Temporada de Fogo
Última atualização27 de agosto de 2025
Neste ano, o Brasil sediará a COP30 em Belém, Pará. A conferência abre espaço para o país reforçar seus compromissos climáticos e assumir protagonismo em temas centrais: redução de emissões de gases de efeito estufa, adaptação às mudanças do clima, financiamento para países em desenvolvimento, energias renováveis, soluções de baixo carbono e proteção das florestas e da biodiversidade.
Em decorrência das medidas adotadas para conter o avanço dos incêndios florestais este ano (veja detalhes abaixo), o país registrou queda de 46,36% no número de focos de incêndios e de 65,8% nas áreas queimadas no território nacional em comparação ao primeiro semestre do ano passado. Esta diminuição também reflete as condições climáticas menos severas observadas ao longo do ano. Os dados são do sistema BDQueimadas, do Inpe e do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A tendência de queda dos focos de calor foi observada em cinco biomas brasileiros (exceto na Caatinga), em relação ao mesmo período de 2024, conforme os dados abaixo:
- Amazônia: queda de 80,9% dos focos de calor e 89,9% na área queimada.
- Pantanal: queda de 96,8% dos focos de calor e 99,2% na área queimada.
- Mata Atlântica: queda de 19,3% dos focos de calor e 76,4% na área queimada.
- Cerrado: queda de 28,9% dos focos de calor e 28,1% na área queimada.
- Pampa: queda de 15,9% dos focos de calor e 12,8% na área queimada.
- Caatinga: aumento de 31,8% dos focos de calor e 43,3% na área queimada.
Mesmo com as quedas identificadas, a área queimada nos primeiros seis meses de 2025 (726 mil hectares) equivale a pouco mais do que a área total do Distrito Federal, ou ainda aproximadamente 1 milhão de campos de futebol. Esses dados reforçam a necessidade da continuidade do combate aos incêndios florestais, mesmo em um cenário mais positivo do que em anos anteriores.
De acordo com Ane Alencar, Diretora de Ciência do IPAM e Coordenadora da frente de dados do MapBiomas sobre fogo, mesmo com a redução recente do desmatamento, a área queimada tem aumentado, revelando um descolamento entre as duas curvas historicamente alinhadas. Essa tendência está relacionada tanto ao acúmulo de material combustível nas paisagens alteradas quanto à intensificação de eventos climáticos extremos.
“Na Amazônia, a ignição majoritariamente vem do uso humano do fogo, especialmente ligado ao manejo da terra. O problema é que, uma vez iniciado, o fogo se espalha com facilidade, ainda mais em paisagens degradadas. Por isso, conter a propagação é tão urgente: cada incêndio amplia o risco de reincidência, reduz a capacidade de regeneração da floresta e intensifica os efeitos das mudanças climáticas”, reforça.
Como consequência direta de incêndios em áreas degradadas, o Inpe identificou um aumento de 4% no desmatamento na Amazônia, em comparação com o mesmo período de 2024. “(Está havendo) aumento dos incêndios em função das mudanças climáticas e isso está incidindo em desmatamento. Dentro da margem, podemos falar que o desmatamento na Amazônia está estabilizado, mas nosso compromisso é de desmatamento zero até 2030”, afirma a ministra Marina Silva.
“Este ano, o número de focos de fogo e áreas queimadas está mais baixo do que o esperado, em comparação com anos anteriores. Isso pode estar relacionado à continuidade das chuvas em partes da Amazônia, ao solo mais úmido no Cerrado e Pantanal, e até a uma menor incidência de atividade humana. Também temos observado uma maior presença do Estado e fiscalização nos territórios. Isso é um indicativo de que, quando há resposta coordenada, o problema pode ser minimizado”, finaliza Alencar.
Lições aprendidas e iniciativas para reduzir o fogo
Em decorrência da intensidade da temporada de fogo de 2024, o governo federal adotou diversas medidas para reduzir os focos de calor nos biomas brasileiros em 2025. Uma das primeiras ações tomadas foi a prorrogação do estado de emergência ambiental em riscos de incêndios, medida que possibilita uma gestão mais rápida dos recursos no enfrentamento às queimadas descontroladas.
Na sequência, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que o governo federal, os estados da Amazônia Legal e do Pantanal desenvolvessem planos emergenciais de ação educativa e de conscientização sobre o manejo integrado do fogo até o final de janeiro de 2025, com o direcionamento de recursos voltados à informar a sociedade sobre os riscos da utilização do fogo como método de manejo agrícola, especialmente nos estados mais afetados por incêndios nos anos anteriores.
Já em abril de 2025, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 3469/24, proposta que reúne diversas medidas para facilitar o combate a incêndios florestais e queimadas, incluindo o repasse direto de recursos do Fundo Nacional do Meio Ambiente para regiões em situação de emergência ambiental reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Por fim, em julho de 2025, o MMA e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciaram a destinação de até 150 milhões de reais em recursos do Fundo Amazônia para ações de prevenção e combate a incêndios florestais em estados do Cerrado e Pantanal. Esta foi a primeira vez que recursos do Fundo Amazônia foram destinados para outros biomas além da Amazônia, destacando a importância e relevância do tema na estratégia da pasta, assim como uma resposta integrada por parte do poder público.
Floresta mais seca
Como mencionado anteriormente, um clima mais seco é a oportunidade ideal para a propagação do fogo. A seca extrema que atingiu a Amazônia em 2023 foi considerada 30 vezes mais provável devido à crise climática, segundo a iniciativa World Weather Attribution (WWA). O estudo apontou que o fenômeno não se explica apenas pelo El Niño: o aquecimento global intensificado pela queima de combustíveis fósseis foi decisivo. Sem esse fator humano, eventos dessa magnitude seriam raros, ocorrendo talvez uma vez a cada 1.500 anos. Agora, com o aquecimento intensificando, projeções indicam que secas graves como a de 2023 podem se repetir a cada década.
O cenário de floresta mais seca favorece diretamente os agentes do desmatamento, que encontram nas empresas de petróleo e gás aliados perfeitos para devastar áreas. A Petrobras aumentou sua produção em mais de 7% em 2025 e projeta crescimento de 33% até 2030, apoiada em um plano de investimentos de 111 bilhões de dólares. No total, o país deve receber mais de 600 bilhões de reais em aportes no setor até 2029, podendo elevar sua produção a 7 milhões de barris equivalentes por dia até 2030. Esses números evidenciam a contradição: à medida que a crise climática seca a Amazônia e alimenta a destruição florestal, as próprias empresas fósseis seguem fortalecendo o modelo que intensifica o problema.
Com o presidente da COP 30, André Corrêa do Lago, contraditoriamente defendendo o aumento da produção de petróleo pela Petrobrás como um caminho para garantir recursos para a transição energética da empresa, há uma clara divergências entre os compromissos assumidos pelo Brasil e as ações concretas desenvolvidas, e como essa estratégia pode estar afastando o país do seu papel de liderança na conferência, ao tempo em que agrava os problemas ambientais e a pressão na Amazônia.
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