém uma economia de R$ 31 por mês por sistema. Como as placas têm uma vida útil de 25 anos, ao final da vida do sistema, o consumidor terá economizado quase R$ 10 mil – uma poupança impressionante para as populações de baixa renda.

  • Outros dois mil empregos podem ser gerados imediatamente com investimentos de R$ 1 bilhão em

  • mobilidade ativa. Com esse investimento é possível construir 5.000 km de ciclovias, ou criar 2.000 km de faixas exclusivas de ônibus, ou recuperar e construir 1.750 km de calçadas.

  • A recuperação de 6,5 milhões de hectares de pastagens degradadas no Cerrado acresce R$ 3,4 bilhões à economia local até 2030 e reduz a pressão para a abertura de novas áreas para o agronegócio.

  • Considerando-se apenas o gasto que poderia ser evitado com purificação da água em dois sistemas de abastecimento das duas maiores cidades brasileiras – Cantareira, em São Paulo, e Guandu, no Rio de Janeiro – os benefícios gerados por serviços prestados pela natureza seriam R$ 340 milhões e R$ 260 milhões, respectivamente.

Além da geração de empregos, estas iniciativas melhoram a qualidade de vida do brasileiro:

  • Mobilidade: No Brasil, 50 mil pessoas morrem no trânsito por ano e cerca de 15% das internações por causas externas em hospitais públicos são vítimas de acidentes de trânsito. O custo econômico gerado pela mortalidade e a morbidade causada pelo trânsito e pela poluição do ar em cidades brasileiras ultrapassa a casa de um bilhão de reais por ano. Os problemas de saúde reverberam na economia, por causa de mortes prematuras e faltas no trabalho por doenças relacionadas à concentração de poluentes no ar. Em tempos de pandemia, não só a poluição é um dos fatores que aumentam a letalidade da COVID-19, mas o modelo do transporte coletivo de passageiros provou-se um dos mais graves vetores de contaminação.

  • Água e saneamento: Além dos benefícios para a saúde (como reduções de mortalidade infantil, infecções gastrintestinais, afastamentos do trabalho e mortes decorrentes de doenças), o investimento em água e esgoto favorece melhores indicadores de educação (associados a melhor desempenho escolar e um ganho de produtividade e de remuneração das gerações futuras) e promove a valorização imobiliária (em imóveis em bairros similares e que se diferenciam apenas pelo acesso ao saneamento, aqueles que estiverem ligados às redes de distribuição de água e de coleta de esgoto poderiam ter seu valor elevado em quase 14%). Atualmente, aproximadamente 35 milhões de brasileiros não são servidos por sistemas públicos de distribuição de água potável – ou seja, não têm como executar uma ação básica de combate à contaminação pelo coronavírus, que é lavar as mãos. Mas, embora dramático, o dado não expressa a realidade, que pode ser bem pior, uma vez que só contabiliza a “população atendível”, aquela que reside em áreas regularizadas, deixando de fora boa parte da população que vive em favelas, zonas periféricas urbanas e rurais, onde seus moradores são “invisíveis” para o sistema existente.

  • Resíduos sólidos: Com a coleta seletiva, reduz-se o gasto com aterros, gerando recursos para a expansão da própria coleta seletiva, criando um círculo virtuoso que pode incluir programas e instalações de compostagem e de produção de gás natural em biodigestores. Além do valor econômico destes produtos, evita-se enviar a fração orgânica para os aterros e lixões, gerando ainda mais economia – lembrando ainda que a ampliação de estações de compostagem beneficia sobremaneira a agricultura no entorno ao reduzir ou eliminar a necessidade de fertilizantes produzidos à base de petróleo.

Também reduzem perdas de produtividade:

  • A degradação em todo o país representa prejuízos anuais em torno de R$ 9,5 bilhões aos produtores. O preço por hectare de uma propriedade com pastagens de baixa capacidade de produção é cerca de metade do de uma com pastagens de alta capacidade. A degradação biológica das pastagens também leva a erosão e compactação dos solos, levando ao assoreamento dos corpos d’água e ao rebaixamento dos lençóis freáticos.

  • Os sistemas de distribuição carecem de manutenção, gerando perdas de pouco menos de 40% da água tratada pelas companhias de água. Estudo de 2018 estimou em centenas de bilhões de reais o custo do tempo perdido no trânsito todo ano.

 

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ClimaInfo, 3 de setembro 2020.

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